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Senhor tempo

Durante uma de minhas palestras fui insistentemente perguntado sobre fórmulas para construir uma carreira de sucesso. A garotada via em mim um executivo de uma multinacional, um sujeito que fala em público com facilidade, um escritor, um radialista enfim, e ficava fascinada em tentar descobrir o que fiz e como fiz para chegar até ali.
Cada um tem sua história de vida e já está mais do que provado que duas pessoas, por mais parecidas que sejam e por mais similares os ambientes onde cresceram e foram educadas, acabam encontrando diferentes caminhos na vida. Em outras palavras: esqueçam fórmulas. Não existem. Existem métodos, existem processos, existem dicas. Sabe aquelas coisinhas que a gente aprende quebrando a cara?
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Redação AB

22 fev 2008

3 minutos de leitura

E uma das coisas que mais gosto de dizer – para decepção da garotada – é que um dos atributos mais importantes que podem explicar o sucesso que as pessoas obtêm em suas carreiras é muito comum e todo mundo tem em igual intensidade: o tempo.

Aquela garotada têm mais vigor físico, mais velocidade, mais ânimo, mais beleza, mais capacidade de aprender do que eu. Mas eu tenho mais tempo de vida. Aquele executivo falando para a garotada é produto de meio século de experiências, de tentativas e erros. Está por aqui desde a metade dos anos cinqüenta. Planta desde os 16 anos de idade. E por isso colhe. Qualquer garotão de trinta anos pode ter mais cursos, mais empregos, mais namoradas, mais filhos, mais viagens do que eu. Mas não terá mais tempo de vida. E, acredite, isso faz diferença quando temos consciência de que a passagem do tempo é um processo de aprendizado, de “polimento”.

Quem tem essa consciência trata o tempo como aliado.

O tempo adiciona à razão uma carga de emoção que só conseguimos equilibrar quando chegamos à idade madura, lá nos quarenta anos de idade.

Num recente artigo da jornalista Maia Szalavitz na revista Psicology Today, encontrei uma informação curiosa, já que sempre achei que seria o contrário: pesquisas recentes demonstraram que quando um jovem é colocado diante de uma decisão que envolve determinados riscos, como usar drogas para ganhar massa muscular ou dirigir embriagados, usam certas regiões do córtex cerebral, responsáveis pela razão. E suas análises racionais determinam muitas vezes que os ganhos em termos de estética corporal valem o risco das drogas. Ou que a diversão naquela festa vale o risco da direção insegura.

Já os adultos usam regiões do cérebro mais ligadas à emoção. Pesam os prós e os contras de forma racional e emocional e por mais que os ganhos sejam atraentes é a decisão emocional que diz: não!

Nós, adultos, baseados na emoção, consideramos sempre o pior cenário.
– Nossa, pai, como você é trágico!
– Mãe, você acha que eu sempre vou me estrepar!
Nossos filhos consideram sempre o melhor cenário. Tudo vai dar certo, tudo vai correr bem, tudo tranqüilo.
Eu sei. Fui um deles. Mas um dia o senhor tempo me transformou em pai…
Infelizmente (ou felizmente) não há como apressar o tempo. É impossível acelerar o amadurecimento do processo de tomada de decisão. São a prática e a repetição que aperfeiçoam nosso processo de julgamento emotivo.
Senhor tempo. Não dá pra emprestar. Não dá pra comprar. Não dá pra alugar. E todos, homens ou mulheres, pretos ou brancos, ricos ou pobres, têm a mesma quantidade. A questão é o que vão escolher fazer com ele.
Terminei aquela palestra e a rodada de perguntas e respostas com uma frase de Charles Darwin que é mais um de meus motes de vida: “O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora de seu tempo, não descobriu o valor da vida.”

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