
Segundo Antonio Carlos Bento, que coordena o GMA, o objetivo do evento é estimular a integração e profissionalização do setor, além de apresentar as perspectivas para o aftermarket. Oportunidades não faltam diante de uma frota de 45 milhões de veículos no País, que, querendo ou não, vai precisar de manutenção, garantiram o economista Raul Velloso e o consultor da Roland Berger Strategy Consultants, Stephan Keese, durante suas apresentações. No entanto, os especialistas ressaltaram que ainda há escassez de investimentos em infraestrutura na indústria e de transparência nos negócios do setor.
SETOR EM CRESCIMENTO
Na avaliação do consultor Stephan Keese, o mercado de reposição brasileiro está em um momento bom e pode ser considerado atrativo. “O setor tem registrado crescimento de mais de 17% ao ano. E as suas cinco principais alavancas tem sido: poder de compra crescente dos consumidores, expansão da frota, volume maior de componentes em novos veículos, novas medidas regulatórias e mudança de consciência do consumidor, que aos poucos tem optado pela manutenção preventiva.”
Ele calcula que hoje, no País, em média são gastos R$ 575 por ano na manutenção de cada veículo. “Na Europa, Estados Unidos e China, o valor é mais alto, mas a tendência é que essa despesa aumente por aqui.” A idade média dos nossos veículos, segundo ele, é de 8 a 9 anos, dos europeus, de 7 anos. “A boa notícia é que os brasileiros estão comprando carros maiores, mais modernos e superiores, e o setor de manutenção terá vantagens com isso”, declarou.
São três as principais tendências para o setor, na visão de Keese: maior volume de componentes nas concessionárias – que atualmente detêm 20% de participação no setor –, aumento da importância da rede de oficinas e varejistas, e consolidação dos distribuidores. O especialista diz que o mercado brasileiro tem dois modelos a seguir: o americano, com dois tipos de distribuidores (os especializados em peças específicas e os atacadistas focados em componentes importados), ou o europeu, que se divide em grandes oficinas, atacadistas de peças importadas e concessionárias.
“Todos os diferentes players enfrentarão oportunidades e desafios, dependendo do modelo de mercado que for desenvolvido. Mas não posso prever muito mais além disso. É difícil fazer projeções para reposição no Brasil, tentar antecipar a rentabilidade de peças. Falta transparência no setor. Consultamos cinco distribuidores das mesmas peças e recebemos respostas totalmente diferentes”, concluiu.
FROTA 100%
Uma das iniciativas adotadas em conjunto pelas entidades de autopeças, apresentada no seminário, e que tem surgido efeitos positivos é o programa Carro 100%/ Caminhão 100%/ Moto 100%. Lançado em 2008, ele prevê a geração de demanda do mercado de reposição à medida que fiscaliza a situação dos veículos em circulação.
De acordo com Antonio Carlos Bento, coordenador do GMA, até hoje o programa já investiu R$ 2,8 milhões, R$ 800 mil apenas este ano. Entidades do grupo contribuíram com R$ 3,8 milhões até julho de 2012. O executivo assegura que a iniciativa tem gerado retorno financeiro para as fabricantes associadas ao Sindipeças. “Em 2008, com uma frota de 27 milhões de veículos no Brasil (sem contar motos), as empresas de autopeças associadas registraram faturamento de cerca de US$ 41 milhões. Em 2010, com 34 milhões de veículos, esse número subiu para US$ 54,6 milhões”, conta.
MERCADO BRASILEIRO
Para começo de conversa, o economista Raul Velloso apontou como será o comportamento do mercado interno brasileiro diante do fraco desempenho da economia mundial e do fortalecimento dos países emergentes. De acordo com o especialista, o crescimento do PIB ficará em torno de 4% em 2013.
Ele recordou que depois da redução significativa da dívida interna, em meados dos anos 2002 e 2003, o Brasil tornou-se um país credor e começou a apostar em uma rápida transição de consumo, que ele traduz em uma economia de serviços com mais inclusão social. Foi esse modelo que permitiu sobreviver à atual crise mundial, apesar da desaceleração. O problema, porém, como salientou Velloso, é que a indústria é sobretaxada para manter grande parte das classes sociais ativas. “O Brasil tem de arcar com a maior carga tributária do mundo ao passo que não tem dinheiro para investir em infraestrutura. Enquanto isso, China e Índia desenvolvem as maiores indústrias de transformação”.
O economista acredita que estes dois países em desenvolvimento, que juntos já somam PIB de US$ 15,8 trilhões (superior ao dos EUA, de US$ 15,1 trilhões), serão importantes consumidores do Brasil de recursos naturais, visto que outras potências mundiais sequer têm terras para atender suas próprias necessidades. Para fortalecimento da indústria, e a automobilística em especial, Velloso diz que a saída seria reduzir o “custo Brasil”, o que na opinião dele ainda está distante de acontecer. “Se reduzir esses impostos, quem financiará os programas sociais, que aquecem o consumo da população e são tão aclamados pelos políticos, que precisam de votos?”, questionou.