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Setor desconhece instrumentos de PD&I

O Brasil é atualmente a 7ª maior economia do mundo, com 2,5% de participação no PIB mundial. No ranking de geração de conhecimento, com uma fatia de 2,7%, ocupa o 13º lugar. Já no levantamento dos países que mais produzem tecnologia, aparece em posição bem mais baixa: 24ª, com apenas 0,3% de contribuição em patentes registradas. O gap entre geração de conhecimento e a transformação do mesmo em tecnologia existe porque 79% dos nossos mestres e doutores estão distantes das empresas, concentrados nas universidades. O mesmo acontece com os instrumentos de fomento ao PD&I. Eles existem no Brasil e acompanham o nível de países desenvolvidos, mas poucas companhias sabem como usá-los.
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Redação AB

08 set 2014

4 minutos de leitura

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Esta é a constatação do painel “Os programas de PD&I e Competitividade”, apresentado por Bruno Bragazza, gerente de inovação e propriedade intelectual da Bosch América Latina, durante o II Workshop Os Novos Desafios da Legislação Automotiva, promovido por Automotive Business na segunda-feira, 8, em São Paulo.

O executivo elencou uma série de recursos que podem ser utilizados pelo setor para aumento da competitividade e apontou: “Falta divulgação maciça dos programas de incentivos fiscais, em especial para pequenas empresas, como tiers 2,3 e 4, que não têm áreas especializadas em P&D. O volume e a intensidade de utilização dos instrumentos está bem abaixo do que seria necessário para o desenvolvimento tecnológico do Brasil.”

O próprio Inovar-Auto, regime automotivo que em tese estimula o desenvolvimento de novas tecnologias, há cerca de dois anos regulamentado, ainda deixa dúvidas para muitas empresas. Bragazza conta que foi formado um grupo com participação do Sindipeças, sindicato das autopeças, da Anfavea, associação dos fabricantes, e da AEA, que representa os engenheiros automotivos, para apontar por meio de um manual técnico, que deveria ser lançado este ano, o que poderá ser considerado pesquisa, engenharia, desenvolvimento e inovação dentro do Inovar-Auto, garantindo abatimento fiscal.

“O grupo tem se reunido frequentemente, mas ainda não chegamos a um consenso. Há muitas dúvidas ainda a cerca de nomenclaturas, de como poderemos assegurar a propriedade intelectual, como será operado o fundo do Inovar-Auto e as consequências de tudo isso.”

Dificuldades de interpretação também acontecem com a chamada Lei do Bem. Nenhuma fabricante de veículos instalada no Brasil passou pela mais recente análise do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), na qual 787 empresas tiveram projetos de P&D aprovados para gozar das isenções fiscais da lei. No relatório referente a 2012, divulgado só no fim de 2013, as montadoras ficaram de fora e terão de explicar melhor seus projetos ao MCTI, pois todos geraram dúvidas quanto à real aplicação de recursos em processos de P&D no País.

Outro importante recurso lembrado pelo executivo é o Inova Empresa, conhecido por poucas pessoas presentes no workshop de legislação. A iniciativa, segundo Bragazza, tem como objetivo fomentar projetos de apoio à inovação em diversos setores considerados estratégicos pelo governo federal. Por meio de chamadas públicas do Inova Empresa, projetos são contemplados por mecanismos disponíveis pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), pela Finep e por órgãos públicos participantes. “É uma ferramenta importantíssima e que ainda segue sendo pouco utilizada.”

Também pouco conhecido é o edital firmado com Sesi e Senai, que visa incrementar a inovação tecnológica por meio de desenvolvimento de produtos, processos e serviços na indústria. Somente em 2014, R$ 7,5 milhões foram concedidos ao Sesi e R$ 20 milhões ao Senai. Há um limite de R$ 300 mil por projeto contemplado.

E não só acesso ao capital que as empresas têm direito. O gerente da Bosch mencionou também o programa RHAE (Recursos Humanos em Áreas Estratégicas), que utiliza um conjunto de modalidades de bolsas de estudos. “O programa foi criado especialmente para agregar pessoal qualificado na área de P&D das empresas. No programa de trainee, um dos braços do RHAE, por exemplo, o IEL (Instituto Euvaldo Lodi) seleciona engenheiros com até três anos de formação, os capacita usando material da Universidade de Harvard, e os contrata para trabalhar nas empresas, incluindo fabricantes do setor automotivo. O IEL arca com o salário do profissional. Sendo assim, a despesa com um engenheiro, que deveria ser de R$ 200 mil ao ano, cai para R$ 20 mil, equivalente ao dispêndio da empresa no projeto”, explica.

“Hoje somos poucos competitivos e sofremos um forte processo de desindustrialização justamente por não transformar o nosso potencial de conhecimento em tecnologias. Há uma defasagem grande na capacidade de entregar produtos com alto valor agregado. E isso só pode ser revertido quando passarmos a investir nas próprias oportunidades. Os instrumentos estão aí, avançados e modernos, mas não aparecem na proporção que deveriam”, conclui Bragazza.