Bastaram 18 horas para esgotar as vendas de um lote de 100 unidades da recém-lançada Ram 1500 Rebel. A notícia surpreendeu o mercado não só porque cada uma custava R$ 420.000, mas também porque é muito mais cara do que qualquer coisa que se assemelha a ela.
Se pensarmos em outra picape, a Ram custa 64% mais que a VW Amarok V6 Extreme, de R$ 256.400. Dentro da própria casa, ela supera facilmente sua irmã maior: a Ram 2500 sai por “apenas” R$ 362.000 apesar de ser maior (6,03 contra 5,93 metros) e ter motor diesel, ao contrário da novata, que traz um V8 de 5,7 litros a gasolina.
Não há dúvida que para a FCA, dona da marca Ram, essa é uma notícia maravilhosa, já que a empresa garantiu um faturamento de R$ 42 milhões em apenas um dia. Para o segmento automobilístico, podemos fazer algumas leituras, três positivas e uma negativa.
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O que essa picape tem de mais? |
Antes, porém, precisamos entender o que provocou essa corrida por um produto que parece tão distante da realidade brasileira. É importante saber que a Ram 1500 não se destina a compradores tradicionais de picapes.
Eu gosto de classificá-la como um modelo 3 em 1. Ao volante, ela tem uma ferocidade de um esportivo: com seu V8 Hemi de 400 cv, qualquer leve toque no acelerador a faz saltar para frente, como se estivesse pronta para o ataque. Com 0 a 100 km/h em 6,4 segundos, consegue ser mais rápida que um BMW 320i (7,1 segundos).
Na pista de terra, ela se mostra um legítimo off-road, graças a uma tração 4×4 com reduzida e bloqueio de diferencial, uma suspensão impressionantemente eficaz, proteção de aço sob o assoalho, vão livre de 24,9 cm e ângulo de entrada de 25,1 graus (o Jeep Compass 4×4 Trailhawk tem 22,8 cm e 29,1 graus).
No asfalto, a Ram 1500 comporta-se como um ótimo carro familiar, com muito espaço interno, conforto de rodagem superior a qualquer outra picape e uma fartura de equipamentos e tecnologia, como a central multimídia com tela vertical igual à dos Tesla e dos Volvo, teto solar panorâmico, sistema de som Harman Kardon de 19 alto-falantes e nove entradas USB, capaz de dar conta dos celulares de qualquer família.
Claro que a demanda reprimida também colaborou com o sucesso do lançamento, já que a picape estava sendo aguardada fazia um bom tempo. Ela mostrou sua cara no Salão do Automóvel de 2016 e de 2018 e, desde meados do ano, as concessionárias já tinham uma lista de encomendas, pois a previsão inicial era lançá-la em agosto.
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Mercado em recuperação |
Feita a introdução, é hora de discutir o que o frenesi da Ram revela sobre o mercado brasileiro, começando pelas análises positivas.
Em primeiro lugar, o episódio deixa claro que o setor automobilístico está se recuperando bem da crise. Novembro foi o mês com a maior venda do ano para os veículos leves e mostrou-se melhor ainda para o segmento de entrada. Segundo o ranking da Fenabrave, os carros mais básicos do país somaram 21.806 unidades comercializadas em 2020 contra 20.748 de 2019.
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Segmento premium em alta |
O êxito da Ram também é um sinal de como os veículos premium sofreram muito menos em 2020 do que os dos fabricantes generalistas. A marca americana cresceu 237% neste ano (sem contar o modelo 1500), a Volvo teve o melhor mês de novembro da sua história, a BMW vendeu mais nesse mês do que em novembro de 2019 e a Porsche atingiu já em setembro o recorde histórico de vendas para um ano (pela primeira vez vai comercializar mais de 2.000 unidades anuais).
Por fim, reflete também o nível de confiança do público de alta renda na economia em 2021. Afinal, esses 100 clientes endinheirados fecharam a compra hoje, mas sabem que só receberão sua encomenda em abril. Como estamos falando de empresários bem-sucedidos e ricos homens do campo, eles devem estar tranquilos quanto ao ritmo dos negócios no próximo ano para se comprometerem com uma transação como essa.
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Escalada dos preços |
Atrás desse tripé positivo, porém, há uma constatação pessimista. Poucos sabem que no início do ano estimava-se que a Ram 1500 desembarcaria no Brasil custando por volta dos R$ 260.000. Como a versão mais barata da nova picape foi tabelada em R$ 400.000, estamos falando de uma espantosa variação de 54%.
Mesmo que no meio do caminho tenha havido uma mudança na estratégia comercial da FCA, ninguém duvida que os carros vendidos no Brasil ficaram bem mais caros em 2020. A alta do dólar, a necessidade dos fabricantes de repor os prejuízos com a pandemia e a explosão dos custos da matéria-prima na indústria só agravaram um cenário bem conhecido: o automóvel zero-km já era considerado caro no Brasil antes da crise do coronavírus.

O preço do Renault Kwid subiu 16% neste ano, cinco vezes mais do que a inflação
Para compreender a gravidade do assunto, vamos comparar os preços atuais com os do início do ano. O Renault Kwid Zen subiu de R$ 40.390 para R$ 46.990 (um aumento de 16,3%), o VW T-Cross 200 TSI foi de R$ 84.990 para R$ 95.550 (12,4%), Jeep Compass Sport de R$ 116.990 para R$ 130.690 (11,7%) e Toyota Corolla Hybrid Altis de R$ 128.990 para 146.390 (13,5%).
O horizonte ganha contornos ainda mais sombrios quando nos damos conta de que a inflação IPCA acumulada entre janeiro e novembro foi de míseros 3,13%. Assim não tem consumidor que aguente.
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Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.
