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Petróleo volta a ameaçar a indústria americana

O petróleo mais barato leva a indústria automobilística norte-americana à tentação de insistir nas antigas fórmulas para levantar recursos mais rapidamente. Inovação e eficiência energética podem voltar ao segundo plano, ameaçando a reconstrução do setor.
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Redação AB

23 dez 2008

3 minutos de leitura

O preço elevado do barril de petróleo estimulou a busca de fontes alternativas de energia nos anos recentes e levou a indústria automobilística a rever a concepção de seus veículos, que deveriam tornar-se mais econômicos e eficientes, ao mesmo tempo que as legislações mais rigorosas exigiam uma redução nos níveis de emissões de poluentes. Os europeus, que há anos vinham pagando caro pelo combustível, voltaram-se mais depressa para os carros compactos com powertrain mais eficiente. Já os norte-americanos, com gasolina barata, tardaram a acordar para o choque do petróleo, logo depois seguido pela crise financeira. Com a mudança nas perspectivas da economia global, o preço do petróleo apontou para baixo, pelo menos a curto e médio prazo. As preocupações voltam-se para uma nova acomodação da industria automotiva norte-americana tendo em vista a obtenção de resultados a curto prazo. Por que investir em fontes alternativas e veículos híbridos quando o petróleo está barato e há necessidade de obter dinheiro rapidamente para compensar as perdas bilionárias e construir um novo futuro? A curto prazo, parece uma tentação para os dirigentes das montadoras dos Estados Unidos ganhar tempo insistindo na velha fórmula que levou o setor a resultados financeiros positivos no passado recente mas a entrar numa enrascada com seus desejados carrões. O alívio momentâneo trazido pelo novo nível no preço do petróleo traz embutido o risco de se adiar também os investimentos em inovação, combustíveis alternativos e eficiência do powertrain. O presidente eleito Barack Obama já deu sinais de estar atento a estratégias diversionistas das montadoras, taxadas de más administradoras de recursos e de oportunistas. Como senador, ele já fazia pressão para se melhorar os padrões de consumo de combustível e buscar combustíveis alternativos. Quando assumir a Presidência, um de seus primeiros desafios será avaliar os resultados e as perspectivas de recuperação que Chrysler e General Motors apresentarão em marco, depois de obterem ajuda financeira oficial sob intensa crítica da opinião publica e de parlamentares da oposição. Se as duas não forem convincentes, terão que devolver o empréstimo e estarão insolventes, sem recursos para continuar operando. O julgamento das duas empresas será, acima de tudo, político. A Casa Branca sempre deveu favores a Detroit e há interesses cruzados e até pouco conhecidos. Por isso, pouco se acredita que as duas montadoras em dificuldades serão entregues à própria sorte. O mercado sabe que a ajuda dos governos americano e canadense à GM e Chrysler, que em conjunto soma cerca de US$ 20 bilhões, é paliativo. A reconstrução e a busca de novas soluções exigirão do setor recursos extraordinários e não disponíveis. Há ainda muitos outros players prontos para reclamar recursos dos governos – como os fornecedores de componentes e serviços e os distribuidores de veículos e autopeças. Obter recursos no mercado financeiro, quando toda a cadeia de produção está em xeque, não será tarefa fácil. Igualmente difícil será financiar a comercialização dos veículos. Outra frente de debates estará na área trabalhista. Os empregados da indústria automotiva “tradicional” demonstraram que não estão dispostos a fazer concessões profundas – como aceitar benefícios reduzidos e contratos trabalhistas nas mesmas bases dos empregados das montadoras asiáticas que atuam em território norte-americano, sabidamente inferiores. O mundo inteiro assiste, ainda atônito, à derrocada do setor automotivo, preservado por décadas como símbolo da pujança econômica e industrial americana. Será preciso quase um milagre para colocar tudo numa nova ordem capaz de evitar um colapso de impacto global. Soluções disruptivas, no cenário atual, não podem ser descartadas.