
A escassez de suprimentos começa nos distribuidores de matérias-primas e avança para a parte baixa da cadeia de autopeças, onde se acentuam os gargalos. Em muitos casos é preciso entrar na fila para conseguir fundidos e forjados. Algumas dessas pequenas empresas aproveitam para colocar em dia o faturamento e fazer exigências. Há evidências também da falta de pneus.
José Manoel Fernandes, diretor de compras da ArvinMeritor, já havia advertido para essa situação há mais de um mês e antecipava aumentos de custos: “Faltam componentes no mercado. Temos corrido atrás de fornecedores para garantir entregas em dia e capacidade no atendimento de nossos pedidos”. O presidente da Dana, Harro Burmann, confirmava durante a Automec a escassez de matérias-primas e componentes.
ArvinMeritor e Dana estão anunciando novos investimentos, quase ao mesmo tempo, para modernização de suas operações no Brasil. As duas passarão a contar com novos produtos e tecnologias para melhorar a oferta de componentes e sistemas destinados à produção de caminhões e ônibus. O efeito, no entanto, não se dará no curto prazo.
“Todos os fornecedores querem trabalhar, mas nessa condição limite corremos risco de desarranjo logístico e desperdícios, enquanto acontecem seguidas negociações de preços e condições de entrega ao longo de toda a cadeia” – adverte Iezzi Jr., diretor geral da BorgWarner, que tem sede em Campinas, SP, onde produz turbos, ventiladores e embreagens viscosas para arrefecimento de motores diesel.
Na empresa virou rotina negociar os clientes e, do outro lado, com fornecedores (especialmente na área de fundição), que tem carteira cheia e pouca capacidade para atender as encomendas na velocidade atual do mercado. “Com demanda em alta, a parte mais baixa da cadeia passa a ser decisiva para todos manterem o ritmo” – adverte Iezzi Jr.
A demanda extra obriga a fazer concessões para assegurar o pronto atendimento nos fornecedores de componentes e serviços. As negociações são contínuas, já que a programação nas encomendas das montadoras também oscila em quantidade e variedade, dificultando a organização da cadeia.
Aumentos de preços são um dos efeitos desse stress no supply chain. De um lado, há o avanço das matérias-primas, como o aço. Do outro, os ganhos trabalhistas. Em algumas empresas do setor só a participação nos lucros variou de R$ 4 mil a R$ 10 mil por funcionário. Houve ganhos reais de 2% a 3% nos últimos três anos, segundo a BorgWarner, que precisará também investir no ponto eletrônico exigido pela legislação.