Comecei a mudar o meu entendimento do tema em 2016, em plena crise. Antes promissor, o setor automotivo sofria retração dramática no Brasil e, como se isso já não afetasse o meu negócio o bastante, o mundo editorial também passava por um momento de pressão por reinvenção. Senti muito medo. Trabalhava, corria atrás, mas no fundo não sabia ao certo e nem conseguia projetar como seria o futuro da empresa. Na verdade, mal conseguia pensar em um futuro. A minha luta constante era para conseguir pagar as contas e manter o negócio vivo.
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ENCONTREI A RESPOSTA, MAS ERA DIFERENTE DO QUE EU ESPERAVA |
Bem nesse momento angustiante tive a grande oportunidade de participar do programa 10.000 Mulheres realizado pela FGV, Goldman Sachs e Goldman Sachs Foundation. É uma iniciativa global que promove a educação em administração e gestão de negócios a mulheres empreendedoras com o entendimento de que, ao empoderar economicamente o gênero feminino, há um efeito positivo multiplicado na sociedade.
Senti um alívio imenso ao ser uma das 50 empreendedoras escolhidas para o programa. Achei que encontraria um universo de teorias para me guiar no caminho que deveria seguir com a empresa, pensei que era a salvação do negócio, que explicariam de A a Z a melhor estratégia. Pois bem: eu estava errada. Nada disso aconteceu.
Não encontrei nenhuma fórmula mágica, mas achei algo muito maior: Pessoas. Era um grupo de mulheres empreendedoras com a mesma agonia que eu, com a mesma garra de vencer, com os mesmos medos e desafios semelhantes.
Depois de tanto tempo me sentindo sozinha e deslocada na condução do meu negócio, enfim me senti pertencendo a algum lugar. Eram pessoas com corações imensos que me mostraram o que era sororidade e empoderamento.
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VONTADE DE DEMOCRATIZAR A FORÇA QUE EU ENCONTREI |
Essa experiência foi muito maior do que qualquer teoria. Aquilo mexeu comigo. Ao me reconhecer ali, entendi um pouco mais quem eu sou e senti uma força enorme ao lado daquelas mulheres. Comecei a pensar como poderia retribuir aquele sentimento à sociedade, em como fazer mulheres acessarem um pouco daquela força que eu tinha encontrado. Foi aí que surgiu o Projeto Presença Feminina no Setor Automotivo, algo que nasceu da vontade de fazer mais por aquelas que muitas vezes se sentem sozinhas, perdidas e sem oportunidades na vida profissional.
A iniciativa foi um sucesso e, já com o projeto rodando, no início de 2018 tive a chance de participar de outro processo seletivo para um programa de aceleração de negócios liderados por mulheres. Era uma iniciativa maravilhosa, promovida por uma grande consultoria e com apenas 12 vagas. Dessa vez eu não fui uma das escolhidas. Ainda assim, saí de lá com uma grande lição.
Durante a entrevista do processo de seleção um dos sócios da organização me perguntou qual era o meu propósito e o da minha empresa. Respondi rapidamente – e completamente errado. Defini metas, não o propósito. Assim, cometi o mesmo que a maioria das mais de 600 lideranças que participaram da pesquisa Liderança do Setor Automotivo, realizada por Automotive Business: só 6% de quem comanda as empresas do segmento souberam dizer qual é o propósito de sua organização.
Lá, durante o processo seletivo, o especialista me corrigiu e disse que eu precisava pensar mais, sentir, entender o que é propósito. Foi uma provocação e tanto! Fui para casa pensando nisso. Comecei a ler sobre o assunto, mergulhei em uma série de reflexões. Entendi que não se tratava apenas de um jeito diferente de descrever a minha empresa. Compreendi também que era algo já existia em minha vida, eu é que não estava conectada o bastante para entender.
Propósito não é algo mágico ou algo acessível apenas aos privilegiados. Segundo o dicionário, é intenção, projeto, desígnio, aquilo que se busca alcançar, objetivo, finalidade, intuito.
Diante de tudo o que faço da minha vida, o que eu realmente estava buscando?
Ao refletir sobre isso, comecei a entender que a crise me engoliu e eu pensava apenas em resultados financeiros. Com Isso, a turbulência econômica não afetou apenas as margens da minha empresa. O problema ia muito além: a equipe estava desmotivada, a vida pessoal bagunçada, os amigos distantes e a felicidade de lado. A saúde já não andava bem e eu não encontrava forças para seguir.
Em meio a tantos questionamentos, dei de cara com um post que me balançou (já peço desculpas porque não consegui confirmar quem escreveu):
“Pessoas feridas, ferem pessoas
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BINGO! Era isso! Toda a transformação que senti, a força e generosidade que recebi, o empoderamento e o que vivenciei naqueles tempos difíceis me fizeram ter vontade de impactar outras pessoas da mesma maneira. O MEU PROPÓSITO ERA TRANSFORMAR AS PESSOAS ASSIM COMO EU FUI POSITIVAMENTE TRANSFORMADA. Era isso o que precisava fazer, era esse o intuito do meu negócio. Eu enfim tinha entendido – e decidi colocar no papel:
O propósito de Automotive Business é promover informação e conhecimento para fomentar as transformações necessárias à indústria automotiva. |
Com isso, queremos ajudar as empresas do setor a engajar seus colaboradores, entregar soluções que melhorem a vida das pessoas que precisam de mobilidade e, enfim, ampliar o impacto positivo na sociedade. Trabalhamos para criar um ambiente mais próspero para todos os elos envolvidos.
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O PROPÓSITO COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA |
Encontrar essas respostas fez com que eu achasse também um rumo para a minha vida e para a empresa. Tudo começava a mudar. Dentro de mim, em Automotive Business, nas pessoas ao meu redor. Nós tínhamos para onde olhar, um objetivo além da meta financeira, e começamos a nos organizar em torno disso.
Ter uma razão clara para acordar todos os dias transformou a minha vida. Me deu um motivo para lutar, me mostrou para onde correr e em quais certezas me apoiar quando as coisas parecem dar errado. Propósito é uma ferramenta estratégica para a vida e para as empresas, é a bússola que te mantém no rumo certo mesmo nas situações mais adversas. Um negócio sem propósito é um negócio sem vida, sem rumo.
Foi o propósito claro na cabeça e no coração que me fez, ao lado do meu time em Automotive Business, criar o #ABX19, um evento para fomentar a transformação positiva nas lideranças do setor. É este projeto que coroa este processo de evolução, amadurecimento e de lapidação do propósito pelo qual eu e a minha empresa passamos nos últimos anos.
Bom, mas isso é assunto para outro artigo…
Encerro aqui com a mesma provocação que me motivou na minha busca. Qual é o seu propósito?