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O legado de Raul Randon

Um dos mais admirados empresários do setor automotivo no Brasil encerra sua trajetória

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Redação AB

05 mar 2018

4 minutos de leitura

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Uma das mais admiráveis histórias do setor automotivo nacional foi encerrada no último sábado, 3, com o falecimento de Raul Anselmo Randon, internado desde dezembro em São Paulo e que sofreu uma parada cardíaca após complicações de uma cirurgia no fêmur. Raul, fundador das Empresas Randon, estava com 88 anos e deixa um verdadeiro legado ao transformar sua empresa em uma das poucas corporações bem-sucedidas da indústria automotiva de capital nacional, que resistiu ao domínio estrangeiro e se tornou uma competitiva multinacional brasileira, graças especialmente ao espírito empreendedor de seu patriarca.

Determinação e persistência marcam a vida de Raul Randon, bem como o planejamento e trabalho em equipe, desde a pequena ferraria fundada em 1949 por ele e seu irmão Hercílio Randon, e que se transformou no conglomerado de nove empresas fornecedoras de produtos e soluções em transporte, líder no mercado brasileiro e agora presente em todos os continentes.

“Fomos ousados em vislumbrar e sonhar o futuro; fomos prudentes nos investimentos e avanços tecnológicos; fomos fortes nos momentos de crise, na adversidade. Por acreditarmos no Brasil, sempre projetamos produtos afinados com o progresso, apostando no desenvolvimento nacional”, costumava afirmar Raul Randon.

A história de quase 70 anos das Empresas Randon confunde-se com a trajetória pessoal e profissional de seu próprio fundador. Descendente da segunda geração de imigrantes italianos que foram para o Rio Grande do Sul, Raul nasceu em Tangará (SC), em 6 de agosto de 1929. Filho de Abramo e Elisabetha Randon, Raul recebeu uma educação muito rígida voltada para o trabalho; o autodidata bem-sucedido adquiriu conhecimentos por meio de cursos rápidos, palestras, seminários, mas principalmente na vida, aprofundando seus conhecimentos nas áreas administrativas, financeiras, de custos, vendas, produção e, posteriormente, agricultura, fruticultura e pecuária. Começou a trabalhar cedo, aos 14 anos na ferraria do pai, permanecendo ali até os 18 anos, quando, em 1948, foi prestar serviço militar obrigatório. Em 1949, associou-se ao irmão em sua pequena oficina de reforma de motores em Caxias do Sul (RS), onde tudo começou. Casou-se aos 26 anos, em 1956, com Nilva Therezinha Randon, formando uma família com cinco filhos: David, Roseli, Alexandre, Maurien e Daniel.

O pequeno negócio na área metalmecânica deu início a uma das mais importantes companhias da indústria automotiva da América do Sul. Atualmente, o grupo empresarial Randon está integrado pelas empresas controladas, além de filiais e escritórios em todos os continentes. No Brasil,
a companhia mantém 7,8 mil empregos diretos.

Raul Randon permaneceu todo estes anos próximo dos negócios. Até então, ocupava o cargo de presidente do conselho de administração da Randon Implementos. Também era membro do conselho consultivo da Parceiros Voluntários e da Câmara de Indústria e Comércio, ambas de Caxias do Sul-RS, além de diretor-presidente do Instituto Elisabetha Randon e diretor-presidente da Rasip Alimentos, negócio da família que produz queijos, vinhos e mantém a produção e cultivo de maças.

Como administrador, Raul se preocupou em cercar-se de profissionais competentes, tecnicamente bem preparados nas diferentes áreas de suas empresas, dando-lhes autonomia e compartilhando com eles os benefícios do sucesso moral, social e financeiro. O sucesso empresarial, a prosperidade e solidez dos negócios não mudaram a forma simples com que Raul Randon sempre se relacionou com todos, dentro e fora da empresa. Foi, sobretudo, um homem simples, que construiu sua vida com muito trabalho, e reconhecidamente um homem dedicado à família e à comunidade.

Por todas as suas conquistas empresariais e vida exemplar, Raul foi várias vezes reconhecido pelo homem de negócios e sobretudo, por sua sempre gentil maneira de lidar com todos ao seu redor. Recebeu mais de 150 homenagens em vida, destacando-se entre elas Comendador da Cruz de Mérito Cultural, registrada no Ministério da Educação e Cultura; Mérito Industrial conferido pela FIERGS; Troféu Homem do Aço 1977, conferido pela Associação do Aço do Rio Grande do Sul; homenagem da Anfir, Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários, da qual foi idealizador, fundador, primeiro presidente e presidente de honra; título de Cidadão Caxiense, conferido pela Câmara Municipal de Vereadores de Caxias do Sul; Medalha do Conhecimento, instituída pelo Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior, com apoio da CNI e do Sebrae, além de uma homenagem do presidente da Itália, com a Ordem do Mérito da República Italiana, no grau Comendador.

Em 2017, recebeu na Itália o título de Doutor da Universidade de Pádua, uma laurea – Doutor Honorem em Ingegneria Gestionale – atribuída ao primeiro empreendedor brasileiro pela sua dedicação no âmbito social. Randon foi o segundo brasileiro apontado pela Universidade, o primeiro tinha sido o escritor Jorge Amado, em 1996.

“Um grande homem que só não era maior que seu próprio coração generoso”, descreve o atual presidente da Anfir, Alcides Braga, em nota de pesar.