Alguns anos atrás o meu compadre, um tremendo jogador, me sugeriu colocar uma mesa em casa. Estava construindo uma área de lazer e ele, que era presidente da Federação Paulista de Sinuca, me conseguiu uma mesa usada em excelente estado, que comprei e deixei guardada no depósito por um ano.
Quando a obra ficou pronta eu montei a mesa, comprei as bolas e os tacos e comecei jogar um pouco. Nem preciso dizer que meu compadre é quem vence tudo até hoje. Os efeitos, as jogadas mais técnicas e a diversão de ter amigos em casa, fazem com que meu ego fique sob controle. Perder não me incomoda. Gosto das jogadas difíceis e ver alguém que conhece jogando, é muito bom. E de vez em quando faço algumas jogadas bacanas.
No final do ano passado, minha filha me deu de presente uma aula de sinuca. Agendei e fui jogar por 1 hora e meia na Federação, com o Joaquinzinho. Um senhor nos seus sessenta e poucos anos, bem magrinho, boa gente, que me recebeu com seu cartão em mãos. Objetividade total.
Dizia:
AULAS DE SINUCA
Joaquinzinho
Campeão Brasileiro
Tel: 7319-3698
Perguntou que mesa eu tinha em casa, que bolas, que regra eu queria jogar (escolhi a brasileira), arrumou as bolas e pediu para que eu iniciasse a partida. Eu, um fã do esporte mas um jogador sofrível e o campeão brasileiro. Seria uma humilhação.
Dei minha tacada. Ele colocou as bolas no lugar novamente e me disse: “quando der a saída, jogue a bola vermelha para a direita e posicione a branca para a esquerda. Dei a saída de novo e fiz como ele mandou. Começamos a jogar, ele só posicionando as bolas sem matar, com categoria. Eu jogava e ele observava.
Em pouco tempo, notou quais eram meus erros de posicionamento, e começou a corrigir meu jogo. Parecia mágica. Com algumas dicas, percebi que minhas tacadas melhoraram muito! Numa jogada específica, errei a bola e ele me disse: “Ivanzinho, independentemente de quem seja seu professor, uma coisa não dá para aceitar. Pode errar a jogada, a tabela e o efeito, a bola jamais! Pense sua jogada antecipadamente, posicione-se bem, e com calma, faça seu movimento”.
Voltei à jogada, segui as recomendações, e não errei mais a bola. A medida que jogávamos, e ele fazia seus comentários, comecei a pensar nas semelhanças entre aquele treino e a vida corporativa.
Quantas vezes nos beneficiaríamos da supervisão de alguém mais experiente. Poderíamos melhorar muito nossa performance se um mentor pudesse nos auxiliar a encontrar pontos fracos e sugerir maneira de superá-los. Talvez um pequeno ajuste nos abriria novas perspectivas.
Notei também que, apesar da categoria e da classe, Joaquinzinho era acessível, humilde, sem abrir mão da sua arte, sem medo de dar um feedback honesto.
Nem preciso dizer que farei mais aulas. Me diverti muito, e sei que posso melhorar muito meu jogo. Caso você goste de sinuca, recomendo o Joaquinzinho.
E você? Tem um mentor na sua vida corporativa ou vai correr o risco de ir para a caçapa?
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Ivan Witt
26 de setembro de 2010