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Pé no freio

No dia 28 de novembro passado participei de um evento da SAE em Belo Horizonte. Falei sobre escassez de mão de obra. Não por coincidência, na palestra da economista sênior do Bradesco, Fabiana Dátri, que antecedeu a minha, foi dito que o País estava pagando a conta de não ter feito a lição de casa e que os dois maiores inibidores para o crescimento em 2013 seriam a falta de obras de infraestrutura e a falta de mão de obra.
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Redação AB

10 jan 2013

4 minutos de leitura

Um problema de quase todos os setores, mas por estar palestrando a engenheiros, foquei-me nesses profissionais. Resumo da conversa: devem faltar 4 mil engenheiros por ano para o setor automobilístico (veja aqui).

O problema não tem solução a curto e médio prazo e será preciso trabalhar na manutenção do plantel atual, preparando-se para oferecer melhores condições que a concorrência. A situação piora para quem necessita que estes profissionais desloquem-se para regiões distantes dos grandes polos industriais. Avesso a mudanças, os profissionais que possuem as características mais desejadas pelo mercado, experiência e domínio do idioma inglês, encontram plena oferta de empregos onde estão e raramente se sujeitam a deslocamentos, seja por trabalhar em regiões distantes de onde estão aculturados ou por querer manter o trabalho do cônjuge e a educação de seus filhos. Empresas já buscam tecnólogos para suprir a demanda, mas há falta desses profissionais também. Muitos estão lançando mão de aposentados, que têm maior flexibilidade de deslocamento, mas em contrapartida não se expõem a jornadas extenuantes. Sabem que nessa fase da vida a prioridade é manter a saúde ao invés de alcançarem metas agressivas, as vezes impossíveis, em troca de uma carreira ascendente.

A única alternativa viável é criar uma organização que funcione com menos gente. Não falo de “reengenharia”, tema amplamente conhecido e usado. Sim, ainda existem oportunidades de melhora de processos. Mas em um mundo onde quase tudo se resolve com auxílio de computadores e máquinas, esse caminho, quando trilhado, costuma reduzir mão de obra direta e aumentar a de profissionais qualificados.

No encontro da SAE houve também uma palestra do assessor da presidência do BNDES, Marcelo Miterhof. Ele deixou bem claro que o sucesso do novo regime automotivo, o Inovar-Auto, que vigorará entre 2013 e 2017, dependerá do desenvolvimento da cadeia de suprimentos. Será necessária uma parceria articulada entre as montadoras e seus fornecedores, na qual deverá prevalecer uma aliança técnica e financeira, no lugar do atual antagonismo predador por preços mais baixos a curto prazo. Mencionou que há dinheiro disponível no banco para emprestar à cadeia para modernização e inovação, para torná-la competitiva. Poucas empresas, entretanto, tem como pleitear tais recursos, pois não dispõem de garantias para dar em troca do empréstimo. Disse também que o banco aceita contratos de longo prazo como garantia, mas que as montadoras não os disponibilizam a seus fornecedores.

Creio que aí reside uma enorme oportunidade. Nunca a palavra confiança foi mais necessária. Quanto mais confiança houver na relação, maior será a velocidade e a simplicidade dos processos.

Será necessário também diminuir a complexidade da cadeia de suprimentos. Um número expressivo de profissionais qualificados cuida dessas especificidades entre montadoras. De parafusos e arruelas a processos de estampagem e pintura, de programas individuais de redução de custo a estratégias de negociação nas quais advogados e financeiros são mais relevantes do que engenheiros e compradores. Há uma considerável quantidade de peças que poderia ser compartilhadas entre plataformas e marcas. Acredito que a velha guarda, com sua sabedoria e vivência, e a nova geração, que domina a velocidade de desenvolvimento e aplicação, unidos, podem levar adiante este desafio que transformará o cenário da indústria.  

Não é conceito novo, mas nunca foi implementado. Os sistemistas que fornecem à todas O&Ms podem contribuir muito nesse sentido, sugerindo uniformidade e adequação entre produtos sem perder o DNA de cada marca. Produzir realmente em escala e com isso simplificar processos, baixar custos e ser competitivo internacionalmente.

É preciso tirar o pé do freio. Caminhamos num ritmo muito lento. Enquanto isso, causa-me espanto ver a reação de descrédito com relação à disponibilidade de mão de obra. Acredita-se que haverá profissionais suficientes para dar conta do recado.

Os dados dizem que não, e aí viveremos um mau momento. Com dinheiro para investir, consumidores para comprar, mas sem mão de obra para fazer frente as mudanças necessárias e entregar o que o mercado deseja.