
“A crise é mais profunda do que acreditávamos ser no início deste ano. Ela vai aumentar a pressão do custo por toda a cadeia e isso claramente vai impactar na qualidade. O grande conflito, então, é o de reduzir tempo e custo e manter a qualidade”, afirma.
Em sua análise, o consultor lembra que como fator de competitividade, a qualidade não deve se perder do foco da indústria, uma vez que a não qualidade gera custos, incluindo os crescentes recalls. Ele lembra que o número de recalls começou a se elevar na Alemanha e nos Estados Unidos exatamente no período pós-crise de 2009.
“No Brasil temos a particularidade do sistema complexo entre montadora e fornecedor, sendo que a montadora é fortemente influenciada pelo consumidor, recebe com mais intensidade a pressão do mercado, que reage conforme o ambiente. Neste contexto, é importante gerenciar várias medidas que deverão ser renegociadas e considerar fatores como o câmbio e a dificuldade para investir, por exemplo.”
Segundo as projeções da Roland Berger, o crescimento de fato não voltará neste ano e isso continuará impactanto a indústria de forma mais contundente. “O mercado interno vai cair para algo como 2,6 milhões de veículos leves e para 74 mil caminhões neste ano. Acreditamos em uma retomada devagar a partir de 2016, mas não vamos atingir os níveis de 2012 antes de 2020”, assegura Bodewig.
Em sua contribuição ao evento, Rogério Rezende, vice-presidente da Anfavea, alerta que para alcançar o mercado de exportação, uma das principais bandeiras levantadas pela gestão atual da entidade, a cadeia não pode parar de investir em qualidade, item essencial para manutenção das fábricas instaladas no Brasil. “Este deve ser um processo contínuo se quisermos estar aptos para o mercado mundial. Contudo, qualquer empresário só investe quando há expectativa de retorno e é com razão como as empresas fornecedoras de nossa cadeia têm sido cautelosas quanto a investimentos neste momento, quando não há nenhuma expectativa assertiva referente à retomada.”
Rezende concorda que o mercado interno atingiu o fundo do poço: “Estamos no fundo, mas começamos a subir. O setor precisa de perspectiva, de um sinal de que está melhorando e esta melhora se dá por ações efetivas”.
Ele aponta que entidades como o Sindipeças e a própria Anfavea atuam de forma conjunta em busca da melhor qualidade, seja dos processos, dos produtos ou de âmbitos que lhes dizem respeito, como recalls ou certificações.
Por sua vez, na visão do Inmetro, o debate sobre a qualidade é contínuo, uma vez que o órgão regulamentador ligado ao governo encontrou em revisões internas novas formas de alcançar seus mesmos objetivos outrora estipulados e já conhecidos pelo mercado. Paulo Roberto Coscarelli, diretor de avaliação da conformidade, conta que novas ferramentas ajudaram ao Inmetro diminuir ou simplificar processos de certificação de conformidade garantindo que todas as partes envolvidas – indústria, consumidor e governo – participem e contribuam para que o processo seja o menos impactante possível sob a ótica do custo.
“Qualquer intervenção sempre será impactante, o que não queremos é que impacta em demasia, trazendo custos adicionais quando estamos buscando apenas benefícios. Nossa contribuição está focada em agregar valor e ajudar a promover competitividade e inovação na indústria e isto parte da qualidade”, aponta.
O EXEMPLO QUE VEM DE CASA
Planejar para o longo prazo e apostar no potencial do mercado interno foram premissas para que o Grupo FCA trouxesse o Jeep Renegade ao Brasil. “Em seu primeiro teste do Latin NCAP alcançou as 5 estrelas, pontuação máxima em segurança. Desde o início, buscamos muito isso no projeto: excelência na qualidade e na segurança de um veículo que carrega no DNA a história de uma marca. Trazer um produto realmente confiável e evitar recalls faz parte deste processo”, afirma Charleston Rodrigues, gerente de QLV (Quality Vehicle Line) da Jeep.
Ele conta que durante o desenvolvimento do modelo, testes de rodagem entre Goiana (PE), onde está a fábrica do grupo, até a Argentina, passando por Betim (MG), serviram de laboratório para validar as necessidades do condutor com a vantagem de contactar diretamente os responsáveis pelo projeto: foram 83 validações de projetos com a engenharia, resultado dos 2,7 milhões de quilômetros rodados durante o período de testes do veículo.
“Também ouvimos indicações e reclamaçoes de clientes, melhorando performances como a do ar-condicionado, carga de acionamento da buzina ou mesmo desempenho do farol. Parecem soluções simples, mas faz toda a diferença para o consumidor final, que com um produto de qualidade, é ainda mais exigente. Hoje temos a satisfação de constatar que em termos de garantia, estamos 10% melhor do que o ‘best in class’ que projetamos”, complementa.
Por fim, Luis Batista, diretor de qualidade da fábrica pernambucana da Jeep, lembra da importância do complexo industrial com a presença das fábricas dos fornecedores: “São parceiros que nos fornecem as peças mais críticas em termos de qualidade. Assim como a montagem de veículos mantemos junto aos nossos fornecedores a prática de tolerância zero de defeitos a fim de garantir a plena satisfação”, detalha.
Assista à entrevista exclusiva com Rogério Rezende: