
Participaram do painel “Pesados: A Volta do Crescimento” Antonio Baltar, gerente de marketing e vendas da Ford Caminhões; Bernardo Fedalto, diretor de vendas de caminhões da Volvo do Brasil; Marco Borba, vice-presidente da Iveco Latin America; Mathias Carlbaum, diretor geral de operações da Scania Brasil; Ricardo Alouche, vice-presidente de vendas, marketing e pós-vendas da MAN Latin America; e Roberto Leoncini, vice-presidente de marketing, vendas e pós-vendas de caminhões e ônibus da Mercedes-Benz do Brasil.
Após um ano de retomada em 2013 (154,5 mil unidades), o segmento de caminhões enfrentou uma queda considerável nas vendas em 2014 (137 mil unidades), número que tende a piorar em 2015 (94 mil unidades, segundo previsão da Carcon Automotive). “O que vemos é que há uma crise de confiança na economia em geral. Os clientes estão adiando suas compras”, disse Antonio Baltar, da Ford.
Além da conjuntura econômica desfavorável, a falta de demanda para o setor também gera impactos nas vendas. “Quem precisava renovar ou ampliar sua frota já fez isso nos últimos anos, o que faz com que estejamos em um momento de acomodação do mercado”, afirmou Marco Borba, da Iveco. Ainda assim, a fabricante se encontra em um ciclo pesado de investimentos, que contempla R$ 650 milhões a serem gastos na área de pesquisa e desenvolvimento e principalmente na nacionalização de produtos.
De acordo com pesquisa da Carcon Automotive, 44% dos potenciais compradores de caminhões adiaram a aquisição pela situação econômica e 23% em decorrência da baixa demanda do momento, o que corrobora com a tese de Borba.
RELACIONAMENTO COM CLIENTES É FUNDAMENTAL
Líder de mercado em 2014, a MAN já previa uma retração desde o ano passado. “Com a Copa do Mundo e as eleições, já imaginávamos que 2014 seria um ano difícil, mas acabou sendo um pouco mais. O que fugiu um pouco do previsto foi a retomada do mercado, que está demorando para ocorrer.
Nesse ritmo, o resultado de 2015 tende a ser ainda pior, uma vez que já estamos em abril e cada vez há menos meses para recuperar o prejuízo no ano”, lamentou Ricardo Alouche, da MAN.
Os executivos presentes foram unânimes ao dizer que o momento não é propício para se brigar por participação no mercado. Em 2014, a líder no segmento de caminhões foi a MAN, com 26,4% de participação. A marca foi seguida por Mercedes-Benz (25,9%), Volvo (14,4%), Ford (14,3%), Scania (10,3%) e Iveco (6,4%).
Mesmo que essa não seja a preocupação do momento, a principal estratégia das marcas para manter suas posições ou avançar nessa disputa diz respeito ao relacionamento com os clientes. “Market share é reconhecimento e passa por entender o que o cliente precisa e ajudá-lo a ser mais produtivo e faturar mais. Ao fazermos isso, ampliar nossa participação é uma consequência”, afirma Roberto Leoncini, da Mercedes-Benz.
RECUPERAÇÃO PASSA POR FINANCIAMENTO E RENOVAÇÃO DA FROTA
Outro fator que impacta o setor é a mudança das regras do Finame PSI, a linha de crédito do BNDES responsável por financiar até 80% das compras de ônibus e caminhões no país. No fim do ano passado, o governo anunciou mudanças nas regras da concessão de crédito, a começar pela impossibilidade de se financiar 100% do bem adquirido. Agora, pequenas e médias empresas precisam dar uma entrada de 30%, valor que sobe para 50% no caso de empresas grandes. Os juros também aumentaram, chegando a 10% no caso de empresas de grande porte.
Houve consenso entre os executivos de que o PSI ajudou a indústria a implantar novas tecnologias, como os motores Euro 5, sem que isso gerasse grande impacto nas vendas. Contudo, as mudanças na regra ajudaram a piorar um cenário que já não era favorável.
Entre as soluções discutidas durante o painel está o programa de renovação da frota, que também ajudaria a tirar caminhões muito velhos, poluentes e inseguros das ruas. Essa medida, aliada à ampliação da oferta de crédito, poderia ajudar a diminuir os efeitos da crise, concordam os executivos.
NOVOS DESAFIOS
Apesar do mau momento – que gera desafios às fabricantes no que diz respeito às vendas e a manutenção de seus funcionários –, os investimentos no País estão mantidos, o que mostra que há, sim, otimismo para o médio prazo. A MAN se encontra em um ciclo de investimentos de R$ 1 bilhão, iniciado em 2012 e com término previsto para 2016. A Mercedes-Benz também está na mesma situação, com R$ 730 milhões sendo gastos entre 2014 e 2015. Volvo – US$ 500 milhões entre 2013 e 2015 – e Scania – R$ 100 milhões anualmente – também apostam no País.
Superar as dificuldades geradas pelas baixas vendas, entretanto, é apenas um dos desafios para as fabricantes instaladas no Brasil, enquanto a expectativa é que o mercado brasileiro ganhe novos concorrentes em breve. Entre as empresas que já iniciaram suas operações e as que estão por vir, estão a DAF, a Foton Aumark, a Metro-Shacman e a Sinotruk: juntas, seus investimentos passam de R$ 1 bilhão.