
Para o executivo, em 2020 os carros elétricos responderão por 10% do total de vendas nos mercados maduros, que já oferecem incentivos para esses veículos, como a França, onde cerca de 1% dos emplacamentos anuais são de elétricos. Além da pressão ambiental por redução das emissões de poluentes, esse movimento será puxado pela redução do custo. Carré estima que, neste mesmo prazo, o preço destes modelos será equivalente ao de carros com motor a combustão. “Um Zoe poderá custar o mesmo que um Clio”, acredita.
Na análise dele, em uma situação em que veículos elétricos e a combustão tenham volumes de produção equivalentes, o preço dos carros zero emissão seria inferior. Isso porque veículos com a tecnologia usam menos alguns metais que inflam os custos. O desafio está na bateria de lítio. Segundo Carré, há cinco maneiras de extrair o material da natureza, mas ainda não há definição sobre qual delas é mais eficiente. Além disso, o preço do insumo é imprevisível, o que complica o planejamento das montadoras.
Até lá, no entanto, ele acredita que o mercado seguirá no atual período de transição, em que são necessários incentivos para tornar os elétricos atrativos. “Temos alguns grandes desafios”, admite. O primeiro deles é a falta de conhecimento sobre a tecnologia, que demanda alto investimento em publicidade. Outro ponto importante é a questão da infraestrutura de recarga, com a oferta de pontos de abastecimento nas cidades e nas estradas. A autonomia desses carros que hoje, em média, fica em torno de 150 quilômetros com uma carga completa na bateria, também é fator relevante, mas, segundo Carré, não tão preocupante.
“O receio com a autonomia não é racional. Hoje 87% das pessoas nas cidades andam menos do que 60 quilômetros por dia e 32% dos cidadãos nunca rodam mais do que 150 quilômetros”, enfatiza. Mais um aspecto nebuloso que atrapalha as vendas de elétricos é a falta de informação acerca do processo de recarga. Carré aponta que o medo de que sejam gerados problemas por causa de picos de consumo de energia é infundado. Ele cita que o dono de um automóvel elétrico pode chegar em casa, ligar o veículo na tomada e, por meio de um aplicativo no smartphone, solicitar que o abastecimento seja feito no melhor horário, em que a demanda por energia e os preços são menores. Nessas condições a carga completa do automóvel custa cerca de € 1,60 na França. “Estes dados não são estimativa com base no que acho que vai acontecer, mas sim com a experiência dos 200 mil carros elétricos que já vendemos no mundo”, enfatiza.
MUDANÇA DE ESTRATÉGIA
Ele garante que a Renault não pretende voltar atrás na estratégia de ser pioneira no segmento, com a maior gama de modelos disponíveis. “Em cinco ou seis anos queremos ter opção elétrica para todos os nossos modelos pequenos”, revela. Os veículos maiores da marca, segundo Carré, deverão ganhar variações híbridas plug in. Até então a empresa descartava completamente a possibilidade de fazer veículos que combinassem um motor elétrico com a combustão.
O vice-presidente explica que a mudança na estratégia pretende garantir ao consumidor carros com maior autonomia enquanto o desenvolvimento das baterias de lítio avança para oferecer as mesmas condições a um preço competitivo. “Hoje eu poderia ter, por exemplo, um Duster elétrico capaz de rodar 600 quilômetros com uma carga completa da bateria, mas ele seria muito mais caro. A questão é oferecer isso pelo preço atual do Duster”, aponta.
BRASIL
Carré lamenta a decisão do governo brasileiro de conceder desconto no imposto de importação apenas para veículos híbridos que não são plug in. “Essa tecnologia está ultrapassada”, avalia, explicando que os modelos sem recarga na tomada não oferecem benefício tão grande de redução de consumo e das emissões. Ainda assim, o executivo está confiante de que alterações nessa legislação serão feitas em breve, estendendo o benefício a modelos totalmente elétricos com recarga na tomada.
Ele defende que, para tornar viável a venda de carros com propulsão alternativa, é necessário também conceder descontos no Imposto dobre Produtos Industrializados (IPI). “Com estas condições em quatro ou cinco anos 1% do mercado brasileiro poderia ser de veículos elétricos e híbridos”, calcula. Nesse cenário ele avalia ser viável produzir localmente os carros zero emissão. “A partir de 20 mil unidades por ano já podemos pensar em fabricar aqui.”
Enquanto o veículo elétrico não vira realidade no Brasil, com a incidência de tributos que o tornam ainda mais caro do que os equipados com motores a combustão, a Renault atua para divulgar a tecnologia e concentra esforços nas vendas a frotistas. Além da CPFL, Fedex e Itaipu já trabalham com algumas unidades zero emissão da marca. A montadora garante que as impressões são as melhores possíveis.
