
Comprar a peça para um veículo, a princípio, parece uma operação simples: identificar o componente, encontrar o produto e realizar a compra. Na prática, entretanto, o ecossistema de reposição envolve milhares de combinações entre aplicações, marcas, modelos e especificações, além de toda uma cadeia complexa que abarca desde o fabricante até o reparador.
E, para quem está na ponta, um erro de identificação pode significar uma peça incompatível, uma devolução, um veículo parado por mais tempo e até eventuais custos adicionais para o reparo.
Essa complexidade ajuda a explicar por que o futuro da distribuição de autopeças passa pela expansão de canais, ao mesmo tempo em que logística, relacionamento, uso de dados e tecnologia são pontos a serem reforçados em benefício da experiência do cliente.
Digitalização ainda tem espaço para ganhar escala
Sobre o avanço de canais, temos um contexto, no Brasil, que precisa ganhar escala, afinal de contas, embora o mercado de reposição movimente cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil, apenas 6% a 7% deste volume é vendido online.
Há, portanto, um espaço relevante para o crescimento digital, sem que isso signifique substituir a relação construída entre distribuidores, varejistas, oficinas e demais participantes da cadeia. O tamanho e a variedade do aftermarket tornam, aliás, essa integração algo indispensável para o atendimento das necessidades do consumidor final.
Segundo dados do Anuário do Sincopeças, o mercado reúne mais de 800 mil produtos ativos, 8.200 marcas e 4.620 grupos de produtos. Nesse ambiente, a disponibilidade não significa simplesmente manter um grande estoque. É preciso localizar rapidamente a peça adequada, compreender sua aplicação, identificar alternativas e fazer com que a informação chegue corretamente a quem precisa tomar a decisão de compra.
A tecnologia pode reduzir parte dessa complexidade. Catálogos digitais, sistemas de busca, integração de estoques, dados de aplicação e ferramentas de recomendação permitem diminuir o tempo gasto na identificação de produtos e ampliar a visibilidade sobre a disponibilidade. Para uma oficina que precisa concluir um reparo, por exemplo, saber que uma determinada peça existe é insuficiente. É necessário saber onde ela está disponível e em quanto tempo poderá chegar.
Logística e relacionamento completam a experiência
A logística entra nesse processo como outro componente da experiência. A pressão por disponibilidade imediata torna a presença regional um fator relevante para a distribuição. Uma operação eficiente precisa combinar estoque, localização e capacidade de entrega para aproximar o produto da demanda. Quanto maior a velocidade exigida pelo mercado, menor é a margem para processos desconectados entre comercial, estoque e transporte.
Por isso, o avanço dos canais digitais na distribuição de autopeças depende também da consideração das características deste mercado. Há espaço para ampliar as vendas, mas esse crescimento precisa estar conectado a estoques regionalizados, logística, conhecimento técnico e relacionamento, utilizando o próprio potencial da tecnologia como um fator de diferenciação e de melhoria no atendimento às exigências do ambiente de consumo contemporâneo.
Com tudo isso, é possível inferir que o futuro da distribuição será híbrido. A inovação, aqui, deve ampliar a capacidade de encontrar, comparar, comprar e acompanhar produtos. Já a operação precisará garantir disponibilidade e velocidade. E o relacionamento continuará sendo fundamental para construir confiança.
E tudo isso, sem dúvidas, com a experiência do cliente assumindo um primeiro plano, já que é ele quem, por fim, sustenta todos os movimentos do mercado e pode garantir a longevidade de empresas em um ambiente de negócios em plena transformação.

Simone Azevedo ([email protected]) é CSO e Sócia da Mobensani, uma das principais fabricantes brasileiras de componentes metal-borracha para o mercado automotivo. À frente da estratégia da companhia, atua na expansão dos negócios, inovação, governança e transformação da operação. Tem mais de 30 anos de experiência no setor. É também cofundadora da Associação das Mulheres do Mercado Automotivo (AMMA), com atuação voltada à ampliação da presença feminina na indústria.
*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.
