
A Nasa e o setor automotivo têm mais em comum do que pode parecer inicialmente. A agência de exploração espacial dos Estados Unidos tem o desafio de explicar grandes descobertas cientificas e avanços da engenharia a pessoas comuns e, com isso, atrair uma visão favorável da opinião pública e viabilizar a captação de recursos para realizar novas missões e desbravar o universo.
Ainda que não sejam órgãos públicos, as empresas do setor automotivo têm as mesmas necessidades e, além de tudo, precisam dar lucro. Em algum nível, compartilham questões semelhantes com a Nasa: precisam fazer ciência e inovar, divulgar seus avanços aos consumidores e construir uma imagem favorável aos produtos e tecnologias para acelerar vendas e fomentar a construção de políticas públicas.
E o momento não poderia ser mais conturbado, com aspectos como a transição energética e o avanço dos carros elétricos e autônomos, além da necessidade de responder às mudanças climáticas.
Uma série de especialistas da agência dos Estados Unidos participou do SXSW (South by Southwest), maior festival de inovação do mundo, que aconteceu em março em Austin, no Texas. A seguir, enumeramos cinco posturas da Nasa que podem servir como inspiração para o setor automotivo:
1- Compartilhar incertezas é poderoso
Lori Glaze, diretora da divisão de ciência planetária da Nasa, falou no evento sobre a missão Europa Clipper que vai explorar a segunda lua de Júpiter, saindo da terra em outubro de 2024. O satélite natural é uma esfera composta, aparentemente, por muito gelo.
“A missão é um passo para responder à nossa grande pergunta, se estamos sozinhos no universo”, diz. Segundo ela, o objetivo é entender se há mesmo água ali, microorganismos, se existe alguma fonte de energia que sustente um ecossistema, etc.
Para a diretora, é importante dividir as dúvidas durante a jornada – algo pouco comum no setor automotivo, em que as empresas e lideranças buscam compartilhar apenas certezas. Ao contar o que não sabe, a agência engaja o público e, claro, evita que expectativas sejam frustradas. “Temos um trabalho muito duro pela frente e as dúvidas fazem parte dele. Não estaríamos fazendo ciência se começássemos projetos com todas as certezas”, diz.
2- Storytelling é coisa séria na Nasa
Uma das fortalezas da agência espacial é o storytelling, a capacidade de envolver as iniciativas da organização em boas histórias, que aproximam pessoas comuns do complexo trabalho da Nasa. Sami Aziz é produtor executivo de vídeo e broadcasts da organização. Com a bagagem de toda uma carreira construída na indústria do entretenimento, como produtor e diretor de reality shows, ele está ali há cerca de dois anos com a missão de adaptar as mensagens da agência espacial às atuais demandas do vídeo.
“As pessoas assistem cada vez mais streaming, precisamos estar dentro deste universo. Temos belas imagens produzidas pelos satélites da Nasa e decidimos que cada teaser, cada vídeo sobre novas expedições precisa ser algo épico, como o trailer de um grande filme”, conta.
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Segundo ele, dessa forma, a Nasa conta a história de cada missão de um jeito que se equipara ao entretenimento e atrai mais a atenção do público.
3- Setor automotivo pode aproximar ciência e engenharia das pessoas
Um dos maiores desafios de divulgar as iniciativas da Nasa é traduzir ciência para uma linguagem acessível e interessante. E isso começa internamente. “Precisamos da ajuda dos nossos profissionais Stem (das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para traduzir o trabalho deles de forma criativa”, conta Jenny Mottar, diretora de arte da Nasa.
Um dos exemplos dos resultados desse trabalho são os pôsteres que a agência divulga no Dia da Terra, que combinam uma visão artística com QR codes informativos. O mesmo acontece com algumas missões e descobertas.
“Temos trazido muitas imagens de crianças nos nossos materiais. Isso não só torna as informações mais atrativas ao público, como mostra o trabalho na Nasa como uma possível profissão para as novas gerações”, diz.

4- Nasa explora o espaço e todas as oportunidades de comunicação
Ações educativas são mais uma frente relevante para o posicionamento da Nasa. Nesse sentido, a agência fez parceria com a CNN para criar um momento na programação em que traz informações das suas descobertas, sempre com rico apoio visual.
O escritório central da Nasa, em Washington, D.C., também foi pensado para mostrar aos visitantes a relevância do trabalho da instituição. “Temos um grande lustre que, por meio do movimento das luzes LED, indica o volume de dados que estamos recebendo do espaço ou enviando a partir da terra”, conta David Rager, diretor criativo da Nasa.
Quem visita o escritório também pode experimentar como é estar flutuando no espaço em uma sala que simula essa sensação. Além disso, há um enorme painel digital de informações sobre as missões. “Não podíamos ter um escritório chato. Nosso espaço é uma oportunidade de reforçar a mensagem da agência”, determina.
Uma das próximas novidades que a Nasa vai trazer, conta Rager, é um site com informações para explicar ao público como funcionam os eclipses e a melhor forma de acompanha-los. “É o nosso papel esclarecer esses assuntos, uma oportunidade de estarmos perto das pessoas”, avalia.

5- Mensagem e propósito caminham lado a lado
Todos os especialistas da Nasa reforçaram a importância de trabalhar a comunicação e iniciativas de engajamento com muita conexão com o propósito da agência de inspirar o mundo ao explorar novas fronteiras, desenvolver conhecimento e novas tecnologias.
“As tendências mudam e precisamos nos atualizar, mas é essencial manter a consistência com quem somos, com a marca”, diz Rager. Segundo ele, o esforço é por sempre usar a comunicação e o design como expressão do propósito da instituição.
