Nossa função, meu e de outros dois colegas, era vasculhar os arquivos dos acionistas, de A a Z e fazer o levantamento de suas ações, descartar o cupom referente ao ano em exercício e, com base nesse levantamento, preencher uma tabela com o nome, endereço e quantidade de ações que este acionista tinha.
Lembro-me dos títulos: os da Willys Overland do Brasil eram em papel timbrado com o desenho de um Jipe e os da Ford tinham o desenho de um Galaxy. A fábrica do Ipiranga era muito bonita. As divisórias dos escritórios eram de madeira escura e vidro, da década de 50. Ainda me lembro do cheiro da madeira quando entrava no lobby principal do edifício. As mesas eram de aço e sobre elas máquinas de escrever, calculadoras de fita de papel e até máquinas de somar Facit de manivela.
Os apontamentos oriundos de nossas pesquisas alimentavam relatórios com nomes de acionistas e o número de ações que tinham. Borderôs de pagamentos eram então montados e conferidos um a um. Com esse documento geravam-se cartões perfurados que, por sua vez, geravam um arquivo de computador que era gravado em fita magnética e então levado até o Bradesco na Cidade de Deus. Lá era feita a impressão dos cheques que eram pagos aos acionistas pelo correio ou então no guichê do caixa do departamento de ações no Ipiranga.
Na época eu possuía uma calculadora HP29C que era programável. Desenvolvi um programa que calculava todos os campos do borderô somente colocando o número de ações que o indivíduo possuía. A linguagem de programação era RPN, nada amigável, mas bastante interessante, pois a calculadora tinha memória continua. Era possível deixar o programa na máquina.
Mostrei o que tinha feito ao meu supervisor, Sr. Romeu, uma pessoa muito simpática e bem humorada, que adorava pregar peças em seus colegas. Ele achou que era uma pegadinha que havíamos montado para ele. Só se convenceu quando me deu o borderô que havia acabado de fazer para que eu processasse. Ele ficou pasmo! E naquele momento aprendi que a tecnologia poderia ter um impacto nefasto na força de trabalho. O programa que fiz reduziu substancialmente a carga de trabalho e os outros dois colegas que foram contratados para o serviço, foram demitidos.
Terminada a fase dos borderôs, me coube transportar os mesmos para São Bernardo do Campo e depois levar as fitas magnéticas para o Bradesco. Usávamos carros da frota e confesso, adorava dirigi-los. O que mais gostava era o Corcel II LDO. Verde metálico, com interior marrom.
Aprendi muitas coisas naquele trabalho. Consigo lembrar-me do refeitório de bandejas de aço inox, do cheiro da fábrica que então produzia a F100 e o Landau. Era um mundo novo e motivador. Quando o pagamento dos dividendos terminou, me indicaram para fazer uma entrevista no departamento de consórcios, que estava contratando funcionários. A pessoa que me entrevistou me perguntou por que eu, um estudante de engenharia elétrica, queria trabalhar em consórcios. Eu disse que queria trabalhar na Ford. Mais: que eu precisava!
Ele então me disse que um dos funcionários de RH do Ipiranga havia sido promovido para supervisor na Philco Rádio e Televisão, empresa do grupo Ford na época, e que ele poderia, se eu quisesse, fazer uma carta de apresentação a ele. Fiquei muito entusiasmado com a possibilidade de trabalhar na divisão eletrônica da Ford. Fui até Cumbica, me apresentei ao Sr. Antonio Carlos Trujillo Rodrigues que me disse que não havia vaga de estagiários para segundo anistas de engenharia. Disse a ele que era técnico de eletrônica. Ele então me falou que havia vagas para técnicos de linha. Trabalho horista na produção. Foi assim que virei funcionário efetivo da Philco Rádio e Televisão. Concertador C, foi o segundo registro da minha carteira de trabalho.
Faz tempo que venho pensando em compartilhar como iniciei minha carreira na indústria automobilística. Este ano completo 50 anos de idade e 32 de trabalho. Aqui, fazendo esse texto, no meu computador, pesquisando na internet as imagens das coisas que fizeram parte do meu passado, me dou conta do progresso imenso que experimentei. Imaginem o que vem pela frente. Motivador, excitante, e sem dúvida, muito divertido.
Abaixo algumas relíquias que tive o prazer de tocar com as próprias mãos.
