O preço elevado do barril de petróleo estimulou a busca de fontes alternativas de energia nos anos recentes e levou a indústria automobilística a rever a concepção de seus veículos, que deveriam tornar-se mais econômicos e eficientes, ao mesmo tempo que as legislações mais rigorosas exigiam uma redução nos níveis de emissões de poluentes. Os europeus, que há anos vinham pagando caro pelo combustível, voltaram-se mais depressa para os carros compactos com powertrain mais eficiente. Já os norte-americanos, com gasolina barata, tardaram a acordar para o choque do petróleo, logo depois seguido pela crise financeira. Com a mudança nas perspectivas da economia global, o preço do petróleo apontou para baixo, pelo menos a curto e médio prazo. As preocupações voltam-se para uma nova acomodação da industria automotiva norte-americana tendo em vista a obtenção de resultados a curto prazo. Por que investir em fontes alternativas e veículos híbridos quando o petróleo está barato e há necessidade de obter dinheiro rapidamente para compensar as perdas bilionárias e construir um novo futuro? A curto prazo, parece uma tentação para os dirigentes das montadoras dos Estados Unidos ganhar tempo insistindo na velha fórmula que levou o setor a resultados financeiros positivos no passado recente mas a entrar numa enrascada com seus desejados carrões. O alívio momentâneo trazido pelo novo nível no preço do petróleo traz embutido o risco de se adiar também os investimentos em inovação, combustíveis alternativos e eficiência do powertrain. O presidente eleito Barack Obama já deu sinais de estar atento a estratégias diversionistas das montadoras, taxadas de más administradoras de recursos e de oportunistas. Como senador, ele já fazia pressão para se melhorar os padrões de consumo de combustível e buscar combustíveis alternativos. Quando assumir a Presidência, um de seus primeiros desafios será avaliar os resultados e as perspectivas de recuperação que Chrysler e General Motors apresentarão em marco, depois de obterem ajuda financeira oficial sob intensa crítica da opinião publica e de parlamentares da oposição. Se as duas não forem convincentes, terão que devolver o empréstimo e estarão insolventes, sem recursos para continuar operando. O julgamento das duas empresas será, acima de tudo, político. A Casa Branca sempre deveu favores a Detroit e há interesses cruzados e até pouco conhecidos. Por isso, pouco se acredita que as duas montadoras em dificuldades serão entregues à própria sorte. O mercado sabe que a ajuda dos governos americano e canadense à GM e Chrysler, que em conjunto soma cerca de US$ 20 bilhões, é paliativo. A reconstrução e a busca de novas soluções exigirão do setor recursos extraordinários e não disponíveis. Há ainda muitos outros players prontos para reclamar recursos dos governos – como os fornecedores de componentes e serviços e os distribuidores de veículos e autopeças. Obter recursos no mercado financeiro, quando toda a cadeia de produção está em xeque, não será tarefa fácil. Igualmente difícil será financiar a comercialização dos veículos. Outra frente de debates estará na área trabalhista. Os empregados da indústria automotiva “tradicional” demonstraram que não estão dispostos a fazer concessões profundas – como aceitar benefícios reduzidos e contratos trabalhistas nas mesmas bases dos empregados das montadoras asiáticas que atuam em território norte-americano, sabidamente inferiores. O mundo inteiro assiste, ainda atônito, à derrocada do setor automotivo, preservado por décadas como símbolo da pujança econômica e industrial americana. Será preciso quase um milagre para colocar tudo numa nova ordem capaz de evitar um colapso de impacto global. Soluções disruptivas, no cenário atual, não podem ser descartadas.
Petróleo volta a ameaçar a indústria americana
O petróleo mais barato leva a indústria automobilística norte-americana à tentação de insistir nas antigas fórmulas para levantar recursos mais rapidamente. Inovação e eficiência energética podem voltar ao segundo plano, ameaçando a reconstrução do setor.
Redação AB
23 dez 2008
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