
A Indústria está novamente à frente de um gigantesco desafio em termos de gestão: reinventar-se Frog. Estratégia Frog (sapo, em inglês, aqui palavra formada pelas iniciais de Fully Remote Organization) é o nome que vem sendo usado para designar empresas que nascem e operam de maneira completamente remota. Essas organizações têm arquitetura digital, são segmentadas e colaborativas, e combinam profissionais de diferentes culturas, formações e percepções. Para além do acrônimo, a ideia de “sapo” remete ao fato de que, assim como esse anfíbio nasce na água, o novo modelo de gestão prevê que as empresas funcionem em um ambiente fluido e mutante.
Antes de prosseguir no meu raciocínio, proponho uma breve viagem no tempo.
Há cerca de 25 anos, a inauguração da fábrica de Resende(RJ) da Volkswagen Caminhões e Ônibus causou grande espanto, até mesmo certo ceticismo. Parceiros estratégicos instalados dentro de casa passaram a operar a montagem dos veículos, uma mudança que impactaria para sempre os modelos de gestão das montadoras e transbordaria para inspirar outros setores. Com isso, a indústria da mobilidade quebrava paradigmas e liderava uma revolução na gestão.
Todos nos lembramos perfeitamente do feito por um simples motivo: tornava-se realidade um modelo de gestão completamente novo, o Consórcio Modular. Não se sabe ao certo, mas foi provavelmente naquele mesmo momento que ganhou força o conceito de “sistemistas”, uma reconceituação dos fornecedores. Em vez de apenas entregar componentes, eles passaram a oferecer subconjuntos inteiros que cumpririam funções específicas no veículo. Dentro da cadeia de valor, uma categoria completamente nova.
Montadoras Sapo
Muito bem, tenho a sensação de que estamos outra vez diante de uma iminente revolução. Em um momento de intensa discussão sobre o que significa exatamente o trabalho híbrido (remoto/presencial) para cada empresa, e no qual os melhores candidatos escolhem onde trabalhar levando isso em consideração, como devemos nos posicionar?
Em 1996, quando nasceu o conceito de Consórcio Modular, provavelmente foi algo tão chocante quanto seria imaginar montadoras “sapo” nos dias de hoje. Aqueles absurdos possíveis, sabe? Já pensou se surgissem novos players totalmente remotos? Considerou a possibilidade de reinventar sua empresa nesse modelo? Que alianças seriam necessárias para operar? Quais seriam as atividades centrais e geradoras de valor? O que poderia ser realizado por parceiros estratégicos no presencial? No que vocês e essas novas montadoras se concentrariam? Comandariam robôs a distância?
Pense um pouco. No que se refere às atividades de engenharia já é assim, considerando a estruturação e a atuação das áreas globais de inovação. Imagine estender isso à área comercial, com concessionárias… remotas. Ou o mesmo princípio aplicado a outras divisões das indústrias. São traços da realidade dos nossos tempos. A mim também pareceu inacreditável quando soube que a tensão nos tirantes de algumas pontes estaiadas, no Brasil inclusive, é monitorada e regulada remotamente, até mesmo a partir de outros países.
Poderia surgir, assim como do nada nasceram os sistemistas, uma nova camada de geração de valor? Consórcios robóticos puramente operacionais? Parques de robôs montadores ultraflexíveis? Não caçoe. Abra a mente para pensar diferente. A próxima revolução industrial vai exigir isso de todos nós.
Valter Pieracciani é sócio-fundador da Pieracciani Consultoria. Empresário, pesquisador, consultor e escritor, é especialista em modelos inovadores de gestão. Dirigiu mais de 800 projetos em companhias-líderes como Nestlé, Ambev, Tetrapak, Pirelli e Avon, dentre outras. Atua como gestor de startup e de recuperação de empresas.
*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business