
A PSA Peugeot Citroën vai investir R$ 1,5 milhão na terceira fase de seu programa de testes com biodiesel no Brasil, que desde 2003 vem sendo executado em conjunto com pesquisadores do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da USP de Ribeirão Preto (SP). Depois de obter bons resultados nas avaliações com carros de passeio equipados com motores diesel Euro 3 e 4, agora será a vez de rodar por ruas e estradas brasileiras com motores Euro 5 em cinco veículos (dois Peugeot 408, dois Citroën C4 Pallas e uma van Peugeot Boxer), que serão abastecidos com B30 – mistura de diesel mineral comum com 30% de biodiesel, extraído de dendê e, pela primeira vez, também da cana-de-açúcar.
A PSA tem dois objetivos ao investir testes com biodiesel no Brasil. Um deles, por enquanto ainda secundário, é se preparar para vender carros de passeio diesel no mercado brasileiro, pois muitos especialistas apostam que a legislação deverá mudar nos próximos anos e permitir o uso do combustível em veículos leves, o que hoje está proibido. “Somos o maior fabricante mundial de motores diesel para automóveis e claro que ofereceremos o produto aqui quando e se isso for possível”, afirma Carlos Gomes, presidente da PSA América Latina.
Mas o objetivo maior dos testes aqui é preparar os motores da PSA para usar o biodisel brasileiro que poderá, nos próximos anos, ser exportado para a Europa, onde está o maior mercado de todos os fabricantes de veículos leves a diesel. Existe essa possibilidade, pois os países europeus têm déficit de fornecimento e desde 2010 a União Europeia obriga, nos países da região, a adição mínima de 10% de biocombustíveis (biodiesel ou etanol) ao diesel e à gasolina.
“Todo o mundo atualmente tem déficit de diesel e com isso o biodiesel ganha relevância internacional para compensar a falta do combustível mineral”, diz Pierre Macaudière, especialista mundial da PSA em pesquisas de química e combustíveis.
Metas apertadas
Há cerca de 20 anos a PSA começou a fazer testes com biodiesel na França, onde o B7 está em uso desde 2008. Hoje o fabricante roda com B30 em uma frota cativa de cerca de 1 mil veículos, para testes. Macaudière explica que a maior utilização de biocombustíveis é parte fundamental para o cumprimento das apertadas metas de emissões de CO2 da União Europeia, que até 2015 quer baixar a média atual de 150 gramas por quilômetro para 130 g/km, podendo chegar a 95 g/km em 2020.
Para o especialista da PSA, isso só pode ser atingido com o uso mais intensivo de biocombustíveis em conjunto com a eletrificação (ou hibridização) dos veículos. Ele usa o exemplo de um veículo híbrido pequeno, equipado com um motor diesel 1.6 e outro elétrico. Usando diesel comum, as emissões de gases de efeito estufa cairiam de 124 g/km para 90 g/km, ou 28% menos em relação a um modelo sem a propulsão elétrica. Com o “bônus” do B30 no tanque, essa queda seria de 40%, para 74 g/km, pois o CO2 do biodiesel pode ser reabsorvido pelas plantações.
“Dessa forma os biocombustíveis potencializam as vantagens dos progressos tecnológicos em torno das reduções de emissões”, avalia Macaudière.
Métodos diferentes
No Brasil a PSA testa o biodiesel obtido por meio de processo químico (transesterificação) que usa o etanol para extrair o biocombustível de diversos tipos de óleos vegetais. Já na Europa é usado o metanol derivado do petróleo para se obter biodiesel de óleo de canola. Embora o processo com metanol seja mais eficiente, a redução de emissões de CO2 é menor com este método.
Por isso o B30 brasileiro é considerado bastante promissor. Os testes feitos aqui biodiesel proveniente de diversas fontes são inéditos no mundo e, de maneira geral, apresentaram resultados melhores do que os da Europa, com emissões mais baixas. Também não foram constatadas alterações no funcionamento dos motores testados.
Os testes com biodiesel da PSA no Brasil começaram em 2003. Em abril daquele ano, o então presidente mundial da Grupo PSA, Jean-Martin Folz, se encontrou com o presidente Lula no Brasil. Na ocasião foi proposto que a empresa contribuísse com sua experiência em motores diesel para o Programa Brasileiro de Biodiesel. Meses depois a PSA optou por apoiar o Ladetel, da USP Ribeirão Preto, para fazer os ensaios de campo.
Na primeira fase do programa, de 2003 a 2006, foram usados dois veículos: um Peugeot 206 e um Citroën Xsara Picasso. O primeiro era um equipado com motor diesel com pré-câmara e o segundo com motor a diesel common rail de injeção direta (HDi). Foi usado B30 com biodiesel de soja em testes que somaram 200 mil km rodados, sem apresentar problemas mecânicos e com significativas reduções de emissões de partículas, hidrocarbonetos (HC) e monóxido de carbono (CO).
A segunda fase, de 2006 a 2010, foi feita com seis veículos produzidos pela PSA no Brasil e na Argentina (um Citroën Xsara Picasso, um Peugeot 206, dois Peugeot Partner e dois Citroën Berlingo), todos equipados com motor 1.6 HDI Euro 4. A novidade desta vez foi o uso de biodiesel extraído de outras oleaginosas além da soja, como mamona e dendê. Foram rodados cerca de 500 mil km por ruas e estradas brasileiras, também com bons resultados.
Na média das fases 1 e 2 do programa, as emissões de partículas foram reduzidas em 23% nos testes no Brasil, contra 19% na Europa. As reduções de CO foram idênticas: 11% tanto aqui quanto lá. Por outro lado, houve pequeno aumento de HC (4% aqui contra 3% na França). Já a poluição por óxido de nitrogênio (NOx), que subiu 8% nos testes europeus, aqui teve elevação menor, de 5%. Segundo Macaudière, a PSA já testa o uso de novo conjunto de pós-tratamento de gases para diminuir as emissões de NOx e HC, que aumentam com o uso de biodiesel devido a processos químicos decorrentes da mistura com o diesel mineral no motor.
Nesta terceira fase do programa, que irá até 2013, os quatro sedãs escalados para os testes (dois 408 e dois C4 Pallas) vão usar o B30 em motores 1.6 HDI Euro 5 de 110 cv. Dois deles têm filtro de partículas FAP, que pela primeira vez será testado com biodiesel. Já o furgão Boxer usará motor 2.3 HDI Euro 5 e será o primeiro comercial leve de porte médio a integrar o programa no Brasil.