
A GWM aos poucos ganha forma e proporção no mercado brasileiro, onde a partir de 2025 iniciará a produção local na fábrica de Iracemápolis (SP). Aos poucos, inclusive, será um termo recorrente em tudo aquilo que diz respeito à montadora por aqui.
“Queremos lucro, queremos volumes. Mas nada disso para nós importa mais nesse momento do que construir uma marca forte”, disse Parker Shi, presidente da GWM International, que esteve de passagem pelo país na quinta-feira, 21.
GWM fortalece relações institucionais no Brasil
A primeira turnê do executivo pelo país passou pelo gabinete do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. E também pelo do presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva. Nos encontros, como de praxe, temas como produção da GWM no Brasil e vendas foram abordados pelas partes.
No entanto, a vinda de Shi ao país, nesse momento próximo ao início da fabricação local da companhia chinesa, foi marcada pela preocupação que se teve em passar um recado ao mercado: a empresa desembarca por aqui tentando fazer as coisas de forma gradual.
Ou de forma um pouco mais lenta na comparação com compatriotas que chegaram no mercado doméstico com estardalhaço. Se por um lado a BYD, por exemplo, abalou o status quo com uma avalanche de carros importados e lançamentos, a GWM valoriza a cautela.
Afora o estrondo provocado no mercado pela compra da fábrica inativa da Mercedes-Benz no interior paulista, os feitos que vieram na sequência em sua cronologia verde amarela ocorreram de forma sutil.
A construção da rede, por exemplo, se deu sem correria, como costumava comentar o ex-CEO local da montadora, Oswaldo Ramos. Houve uma espécie de avaliação: interessados mandaram suas propostas, a montadora escolheu os mais bem localizados, e, depois, nomeou os concessionários.
GWM quer 130 concessionárias até o fim de 2025
Hoje são 88 lojas, e existe a meta de chegar a 100 pontos de venda até o fim do ano. Em 2025, o número deverá subir para 130. A BYD, por sua vez e para efeito de comparação, persegue a marca das 250 lojas até dezembro.
Por trás dessa aparente cautela da GMW mora um planejamento de construir no Brasil a reputação de uma marca que esteja atrelada à qualidade. Uma premissa óbvia, mas não menos importante, considerando que se trata de uma empresa novata em solo brasileiro.
A caminhada lenta, mas a passos firmes, parecem figurar na estratégia da GWM como uma espécie de cartão de visitas aos clientes locais. O mercado brasileiro teria uma parcela importante de consumidores inclinados a observar essa postura com bons olhos.
Quando ouvimos Parker Shi tecer frases como “estamos em busca de um marketshare de qualidade”, ou “uma briga por preço não é o nosso foco”, fica claro que a empresa pretende ganhar espaço por meio de jogadas seguras que envolvem produto e atendimento.
Estratégia a la Toyota pode fortalecer GWM no país
Essa estratégia, inclusive, é similar à adotada pela Toyota ao longo dos seus anos de operação brasileira. Quem acompanha o mercado automotivo já se deparou com este tipo de comportamento por parte da empresa japonesa – não podemos negar que deu certo.
De qualquer forma, conseguir iniciar a sua produção no Brasil em 2025 será algo que chega em momento oportuno dada a conjuntura internacional. Isso porque a GWM aposta parte importante de suas fichas nos chamados mercados overseas, o qual está sob a responsabilidade de Parker Shi.
A perspectiva de protecionismo em grandes mercados como Estados Unidos e China posicionam o Brasil como destino relevante dentro da lógica de exportações da empresa chinesa. Afinal de contas, a massiva produção de veículos em sua terra natal precisa ir para algum lugar apesar da narrativa de Trump e da União Europeia.
Para a montadora, o desempenho comercial visto por aqui até o momento indicam que apostar no mercado brasileiro foi o melhor a se fazer. Até dezembro a expectativa de vendas por aqui envolve 28 mil unidades. No ano que vem, a projeção é de 31 mil unidades.
Pode parecer pouco se compararmos com os volumes registrados pelas montadoras veteranas, mas é algo relevante considerando que a oferta da GWM engloba veículos com preços que parte da faixa de R$ 150 mil até R$ 320 mil.
O volume de vendas projetado pela matriz para 2024 envolve 450 mil unidades, sendo que, até outubro, já haviam sido exportadas 400 mil. O mercado brasileiro, ao lado de Rússia e Austrália, contribuíram para isso, disse o executivo da montadora.
Apesar das muralhas fiscais que se ergueram em grandes mercados globais, a GWM parece não estar muito preocupada a respeito de como isso poderá afetar as suas operações daqui para frente.
“Aumento do imposto de importação é algo natural, inclusive aqui no Brasil”, disse Shi durante sua passagem pelo país. “Sabemos que em mercados grandes precisamos ser produtores locais para evitar isso”, completou o executivo.
Nesse sentido, a produção em Iracemápolis, segundo a GWM Brasil, está com o cronograma organizado para, de fato, começar a produzir no ano quem vem por meio de uma operação CKD o SUV Haval H6.
700 contratações para fábrica de Iracemápolis
Até dezembro, seguiu Shi, 100 funcionários foram contratados, e mais 700 serão incorporados ao quadro em 2025.
Há um plano de localização de componentes para que em 2026 cerca de 60% do conteúdo do veículo seja nacional. Oqual deverá contar com a ajuda de empresas do próprio grupo GWM que desembarcarão em Iracemápolis e arredores.
A chegada desses fornecedores, inclusive, foi tema de discussão com o governo de São Paulo na semana passada.
A montadora afirma que as bases para a construção de um ecossistema logístico já estão acertadas com o estado. Um arranjo envolvendo a suspensão do ICMS na entrada de peças e ativas, por exemplo, deve melhorar a competitividade local da empresa.
“Ao contrário de outros países, o Brasil teve uma boa ação para abraçar o investimento chinês”, finalizou Parker Shi, mandando recado claro ao norte global. E, por que não, ao sul também.
