Porque só agora, passados quase doze meses dessa valorização, começamos a sentir o impacto do dólar mais fraco? Muito se tem especulado, mas a principal razão tem sido a existência de contratos que não interessaram ser quebrados. Levamos tanto tempo para conquistar clientes nesse mercado, que a esperança de uma recuperação do dólar fez a grande maioria das empresas suportar a redução de resultados. Assim tinha sido.
Hoje estamos cientes de que o real “forte” veio para ficar. Embora nenhum economista jamais acertasse na previsão do câmbio, há um convencimento generalizado de que a volta da competitividade via câmbio, como em 1999, é instrumento do passado.
Embora o dólar se mantenha ao nível daquele ano, o que tanto lucro nos proporcionou nas exportações, nossos custos cresceram muito desde então. Primeiro, com nossos reajustes salariais contemplando aumentos reais acima dos aumentos da produtividade. Depois, com nossas matérias primas se elevando ao nível dos preços internacionais. Grande parte de nossa vantagem competitiva advinha desses dois fatores econômicos: mão de obra barata e matéria prima abundante e muito competitiva. Isso foi perdido.
Por outro lado, a luta pelo aumento da produtividade interna tem sido uma constante em nossas fábricas. O aumento da concorrência no mercado brasileiro foi a razão dessa batalha. Nas montadoras, pela vinda de novas marcas. Nas autopeças, pela pressão que as montadoras exercem, atraindo mais fornecedores e tirando vantagem das tarifas de importação de autopeças com redutor de 40%. Sou levado a crer que ambas tenham já exaurido seus recursos para atingirem maiores níveis de excelência fabril, com estruturas muito mais enxutas e com qualidade a nível mundial, caso contrário não perderiam clientes no exterior ou oportunidades de expansão para exportar.
Como então reconquistar a nossa capacidade de competir frente ao dragão chinês e ao elefante indiano? O que nos restaria fazer, então, antes de repetir a estratégia da indústria automotiva americana de baixar preços (e não custos) até quebrarem seus fornecedores?
Eu sugiro o óbvio: atacar o famigerado Custo Brasil! De longa data fala-se nisso, mas pouco ou nada tem sido feito para eliminar ou reduzir seu efeito, que tanto atrofia nossa capacidade de competir. O que foi feito das reformas trabalhista, sindical e tarifária? Todas faziam parte do ideário deste governo nas promessas eleitorais, mas nada saiu de suas gavetas, se é que nelas algum dia esteve.
Segundo o International Institute for Management Development (IMD), o Brasil ocupa a 51ª posição no ranking anual de competitividade, pela ausência de uma reforma tributária. As altas taxas de juros e o custo do capital seriam, segundo eles, as causas do nosso crescimento econômico raquítico. Corrigido isso subiríamos dez posições!
E, de acordo com o Fórum Econômico Mundial, em 2005 caímos no seu ranking da competitividade para o 65º lugar, devido ao peso dos juros na atividade econômica, à alta carga tributária e à falta de credibilidade das instituições públicas.
Mas não se fala mais em reformas, só em queda dos juros. Se a CNI, as Federações da Indústria e os Sindicatos não baterem na tecla das reformas, como fazem diariamente na queda dos juros, vamos ver nossas exportações de produtos manufaturados minguarem ao ponto de debilitar nossa competitividade interna, resultando em produtos chineses e indianos ocupando nosso lugar no mercado brasileiro. Apocalíptico? Não, só uma perspectiva de futuro mantido o “status quo”.
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