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Por que a GM decidiu apoiar a preservação de onças-pintadas no Pantanal

Parte da sua estratégia ESG, GM apoia o trabalho do Instituto Homem Pantaneiro com recursos financeiros e logísticos
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Natália Scarabotto

04 jul 2022

8 minutos de leitura

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Os pneus da picape Chevrolet Z71 passam com cuidado para não apagar as pegadas de uma onça-pintada no meio da trilha na Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do Sul. É possível saber que um animal adulto esteve ali pelo rastro, do tamanho de uma caneta, e pela inclinação das pegadas dianteiras. Ela pode estar por perto, mas decidiu não dar as caras – é provável que o barulho das picapes a tenha assustado. Quem sabe tudo isso é o veterinário Diego Viana, coordenador do projeto Felinos Pantaneiros, do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que atua na preservação e monitoramento de onças-pintadas e desde março conta com o apoio da General Motors.

Ao contrário do seu bisavô que era caçador na década de 1960, quando a prática ainda era legalizada, Diego é um apaixonado pelo animal e dedica a vida para protegê-lo.

“Cresci vendo as onças, mas tinha medo e achava que elas eram um prejuízo para o homem e o agro”, contou ele. “As onças são o topo da cadeia alimentar. Se elas estão preservadas, significa que toda a biodiversidade local está equilibrada. Entendi isso quando comecei a estudar mais sobre esses felinos e perdi o medo. Hoje, o que faço é transmitir essa mensagem para as pessoas também.”

No final de junho, Viana e outros protetores do ecossistema local apresentaram o projeto a jornalistas e influenciadores que foram convidados pela General Motors a conhecer de perto a iniciativa da qual a montadora agora é parceira. A GM concedeu R$ 150 mil para o IHP investir em tecnologias e manutenção do projeto, além de uma picape Chevrolet S10 Z71 (R$ 284 mil) para o deslocamento da equipe nos terrenos fora-de-estrada.

Na Serra do Amolar, o instituto já registrou 111 onças-pintadas por câmeras. As pegadas na trilha podem ser de qualquer uma delas, incluindo o jovem macho Joujou – que se tornou símbolo dadestruição das queimadas no Pantanal em novembro de 2020, ao ser resgatado com graves queimaduras nas patas e com pneumonia por causa da fumaça inalada. A onça ficou dois meses e meio em reabilitação e depois foi solta na natureza com um colar GPS, que permitiu ao IHP monitorá-la por um ano e meio. Agora, o colar GPS caiu, o que significa que Joujou está 100% livre e adaptado à natureza.

Marcas do fogo

“Foi muito triste ver os animais agonizando, eles rugiam com dor e olhavam como se dissessem ‘me ajuda’. Retiramos o Joujou de uma casa em chamas usando um estrado de cama porque não tínhamos maca”, lembrou o outro médico-veterinário do IHP, Geovani Tonolli, especialista em situações de desastre. “Ninguém esperava aquela proporção, pegava fogo muito rápido, queimou o solo e o vento dificultou muito espalhando as chamas… o fogo até atravessou o rio. Não tinha equipe e nem recursos para conter uma queimada daquelas”, recorda.

As marcas do fogo que queimou 97% da Serra do Amolar em 2020 ainda são visíveis. Basta navegar pelo rio Paraguai para ver a paisagem verde arborizada mudar abruptamente para áreas completamente devastadas, com o mato seco e árvores carbonizadas que ainda têm cheiro de queimado. Há sinais de recuperação em parte da vegetação, mas a regeneração total deve demorar, ao menos, 20 anos.

Depois da tragédia, o IHP dobrou sua equipe e instituiu sua própria brigada contra incêndio. Com isso, a destruição pelas chamas foi bem menor em 2021, de 7% do território da região. Neste ano, foi comprado um sistema por satélite para detecção de focos de calor e fumaça com o objetivo de zerar os incêndios na Serra do Amolar. No cuidado com as omças, o IHP investiu principalmente em colares GPS importados, de alta tecnologia, para acompanhar os felinos na natureza.

No total, as áreas protegidas pelo IHP somam 300 mil hectares, incluindo a Serra do Amolar e as Reservas Particular do Patrimônio Natural (RPPNs) Acurizal e Engenheiro Eliezer Batista. Para manter todo o trabalho o custo é de R$ 1,5 milhão por ano, verba que vem de doação privada e parceria com empresas, como a GM.

 

 

Projeto Felinos Pantaneiros

A onça pintada é classificada como vulnerável de extinção pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Além de proteger essa espécie, o projeto Felinos Pantaneiros do IHP atua desde 2016 na preservação e monitoramento de outros grandes felinos, como a onça parda, jaguatirica, gato mourisco e gato palheiro.

Segundo o coordenador do projeto, Diego Viana, “apesar dos incêndios e outras ameaças, a densidade de onças-pintadas no Pantanal está equilibrada. A região é exemplo na preservação da espécie e possui, inclusive, as maiores onças-pintadas. Um macho adulto pesa até 150 kg, quase o dobro dos machos adultos na caatinga”. 

O projeto tem quatro principais áreas de atuação: ecologia (monitoramento de felinos); saúde (amostras de onças-pintadas e de animais domésticos, e interface com saúde humana e ambiental); e educação ambiental e conscientização sobre a coexistência de humanos e a natureza.

O IHP conta com diversas câmeras-trap espalhadas pelo meio do mato na Serra do Amolar, o que permite o monitoramento dos felinos: 111 onças-pintadas já foram identificadas até hoje. O dispositivo permite acompanhar os passos do animal para entender melhor seu comportamento e hábito.

“Com o colar GPS conseguimos saber que a onça-pintada tem um bom tamanho de área de vida, com muita oferta de alimento e água no Pantanal. Do Joujou conseguimos saber também os pontos de localização. Vimos que ele andava em média quatro quilômetros por dia e também estamos analisando carcaças para entender quais são suas principais presas”, explicou Viana.

 

A mobilidade coexiste com a fauna

Porém, as ameaças à espécie vão além de queimadas e caça ilegal. Por isso, não é apenas nos terrenos fora-de-estrada do Pantanal que é preciso dirigir com cuidado.

“Os atropelamentos em rodovias são hoje a principal causa de morte das onças-pintadas. Desde 2016, encontramos catoreze onças atropeladas na BR 262 e na Rodovia Ramón Gomes, que liga o Brasil à Bolívia. A mortalidade é alta, em 95% dos casos o animal vem a óbito”, afirmou Viana.

Mas é possível mudar essa realidade. Segundo ele, o IHP faz o levantamento das áreas com maior incidência de atropelamentos e conversa com o poder público e instituições privadas a fim de implementar iniciativas preventivas, como a sinalização desses locais, implementação de radares ou placas de redução de velocidade e campanhas de conscientização para os motoristas.

Agronegócio x sustentabilidade

O IHP atua também em parceria com 24 fazendas para encontrar soluções para diminuir o ataque de onças aos gados, minimizando prejuízos para o agronegócio e, consequentemente, evitando o abate de felinos por fazendeiros. 

“É possível sim ter sustentabilidade no agronegócio e os produtores precisam levantar essa bandeira. Unir conservação e produção é positivo para os negócios. Em áreas degradadas, o ataque ao gado é 46% maior”, afirmou o coordenador. “Um exemplo disso no Pantanal é a fazenda BrPec, que tinha prejuízo de R$ 1,5 milhão com a perda de 930 cabeças de gado por ano. Com a implementação de ações de preservação, o número caiu para 220 cabeças de gado.”

Uma dessas soluções são as cercas elétricas, que mantém o gado protegido. O choque é leve, suficiente para assustar predadores sem causar nenhum ferimento. Outra tecnologia implementada pelo IHP é o “repelente luminoso”, uma luz que pisca em cores e frequências diferentes também para manter as onças afastadas.

GM atualiza tradição pantaneira com foco em ESG

A conexão entre a General Motors e o Pantanal é antiga, mas fica mais adequada às demandas atuais e à agenda ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa). Na década de 90, a montadora realizou o lançamento de diversos veículos em Corumbá (MS), incluindo, a histórica Silverado, em 1997. Em novembro do ano passado, foi a vez da nova picape S10 Z71 estrear em terras pantaneiras.

“Além dos lançamentos, sempre apoiamos projetos sociais e as tradicionais pescarias anuais, que eram sempre acompanhadas de uma ação beneficente para comunidades carentes”, conta Nelson Silveira, diretor de comunicação da companhia. “Conhecendo esse nosso lado, o IHP nos procurou para sermos parceiros. A ideia é que seja um projeto de longo prazo.”

A montadora reúne 25 iniciativas focadas em educação ambiental e biodiversidade, incluindo a conservação da Mata Atlântica, conta o executivo. Além de mais pantaneira, a GM também ficou mais diversa. Nos últimos anos, a fabricante intensificou suas ações de diversidade e tem como objetivo “ser a empresa mais inclusiva do mundo”. Nesse sentido, na América do Sul, as mulheres  representam 25% da força de trabalho da GM e no board de diretores da GM América do Sul, 7 das 11 cadeiras são ocupadas por executivas.

Os eventos da marca também refletem essa transformação. Se antes a famosa pescaria da GM era restrita apenas aos homens, agora a experiência na Serra do Amolar reuniu um grupo plural de jornalistas e influenciadores, com homens e mulheres – e elas mandaram bem na pescaria.