
Uma segunda revisão das projeções ao mesmo tempo em que é a terceira estimativa oficial para o ano, tudo isso em apenas cinco meses, mostra a postura preocupada da entidade com o cenário atual. No início deste 2015, ainda em janeiro, as montadoras haviam projetado estabilidade com relação ao ano anterior, quando os emplacamentos somaram 3,49 milhões de unidades. Após um primeiro trimestre conturbado, com atraso em regulamentação das novas condições do Finame PSI para financiamento de veículos pesados, além de uma constante baixa dos emplacamentos de leves, a entidade revisou as vendas para baixo pela primeira vez. Naquela ocasião, ainda previa pouco mais de 3 milhões de unidades, com queda de 12,3% para leves e de 31,5% em pesados.
– Veja aqui os dados da Anfavea.
Contudo, o balanço dos primeiros cinco meses do ano revela um mercado ainda mais devagar que o previsto, o que forçou a entidade a revisar as previsões mais uma vez. Para o segmento leve, que inclui automóveis e comerciais leves, as montadoras esperam queda de 19,5%, para 2,68 milhões de unidades contra as 3,33 milhões de unidades entregues no ano passado. Já para pesados, a previsão é ainda mais amarga: a queda deve chegar aos 41%, segundo a Anfavea, com um total de 97 mil unidades, entre caminhões e ônibus (leia aqui).
Dados da Anfavea sobre o acumulado entre janeiro e maio mostram que as vendas diminuíram 20,9% no comparativo anual, passando de 1,39 milhão para 1,1 milhão de unidades. Já no comparativo mensal, os licenciamentos de maio ficaram 3% e 27,5% abaixo dos volumes de abril deste ano e de maio do ano passado, respectivamente, marcando este como o pior maio desde 2007.
“Nosso desempenho em maio ficou bastante aquém do esperado”, desabafou Luiz Moan, presidente da Anfavea, durante a divulgação dos resultados na segunda-feira, 8, em São Paulo. Ele destacou que o contínuo rigor na seletividade para concessão de crédito ainda dificulta as compras. “Conforme o último dado que temos em mãos, que é de abril, o saldo de financiamentos caiu 6,1% sobre mesmo mês de 2014, ao mesmo tempo em que o volume de novos financiamentos recuou 14,3% na mesma comparação”, informou, acrescentando que a inadimplência segue em queda, com 3,87% em abril. “Há um ano, este índice era de 4,96% e se olharmos para abril de 2013 e 2012, era superior a 7%. Isso também reflete a maior seletividade de concessão”, disse.
Ainda citando dados de abril, ele admitiu que os atrasos dos pagamentos entre 15 e 90 dias, que é usado como termômetro para prever a inadimplência, estão aumentando. “Isso faz com que os bancos se tornem mais seletivos, afetando ainda mais nossos licenciamentos.” Moan disse ainda que o nível da confiança do consumidor também abalou o desempenho das vendas em maio. “O nível da confiança teve uma redução bastante forte. Ainda não temos condições para prever recuperação, uma vez que as regras do ajuste fiscal não foram todas estabelecidas.”
ENTRAVES
O que poderia representar certo alento em meio às dificuldades do mercado se tornou entrave para o segmento. Moan explica que a nova regra de retomada do bem no caso de atraso do pagamento em financiamentos ainda não surtiu qualquer efeito. Segundo o executivo, a lei está publicada, mas algumas contestações impedem o andamento dos trâmites. “É necessário aguardar os julgamentos dessas contestações para que o sistema financeiro tenha mais segurança na sua aplicação [da retomada].”
Por outro lado, Moan argumenta que o momento atual é conjuntural, o que não impacta no nível de investimento das montadoras no País. “Ninguém faz investimento pensando no curto ou mesmo no médio prazo. Um estudo interno que fizemos aponta que em 2034 o mercado interno terá capacidade para 7 milhões de unidades por ano. O nível de motorização do País é um dos mais baixos do mundo, revelando um potencial de forte crescimento. Acredito que os níveis devem voltar conforme o aumento do PIB per capita.”