
Para tornar viável a volta do carro popular às concessionárias, o setor automotivo se mobiliza para aprovar medidas com o governo que permitam baixar o preço dos veículos de entrada, que hoje partem da casa dos R$ 70 mil. Entre as sugestões do segmento, está o pedido ao Banco Central de liberação do depósito compulsório para o financiamento de veículos, redução tributária e crédito para uso do etanol.
Segundo fonte envolvida nas negociações, a primeira sugestão é vista como a mais importante. Entre os interessados na aprovação de medidas para fomentar o barateamento dos automóveis estão entidades do setor e fabricantes de veículos que têm modelos mais acessíveis em sua gama. Segundo o interlocutor, a liberação do compulsório facilitaria o acesso dos consumidores pessoa física a um crédito bancário mais barato.
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O depósito compulsório é um dos principais dispositivos de política monetária utilizados pelo BC para controlar a capacidade de crédito do sistema financeiro. Em linhas gerais, o banco recolhe um porcentual de todos os depósitos realizados no país e gera uma reserva que pode ser direcionada para estimular a economia de acordo com a necessidade e a juros mais baixos. A medida também evita a alavancagem do sistema financeiro.
No passado, também em época de volumes de vendas menores, o acesso dos consumidores a esses recursos chegou a ser pautado. Em 2012, o governo recebeu pedido para liberar R$ 18 bilhões do depósito compulsório para o financiamento da compra de carros novos. Mais de uma década depois, e em contexto similar, a história se repete.
“Os bancos precisam de mecanismos que reduzam o seu risco na hora de conceder um empréstimo. Hoje, por causa desse alto risco de inadimplência e de redução de renda, são poucas as fichas de créditos que são aprovadas. E as que são aprovadas envolvem um juro muito alto para o brasileiro médio”, disse o interlocutor.
A proposta é vista pela fonte como algo que está mais no controle do governo do que o movimento da indústria pela redução da taxa Selic, que tem se mostrado complexo dada a autonomia que o BC tem em relação ao tema.
Alternativas para estimular a compra do carro popular
Ainda dentro do tema crédito, o pacote levado à Brasília (DF), segundo esta fonte, sugere que o BNDES poderia também aportar recursos para estimular o consumo de automóveis novos em modelo similar ao Finame. Este é voltado para veículos comerciais e versa sobre concessão de crédito, desde que o produto atenda especificações estipuladas pelo governo.
Na visão do especialista, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) também seria uma ferramenta eficiente de redução de risco bancário na concessão de crédito: caso o consumidor não consiga honrar as parcelas, o pagamento poderia ser feito ao credor por meio dos recursos do fundo.
Outra iniciativa que teria grande efeito, indica a fonte, seria a redução dos impostos federais IPI e PIS/Cofins e também do ICMS, que é estadual. Há ainda uma ideia a respeito de um cartão bancário atrelado de alguma forma ao chassi do veículo zero. Toda vez que o consumidor abastecê-lo com etanol, e usar este cartão, seria gerado um crédito que poderia virar desconto no próximo abastecimento – fomentando, com isso, também a redução da pegada de carbono no uso dos carros.
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Este pacote sugerido ao governo, segundo o interlocutor, chegou em Brasília junto a outro produzido pelo Senai Cimatec, que tem caráter mais técnico e é focado na parte tributária. O documento mostra todo o fluxo de impostos dentro da cadeia automotiva e sugere onde há espaço para promover cortes sem afetar muito a arrecadação do estado.
A criação desse estudo, inclusive, foi coordenada por um nome forte dentro do setor automotivo: Marcio Alfonso, executivo importante no universo das montadoras, com passagem longa pelo quadro diretivo da Ford e, mais recentemente, pela Caoa Chery. Alfonso assumiu há cerca de um mês o cargo de diretor de desenvolvimento de negócios no Senai Cimatec, sigla que significa Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia.
O governo havia prometido uma resposta para o setor em junho, mas o anúncio de medidas de socorro ao segmento automotivo poderá ocorrer antes, em 25 de maio, como informou matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, assinada pelo jornalista Eduardo Sodré.
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Apesar da movimentação, ninguém tem a certeza de que a proposta final que será divulgada pelo Governo Federal tenha levado em consideração os pontos apresentados neste estudo. Segundo a fonte, a expectativa é de que as propostas levem em consideração o acesso das pessoas físicas ao crédito, algo que é visto como principal entrave às vendas de veículos novos no mercado doméstico.
“Já falamos isso há mais de um ano e seguimos com a mesma opinião. O nosso maior problema é o crédito. Se for possível reduzir R$ 10 mil do preço final dos veículos, independentemente do modelo, já melhora muito o ambiente de negócio”, finalizou o interlocutor.
