Um problema de quase todos os setores, mas por estar palestrando a engenheiros, foquei-me nesses profissionais. Resumo da conversa: devem faltar 4 mil engenheiros por ano para o setor automobilístico (veja aqui).
O problema não tem solução a curto e médio prazo e será preciso trabalhar na manutenção do plantel atual, preparando-se para oferecer melhores condições que a concorrência. A situação piora para quem necessita que estes profissionais desloquem-se para regiões distantes dos grandes polos industriais. Avesso a mudanças, os profissionais que possuem as características mais desejadas pelo mercado, experiência e domínio do idioma inglês, encontram plena oferta de empregos onde estão e raramente se sujeitam a deslocamentos, seja por trabalhar em regiões distantes de onde estão aculturados ou por querer manter o trabalho do cônjuge e a educação de seus filhos. Empresas já buscam tecnólogos para suprir a demanda, mas há falta desses profissionais também. Muitos estão lançando mão de aposentados, que têm maior flexibilidade de deslocamento, mas em contrapartida não se expõem a jornadas extenuantes. Sabem que nessa fase da vida a prioridade é manter a saúde ao invés de alcançarem metas agressivas, as vezes impossíveis, em troca de uma carreira ascendente.
A única alternativa viável é criar uma organização que funcione com menos gente. Não falo de “reengenharia”, tema amplamente conhecido e usado. Sim, ainda existem oportunidades de melhora de processos. Mas em um mundo onde quase tudo se resolve com auxílio de computadores e máquinas, esse caminho, quando trilhado, costuma reduzir mão de obra direta e aumentar a de profissionais qualificados.
No encontro da SAE houve também uma palestra do assessor da presidência do BNDES, Marcelo Miterhof. Ele deixou bem claro que o sucesso do novo regime automotivo, o Inovar-Auto, que vigorará entre 2013 e 2017, dependerá do desenvolvimento da cadeia de suprimentos. Será necessária uma parceria articulada entre as montadoras e seus fornecedores, na qual deverá prevalecer uma aliança técnica e financeira, no lugar do atual antagonismo predador por preços mais baixos a curto prazo. Mencionou que há dinheiro disponível no banco para emprestar à cadeia para modernização e inovação, para torná-la competitiva. Poucas empresas, entretanto, tem como pleitear tais recursos, pois não dispõem de garantias para dar em troca do empréstimo. Disse também que o banco aceita contratos de longo prazo como garantia, mas que as montadoras não os disponibilizam a seus fornecedores.
Creio que aí reside uma enorme oportunidade. Nunca a palavra confiança foi mais necessária. Quanto mais confiança houver na relação, maior será a velocidade e a simplicidade dos processos.
Será necessário também diminuir a complexidade da cadeia de suprimentos. Um número expressivo de profissionais qualificados cuida dessas especificidades entre montadoras. De parafusos e arruelas a processos de estampagem e pintura, de programas individuais de redução de custo a estratégias de negociação nas quais advogados e financeiros são mais relevantes do que engenheiros e compradores. Há uma considerável quantidade de peças que poderia ser compartilhadas entre plataformas e marcas. Acredito que a velha guarda, com sua sabedoria e vivência, e a nova geração, que domina a velocidade de desenvolvimento e aplicação, unidos, podem levar adiante este desafio que transformará o cenário da indústria.
Não é conceito novo, mas nunca foi implementado. Os sistemistas que fornecem à todas O&Ms podem contribuir muito nesse sentido, sugerindo uniformidade e adequação entre produtos sem perder o DNA de cada marca. Produzir realmente em escala e com isso simplificar processos, baixar custos e ser competitivo internacionalmente.
É preciso tirar o pé do freio. Caminhamos num ritmo muito lento. Enquanto isso, causa-me espanto ver a reação de descrédito com relação à disponibilidade de mão de obra. Acredita-se que haverá profissionais suficientes para dar conta do recado.
Os dados dizem que não, e aí viveremos um mau momento. Com dinheiro para investir, consumidores para comprar, mas sem mão de obra para fazer frente as mudanças necessárias e entregar o que o mercado deseja.