Em palestra da SAE sobre gestão estratégica da manufatura, também em maio, a engenheira de produto da Volkswagen, Josy Santos, reportou dados alarmantes:
No Brasil, para produzir uma peça estampada são necessários quatro homens, quatro ferramentas e quatro máquinas. Conseguimos produzir 500 peças por hora. No leste europeu, para produzir a mesma peça necessita-se de um homem, uma ferramenta e uma máquina, que produzem 1.500 peças por hora. Informou também que 75% das nossas máquinas estão ultrapassadas e que nossa indústria tem demanda de 15 a 18 milhões de horas de ferramentaria, mas só conseguimos atender um terço disso. O resto é feito fora do País.
O professor José Pastore no Fórum de Recursos Humanos revelou que de 2002 até 2012, o custo unitário do trabalho aumentou 158% no Brasil. Já é o mais alto do mundo. No mesmo período a produtividade cresceu 3,7%. O custo trabalhista de um funcionário para a empresa, que no passado era de 120% do valor do salário do colaborador, é de agora 180%, aí incluídos os custos da justiça trabalhista, que precisam ser contingenciados. O vice-presidente do CNI, Alexandre Furlan, mostrou que nossa CLT, redigida em 1943, quando a o Brasil era rural com apenas 30% da população vivendo em zona urbana, onde o nível e a qualificação dos trabalhadores eram de baixo nível, os sindicatos e as leis do trabalho eram praticamente inexistentes, onde a produção era verticalizada e atendia ao consumo local e se seguia um modelo de produção fordista, é exatamente a mesma a 70 anos. Já o Brasil mudou completamente. Tem 84% de sua população vivendo em cidades, tem pluralidade de atividades produtivas, é globalizado e tem produção descentralizada em redes horizontalizadas, compete internacionalmente nos mercados interno e externo, tem um sindicalismo forte e atuante e possui uma diversidade de formas de contratação de trabalho. Mencionou também que grande parte dos alunos que se matriculam no Senai, tradicional formador de mão-de-obra para nosso setor, chega sem saber ler direito.
Para fechar o cenário, foi publicado o ranking mundial de competitividade e entre 2010 e 2014 o Brasil perdeu 16 posições, ficando agora em 54º lugar, à frente apenas de Eslovênia, Bulgária, Grécia, Argentina, Croácia e Venezuela.
Não há plano de redução de custos, aumento de vendas de peças e acessórios e redução de jornada e demissões que dê conta de tamanha defasagem. Enxugar gelo seria a melhor analogia para o impacto positivo dessas medidas.
Precisamos de tratamento de choque. Reforma trabalhista, tributária e tecnológica. Não é novidade. Mas não resistiremos a mais um ciclo negativo com medidas paliativas. O preço a pagar por não fazer o que tem que ser feito é o da mediocridade, da estagnação, se muito. As eleições se aproximam e a indústria automobilística, dona de uma das mais longas e sofisticadas cadeias produtivas, geradora de milhares de emprego, precisa deixar claro a todos os candidatos o tamanho do buraco que se vislumbra. Não somos o maior setor do PIB, mas grande parte dele se vale dos produtos que produzimos para crescer.
Mais do que negociar medidas de curto prazo, urge definir como serão as bases do futuro onde serão edificados todos os investimentos que o setor diz que fará.
O Brasil do futuro depende disso e não podemos esperar mais.