Consigo visualizar como se fosse hoje a senhora japonesa colocando o pastel para fritar e depois comê-lo recém-feito, quentinho, com um pouco de pimenta vermelha. Minha avó pedia um também e levava mais dois, um para minha irmã e outro para eu comer frio, quando voltasse da escola no fim da tarde. Quase sempre a comerciante, muito simpática e inteligente, colocava um de brinde para que nos sentíssemos especiais e voltássemos sempre.
Andar pela feira foi um grande aprendizado. Ali é possível ver ao vivo como se move a economia e como os preços se ajustam de acordo com a demanda e a hora de ir embora. Como atrair o consumidor, como é importante deixar que ele prove a mercadoria, como a propaganda é necessária, o bom humor de quem vende, o cuidado em saber o nome do cliente, a qualidade e o frescor do que é vendido, a apresentação caprichada da mercadoria, o bem-pesado que faz o cliente sentir que está levando vantagem. Para coroar tudo isso, a socialização na barraca de pastel de um lado e na do caldo-de-cana do outro.
Os feirantes que trabalham duro, acordam de madrugada e perambulam a cidade de feira em feira, representam os mais antigos comerciantes da humanidade. Acredita-se que o início das feiras se deu quando o excedente de produção das lavouras era levado para um lugar pré-estabelecido e trocado de acordo com a necessidade de cada um. Hoje, apesar da modernidade dos supermercados e do caos que ocasionam nas ruas que as hospedam, as feiras ainda são concorridíssimas, por sua peculiaridade, utilidade, diversidade, cores e aromas.
Cada ser humano, cada profissão, carrega consigo o poder de enriquecer nosso conhecimento, polir nossa personalidade, aplacar nosso ego com a experiência alheia. Prestar atenção nessas situações e vivências tem tanto valor quanto um bom curso de pós-graduação, com a vantagem de não custar nenhum centavo.
Aqui perto do trabalho há uma feira que visito de vez em quando. Vou até lá para comprar algumas frutas para o lanche, comer o pastel recém-feito e delicioso e para me lembrar que pequenas coisas cotidianas me ajudam a trazer de volta emoções gostosas, saudades boas de pessoas que foram tão importantes na formação do que hoje sou e penso.