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Pós-graduação de rua

Quarta-feira era dia de feira. Pertinho de onde morava, em Santana, zona norte de São Paulo, acompanhava minha avó nas compras de meio de semana. Laranja, pera, tudo que tinha que ser devidamente degustado num pedacinho que o feirante cortava para os clientes. Batatas e cebolas pesadas em balança de contrapeso, salsa, coração de boi, que rendia um guisado maravilhoso para comer com purê de batata e arroz. O fechamento era grandioso: um pastel de carne feito na hora.
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Redação AB

14 set 2012

2 minutos de leitura

Consigo visualizar como se fosse hoje a senhora japonesa colocando o pastel para fritar e depois comê-lo recém-feito, quentinho, com um pouco de pimenta vermelha. Minha avó pedia um também e levava mais dois, um para minha irmã e outro para eu comer frio, quando voltasse da escola no fim da tarde. Quase sempre a comerciante, muito simpática e inteligente, colocava um de brinde para que nos sentíssemos especiais e voltássemos sempre.

Andar pela feira foi um grande aprendizado. Ali é possível ver ao vivo como se move a economia e como os preços se ajustam de acordo com a demanda e a hora de ir embora. Como atrair o consumidor, como é importante deixar que ele prove a mercadoria, como a propaganda é necessária, o bom humor de quem vende, o cuidado em saber o nome do cliente, a qualidade e o frescor do que é vendido, a apresentação caprichada da mercadoria, o bem-pesado que faz o cliente sentir que está levando vantagem. Para coroar tudo isso, a socialização na barraca de pastel de um lado e na do caldo-de-cana do outro.

Os feirantes que trabalham duro, acordam de madrugada e perambulam a cidade de feira em feira, representam os mais antigos comerciantes da humanidade. Acredita-se que o início das feiras se deu quando o excedente de produção das lavouras era levado para um lugar pré-estabelecido e trocado de acordo com a necessidade de cada um. Hoje, apesar da modernidade dos supermercados e do caos que ocasionam nas ruas que as hospedam, as feiras ainda são concorridíssimas, por sua peculiaridade, utilidade, diversidade, cores e aromas.

Cada ser humano, cada profissão, carrega consigo o poder de enriquecer nosso conhecimento, polir nossa personalidade, aplacar nosso ego com a experiência alheia. Prestar atenção nessas situações e vivências tem tanto valor quanto um bom curso de pós-graduação, com a vantagem de não custar nenhum centavo.

Aqui perto do trabalho há uma feira que visito de vez em quando. Vou até lá para comprar algumas frutas para o lanche, comer o pastel recém-feito e delicioso e para me lembrar que pequenas coisas cotidianas me ajudam a trazer de volta emoções gostosas, saudades boas de pessoas que foram tão importantes na formação do que hoje sou e penso.