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Renault aposta em carros mais caros também no Brasil, diz De Meo

São José dos Pinhais (PR) – Em visita de dois dias à fábrica brasileira, o CEO Luca De Meo afirmou que a estratégia desenhada para recolocar o Grupo Renault no caminho do lucro será a mesma em todas as regiões do mundo, com as devidas adaptações. Portanto, também no Brasil e América Latina a marca vai adotar novas plataformas globais e apostar no lançamento de produtos de maior valor agregado, mesmo que com volumes menores.
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pedro

11 nov 2021

4 minutos de leitura

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“Em nossa estratégia não teremos países de primeira e segunda divisões. Vamos em busca de valor com plataformas globais que nos permitem ter uma estratégia homogênea em todo o mundo com conteúdo diferente para cada região. Hoje 70% de nossas vendas na América Latina são de carros pequenos e isso não é equilibrado. Queremos introduzir modelos maiores e mais rentáveis, como já fazem nossos concorrentes aqui”, explicou Luca De Meo.

O executivo explicou que a Renault não vai abandonar o segmento de modelos compactos que notabilizaram a marca, principalmente no Brasil com o uso de projetos da romena Dacia, que pertence ao grupo. 

Contudo, o objetivo é focar em maior valor agregado em toda a gama. De Meo não confirmou com todas as letras, mas deixou no ar que essa estratégia deverá resultar na descontinuação da plataforma B0 e adoção de outra da própria Renault, o que deve significar o fim de carros como “Sandero e Logan ao fim de seu ciclo de vida em mais dois ou três anos”, ele considerou. Já o SUV Duster, em segmento de preço superior, poderá ser renovado ou ser substituído por nova família.

“É verdade que quando chegou ao Brasil a Renault lançou carros maiores da linha Mégane e não deu muito certo. Depois lançou os compactos da Dacia e funcionou. Mas isso foi há 10 anos. O mercado mudou, subiu de valor e vai subir mais nos próximos 10 anos. Por isso estou convencido que devemos lançar modelos acima do que temos hoje aqui. É o que nossos concorrentes estão fazendo com sucesso”, afirma Luca De Meo.

O CEO promete que a próxima geração de produtos Renault terá muitas opções, incluindo eletrificação com powertrain elétricos e híbridos. A ideia é oferecer os mesmos produtos em todo o mundo, com produção local se houver volume e fornecimento local de componentes para viabilizar o investimento.

Segundo De Meo, a nova plataforma modular Global Access permite a produção de carros de 3,8 a 4,5 metros de comprimento, “que podem ser adaptados de acordo com as características de cada mercado”.

Parece que se encontra suspenso o plano anunciado pela Renault no início de 2020, de combinar globalmente a produção de veículos com a sócia Nissan, incluindo a localização de plataformas diferentes nas fábricas brasileiras de São José dos Pinhais (PR) e Resende (RJ). “Isso vamos ter de conversar com nossos parceiros”, disse De Meo.

Novo investimento, só depois de fazer contas

De Meo contou que passou os últimos dias analisando os números e resultados mostrados pela equipe brasileira e concluiu que “aqui também estamos progredindo rápido com a reestruturação”, mas não informou se e quando a divisão latino-americana poderá voltar ao lucro – ao contrário da Europa, onde o grupo vem fazendo progressos mais rápidos para se recuperar do prejuízo de US$ 9,2 bilhões em 2020, e poderá chegar ao equilíbrio já neste ano ou no próximo.

O executivo reconhece que para mudar o portfólio brasileiro de produtos da Renault será necessário mais do que o programa de R$ 1,1 bilhão anunciado no início deste ano e que se estenderá até 2022. “Vamos investir, isso é certo, mas ainda precisamos fazer as contas, decidir quais produtos vamos fazer para saber o quanto será necessário”, limitou-se a dizer.

Ele reconhece que a região tem muita volatilidade econômica e política, mas afirma que o grupo segue acreditando no potencial dos mercados latino-americanos. “A volatilidade é atualmente uma tendência global. O que podemos fazer é mitigar os riscos com algumas medidas que podemos tomar. Uma delas é focar na nacionalização de componentes para se proteger das variações cambiais”, exemplificou.

De Meo afirmou que a situação do grupo era “crítica” quando ele assumiu o posto no meio do ano passado. “Entrei na empresa talvez no momento mais duro de sua história. Nos últimos 15 meses mudamos muita coisa e tivemos de tomar decisões difíceis, mas agora começamos a ver uma luz no fim do túnel. Na América Latina não foi diferente e quero agradecer o time daqui que avançou muito. Mas ainda temos muito trabalho a fazer para voltar a crescer”, avaliou.

Para o CEO, em 2022 a falta de semicondutores deverá continuar a afetar o negócio – este ano o problema deverá causar perda de produção global da Renault estimada entre 450 mil e 500 mil veículos. “Ainda assim deveremos crescer dois dígitos, mas não tudo que precisamos para recuperar todas as perdas do passado, que são muitas.”