
A fábrica da Renault em São José dos Pinhais (PR) entra na segunda semana de paralisação após a empresa anunciar o encerramento do terceiro turno e a demissão de 747 trabalhadores em 21 de julho. O Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC) convocou assembleia na mesma data que aprovou a greve na planta e desde então tenta sensibilizar políticos do Estado e o governo do Paraná a pressionar a empresa a readmitir os funcionários desligados. A Renault afirma que está aberta ao diálogo para discutir novo acordo trabalhista com os empregados, mas nega que vá rever os cortes. 
Após passar toda a semana realizando assembleias na via de acesso à fábrica, o sindicato conseguiu levar o assunto à Assembleia Legislativa do Paraná, que realizou audiência pública na manhã da sexta-feira, 31, para ouvir os trabalhadores e a empresa. O SMC tenta ganhar apoio de deputados estaduais e do executivo paranaense para pressionar a Renault com a aplicação de uma lei estadual que veda a demissão de trabalhadores por empresas beneficiadas por incentivos fiscais do Estado.
Durante a audiência os representantes da Renault se comprometeram “a voltar à mesa de negociação e debater, entre outros temas, a readmissão dos 747 demitidos”, diz uma nota do sindicato. A reunião foi marcada para a segunda-feira, 3 de agosto, e vai envolver, além da empresa e o SMC, representantes do governo, deputados e o Ministério Público do Trabalho. A Renault confirmou o encontro, para discutir pontos do novo acordo coletivo para os próximos anos, mas segue afirmando que não irá voltar atrás nas demissões.
“Estabelecer uma mesa de diálogo sempre foi a nossa reivindicação, mas a empresa, sem mais nem menos, decidiu radicalizar demitindo os trabalhadores. Para que o encontro dessa segunda possa ser produtivo a Renault tem que suspender as demissões. Será uma demonstração de boa vontade que vai deixar claro se a empresa está mesmo preocupada com os trabalhadores”, disse o presidente do SMC, Sérgio Butka.
A empresa desmente Butka e afirma que nunca se recusou em negociar, informando que já houve na quarta-feira, 29, uma reunião com o SMC e representantes do governo estadual e Ministério Público do Trabalho, que participaram como ouvintes. O encontro terminou sem acordo, conforme a Renault, porque os sindicalistas impuseram as readmissões como ponto de partida para retomar qualquer negociação, o que a montadora se negou a aceitar.
A Renault acusa o sindicato de impedir a volta ao trabalho dos cerca de 4 mil funcionários da produção, que estão sem receber desde o início da greve. Na avaliação da empresa, a maioria dos empregados da unidade quer voltar a trabalhar, mas não consegue porque o SMC montou barreiras na estrada de acesso ao Complexo Ayrton Senna, o que obriga os ônibus fretados a retornar com os trabalhadores.
RELAÇÃO DIFÍCIL E FALTA DE COMPETITIVIDADE
Após fecharem acordos bastante vantajosos aos trabalhadores nos últimos anos, Renault e SMC vêm travando uma relação difícil desde o início deste ano, antes mesmo da instalação da pandemia de coronavírus que obrigou a paralisação da produção a partir da última semana de março até o começo de julho. A empresa procurou o sindicato já no início do ano para tentar pavimentar negociação em torno de um novo acordo coletivo para os próximos anos, com o objetivo de trazer mais competitividade à fábrica brasileira e assim iniciar um novo ciclo de investimento no País com a produção de um novo veículo na unidade.
Segundo a Renault, desde então o sindicato vem negando todas as propostas, que incluíram redução de jornada (quando a crise da pandemia começou), plano de demissões voluntárias e o próprio acordo coletivo proposto até 2022.
Especialmente após os estragos econômicos causados pela pandemia, que trouxe queda de 48% em suas vendas no País no primeiro semestre, a Renault alega que não pode mais sustentar o mesmo quadro de funcionários que vinha mantendo, nem conceder reajustes acima da inflação, como aconteceu nos últimos anos. Segundo a empresa, os funcionários já ganham salários que estão 1,5 vez acima da média do setor automotivo nacional, e três vezes mais do que é pago pela sócia de aliança, a Nissan, na fábrica de Resende (RJ), onde também foram anunciadas 398 demissões no fim de junho passado.
O salário inicial de um operador na fábrica do Paraná, segundo divulga a Renault, é de R$ 3.070/mês, mais vale-mercado de R$ 578 e plano de participação nos resultados (PPR, condicionado à produção de no mínimo 376 mil veículos/ano) que em 2019 chegou a R$ 26.500 (equivalente a R$ 2.208 por mês). Assim, sem considerar encargos e benefícios como plano médico, o custo salarial de um empregado iniciante na Renault do Brasil é de R$ 5.856/mês.
A Renault também oferece alguns números para comparação com outras fábricas de alto volume no País, concorrentes diretas incluindo líderes de mercado, onde o salário médio de entrada de um empregado da produção é de R$ 1.800/mês, não há vale-mercado na maioria e o PPR em 2019 foi de R$ 14.000 (equivalente a R$ 1.167 por mês), o que elevou o total a R$ 2.967 por mês (sem encargos e benefícios), praticamente a metade do que a fabricante paga no Paraná.
Para retomar sua competitividade no Brasil e voltar a investir, a Renault alega que será fundamental reduzir sua massa salarial. Por isso propôs para um novo acordo coletivo, entre outros pontos, que a partir de 2022 o salário inicial da fábrica seja reduzido em 20% para novos contratados, além de poder terceirizar até 350 postos em funções paralelas à produção, como um operador de empilhadeira, por exemplo.