O anúncio da TV me veio à mente porque o recurso de contar uma mentirinha usando verdades também acontece na indústria automobilística. Um deles, aliás, aconteceu nesta semana, quando a Hyundai divulgou um comunicado afirmando que o HB20 foi o automóvel mais vendido do Brasil em abril.

A Hyundai diz que o HB20 é líder, mas o ranking de vendas diz o contrário (Foto Divulgação/Hyundai)
Realmente é uma grande notícia, já que era uma liderança inédita. Fui checar a informação no ranking de emplacamentos da Fenabrave, o padrão oficial do mercado para apontar os carros mais vendidos do Brasil. Para a minha surpresa, vejo que o líder lá é outro: o Chevrolet Onix.
Analisando os dados com cuidado percebe-se onde estava a pegadinha. A Hyundai criou um critério próprio: comparou as vendas do HB20 contra as da nova versão do Onix, deixando de lado a antiga, chamada de Joy. Assim, em vez de perder por uma diferença de 782 unidades e ficar em segundo lugar, o hatch da marca coreana faturou a primeira colocação com uma vantagem de 83 carros. A razão da maracutaia ficou clara alguns dias depois, quando vejo o seguinte anúncio da empresa: “Hyundai HB20, o carro mais vendido do Brasil”.
Curiosamente, não lembro de ver a Hyundai usar esse padrão em outros anos, já que é antiga a prática da Fenabrave de somar as versões novas e antigas do mesmo modelo. E, convenientemente, a marca coreana também não fez a separação da versão nova e antiga quando o atual HB20 foi lançado e havia na loja as duas gerações.
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Geração nova, mas não muito |

Na Europa, o Peugeot 207 era uma nova geração. No Brasil, era muito menos que isso (Foto Divulgação/Peugeot)
Engana-se quem acha que esses truques linguísticos são uma novidade no setor automobilístico. Esse tipo de artifício já é usado há muito tempo. Lembro, por exemplo, do lançamento do Peugeot 207, em 2008. O nome dava a entender que seria uma nova geração do 206, que foi um dos grandes sucessos da marca até hoje. Se na Europa já existia o 207, que era realmente uma nova geração, no Brasil ele não passava de uma reestilização do 206, um improviso feito aqui para o mercado local. A falsidade ideológica era tão evidente que esse projeto foi exportado para a Europa, onde foi honestamente vendido com o nome de 206+ ou 206 Plus.
Um dos lugares mais comuns para encontrarmos as mentiras dos fabricantes é na lista de equipamentos de série dos veículos. Principalmente dos mais baratos. Quem não lembra das antigas “supercalotas” da Volkswagen, que nada mais eram calotas normais com um nome estiloso.
O Fiat Mobi Easy tinha uma pomposa “grade dianteira texturizada”, na verdade uma simples grade plástica sem pintura. Já o Sandero Authentique ostentava “maçanetas internas na cor preta”, uma maneira para disfarçar que eram de plástico simples, sem nenhum acabamento. Menos que isso só se não houvesse as maçanetas.
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O caso do Fox que cortava dedos |
Sabe o que é mais irônico em todas essas distorções da realidade? O consumidor de automóveis não é bobo e, no fundo, ele sabe exatamente qual é a verdade. Portanto, esses subterfúgios não apenas não enganam o público como ainda deixam no ar uma sensação de trapaça, criando uma imagem residual negativa para a marca.
No entanto, poucas tentativas de edulcorar a realidade foram tão fracassadas e danosas à reputação da montadora quanto o episódio do banco do Fox que decepava dedos. Na época, já havia oito casos de proprietários que sofreram ferimentos com o sistema de recolhimento do banco traseiro do hatch lançado em 2003. O sistema era tão potencialmente perigoso que o número de feridos mais tarde chegou a 37 pessoas.
Mesmo assim, a Volkswagen afirmou que não havia problema no mecanismo, culpou o mau uso por parte dos proprietários e negou que fosse caso de recall. Para completar o desastre, o presidente da empresa na época, o alemão Thomas Schmall, foi à TV para repetir tudo isso em rede nacional.
Como eu disse, o consumidor não é bobo: a VW foi obrigada a convocar o recall e instalar um dispositivo para evitar acidentes. Parece até que Schmall era um adepto da teoria que era possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade.
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Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.