
O que quero dizer é que o nosso comportamento naturalmente se adequa ao ambiente em que estamos. A cultura de um lugar determina o comportamento das pessoas ali inseridas, e por sua vez, sabemos que o comportamento das pessoas de uma organização determina os seus resultados. Assim, para elevar os resultados de uma empresa de forma sustentável, deve-se primeiro edificar uma cultura coerente com os princípios, valores, propósitos e objetivos mais altos de desenvolvimento.
Na realidade, as empresas são potências em busca de sua autorrealização. Se quisermos conhecê-las precisamos saber o que querem, o que valorizam, para onde desejam ir, e a partir daí entender onde estão e medir a distância entre o seu status atual com a sua visão futura.
Este caminho é repleto de altos e baixos, desafios e testes em que os valores das empresas e de seus executivos são postos à prova. Objetivos de curto prazo, situações financeiras críticas ou de baixo desempenho comercial frequentemente causam desvio ou quebra de valores e princípios organizacionais. O pensamento de curtíssimo prazo acaba se sobrepondo ao de médio e longo por uma questão de sobrevivência. Em situações como essa, muito do que foi construído ao longo de duros anos é colocado de lado pelo momento, por um novo “programa”, por uma “reestruturação necessária” ou ainda pelo mote de uma “nova cia”.
Não prego que os objetivos de curto prazo nunca sejam sobrepostos aos de médio e longo prazo. Na condição de empresário neste país por mais de 20 anos sei muito bem o que é sofrer de forma imediata e não poder ver objetivos ou implementar planos e iniciativas no horizonte mais distante.
Depois de uma situação como essa, sobra o que realmente está em jogo. Seus funcionários, parceiros, fornecedores e clientes ainda acreditarão na sua marca? Na sua palavra? Em seus valores? Ou tudo o que você pregou durante anos terá sido em vão?
Nesta hora, é o líder – CEO, titular, diretor geral – quem dá o tom e assegura a continuidade ou não da cultura da empresa. Ele é o arquiteto-chefe e principal influenciador da cultura da empresa. Sem uma cultura única e forte uma empresa pode rapidamente se deteriorar. Uma conduta forte e consistente em todo o negócio é fundamental para que o empreendimento atinja seu potencial máximo.
Mas qual é a razão de ter de imprimir uma cultura forte hoje em dia? Uma concessionária não consegue sobreviver sem isso? Não mais! Foi-se o tempo em que, sem uma gestão e uma cultura profissional, um distribuidor conseguia auferir seus lucros e crescer. Se ainda não desapareceu, este distribuidor está com seus dias contados.
São várias as razões que explicam a necessidade de fortalecer a cultura da companhia e que formam o novo contexto e ambiente empresarial. Uma delas é o mercado muito mais competitivo, com margens apertadas, em que qualquer desperdício pode ser a diferença entre o azul e o vermelho. Paralelamente, o aumento da procura por mão de obra qualificada capaz de assimilar as novas tecnologias e processos também pressiona o negócio.
Outro fator importante é a chegada de uma nova geração de clientes cada vez mais informada e exigente, uma sociedade altamente conectada e cujos valores sociais são facilmente adquiridos ou (no mínimo) fortemente influenciados pelas novelas da Globo, programas como BBB, publicações inúteis no Facebook. E quando um porcentual desta população verdadeiramente “Face a Book”, este está permeado de centenas de “tons de cinza”.
O que quero ressaltar é o que esta cultura popular de hoje em dia valoriza e traz para a sociedade como um todo e, portanto, para as pessoas que vêm trabalhar em nossas empresas. São valores e comportamentos que nada contribuem para o desenvolvimento de uma cultura profissional orientada para o serviço ao cliente, ao respeito humano e ao esforço individual e grupal necessários para a conquista de objetivos comuns.
Se pararmos para analisar muitas das mensagens dos meios de comunicação que nos bombardeiam constantemente, veremos que o ganho fácil, a valorização da esperteza, o declínio da civilidade social, o aumento da requisição de direitos sem o devido esforço e mérito, a normalização do imoral, a sobrevalorização do material e do consumismo, a exposição de pessoas bem sucedidas e cultas como nerds ou bodes expiatórios e a destruição do valor da família e da hierarquia são temas e elementos centrais que permeiam todos os atuais meios de comunicação populares e que aos poucos vão formando um lugar comum na sociedade.
Essa cultura externa atual não se sobrepor à construção de uma cultura empresarial profissional, responsável e saudável. O líder da empresa deverá ter voz mais alta, forte e firme, capaz de abafar estas mensagens e trazer um novo ambiente e comportamentos esperados para sua empresa. Pessoas competentes, responsáveis, comprometidas e que entregam resultados são as que realmente deverão ser valorizadas e reconhecidas por todos.
Hoje muitas pessoas acham que merecem bônus ou promoção simplesmente por ter vindo trabalhar, e não por que excederam em seus resultados e entregas. Por acaso, está subentendido que alguma empresa contrata alguém para ser um mau profissional? Obviamente não. Assim, ser um bom profissional é dever de todas as pessoas pelo salário que foi acordado. Porém, infelizmente, essa não é a cultura da nossa sociedade, e, se os líderes de uma empresa não derem os sinais claros para a organização do que espera das pessoas, esta cultura exterior prevalecerá sobre a cultura da empresa.
Nos momentos difíceis em que os líderes são testados e postos à prova, se eles sucumbirem às dificuldades de curto prazo e perderem a credibilidade de seus princípios e valores, não haverá outra forma de reconstruí-la senão trocando o líder. Caso isto tenha acontecido com o titular da concessionária, as pessoas sairão da empresa ou jamais se esquecerão do fato, que provavelmente se tornará uma referência pessoal geralmente negativa.
O inverso também é verdadeiro. Se em momentos difíceis, os líderes provarem os seus valores e seus funcionários, fornecedores, parceiros e clientes forem testemunhas disso, um laço de fidelidade e admiração é construído e uma relação sólida é então estabelecida.
Para o líder resta o papel de ser claro e transparente em suas expectativas e crenças e mantes seus discursos e atitudes coerentes. Ele deve dar feedback e reconhecer o que foi bom e o que não foi. Deve ser forte para confrontar aquilo que é contra a cultura da organização, persistente, resistente e seguro o suficiente para enfrentar as adversidades do ambiente e lutar para que a sua cultura prevaleça a qualquer intempérie.