
Já faz algum tempo que Renault e Nissan vivem uma relação de “família muito unida, e também muito ouriçada”. No entanto, parece que, dessa vez, a reestruturação da aliança entre a companhia francesa e a japonesa deve, enfim, sair do papel.
Isso é o que diz a agência Reuters, que escutou pessoas familiarizadas com o assunto. Mesmo assim, vale frisar que o mesmo já havia sido dito no longínquo mês de março. À época, as montadoras anunciaram que a Nissan assumiria até 15% da nova unidade de veículos elétricos da Renault, a Ampere, enquanto a francesa reduziria sua participação de 43% na companhia de origem nipônica.
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Esse cronograma, contudo, foi estendido quando altos executivos da Nissan contestaram detalhes referentes ao acordo. Eles citaram a necessidade de melhor proteger a propriedade intelectual da companhia japonesa.
Dessa forma, o atraso complicou o esforço da Nissan para equilibrar sua relação de décadas com a Renault, construída pelo ex-presidente Carlos Ghosn. Ghosn, aliás, disse em entrevista no início desta semana que a aliança foi destruída “a partir do momento em que ele foi preso”. Vale lembrar que o executivo foi detido no Japão em 2018 sob acusão de má conduta financeira. Por conta disso, o outrora todo-poderoso abriu processo no valor de mais de US$ 1 bilhão contra a empresa em maio passado.
Nissan quer investir menos na Renault, dizem interlocutores
A Nissan trabalha para estabelecer um limite inferior para o investimento estratégico prometido na unidade da Renault. A montadora japonesa pretende aplicar montante abaixo dos 15% estipulados em fevereiro, comentaram fontes à Reuters.
Embora o tamanho do investimento dependa do valor da Ampere, a Nissan provavelmente ficará com menos de 10% de participação na divisão de carros elétricos da Renault.
E o que as duas companhias dizem? “A Nissan e a Renault estão em negociações construtivas e contínuas. Faremos uma declaração a seu tempo, quando os acordos forem concluídos”, afirmou a empresa japonesa em um comunicado. Já a montadora francesa se recusou a comentar. No entanto, garantiu que pretende listar a Ampere em uma oferta pública inicial no primeiro semestre de 2024.
Além de toda essa trama digna de folhetim mexicano e de um dorama sul-coreano, as conversas entre Renault e Nissan travaram por conta de outro problema envolvendo a companhia japonesa. O conselho da Nissan teve de lidar com uma alegação de que o CEO Makoto Uchida realizou vigilância de seu então vice, Ashwani Gupta, depois que o último se opôs a alguns termos da nova parceria com os franceses.
Gupta, que era diretor de operações e visto como favorito ao cargo de CEO da Nissan, acabou deixando a empresa em junho. O conselho ainda não ouviu o relatório final sobre a alegação de vigilância.
Ao encerrar a novela com a Renault, os executivos da Nissan terão a oportunidade de se voltar para outros desafios, incluindo uma atualização da estratégia de médio prazo e uma mudança de abordagem em relação à China, onde as vendas da empresa, assim como de outras montadoras globais, estão em declínio. Será que essa grande família nipo-francesa chegará a um final feliz? Essa nem Agostinho Carrara, personagem interpretado por Pedro Cardoso, se arriscaria a responder.
