
Tudo para garantir que segue firme sua convicção de que a profunda crise político-econômica em que se meteu o Brasil vai passar e em breve o mercado retomará seu ritmo de crescimento. “Vendemos no ano passado 378 mil veículos na América Latina e o Brasil foi responsável por 47% desse resultado. Claro que 2015 foi difícil e os próximos anos também não serão fáceis com a economia fraca, câmbio instável, inflação em alta. Mas tudo não passa de distração do goleiro, pois o Brasil tem fundamentos econômicos robustos. Eu vejo isso nos números, como US$ 379 bilhões de reservas internacionais e dívida externa que representa apenas 35,4% do PIB, enquanto em países como Japão e Estados Unidos esse índice ultrapassa os 100%”, afirma.
St. Angelo destaca também o crescimento da massa de consumidores e o ainda baixo índice de motorização do País, citando que a população brasileira deve crescer 5% até 2020, mas a parcela economicamente ativa avança o dobro, 10%. “Serão mais consumidores em busca de transporte”, diz, lembrando que o País tem apenas 1,9 veículo para cada 10 habitantes, em comparação com o México onde esse índice é de três para 10, Malásia com 4 e Estados Unidos com oito. “Vendo tudo isso, tenho certeza que a economia irá se recuperar, não há dúvida”, reforça.
ESTRATÉGIA SUSTENTÁVEL
Com essa perspectiva em mente, o executivo americano diz que o objetivo da Toyota no Brasil é avançar devagar e sem retrocessos. “Não estamos caçando market share, queremos crescimento sustentável, para evitar demissões e layoffs no futuro”, diz St. Angelo. A estratégia se baseia em ganhar participação de mercado por meio da boa reputação que a marca conquistou entre os brasileiros e da oferta de produtos que atingem ampla faixa de renda, como é o caso dos recém-renovados Etios, Corolla, Hilux e SW4. “Fazemos produtos desejados pelos consumidores e nossa meta é oferecer o melhor serviço nas concessionárias”, lembra, dizendo que o trabalho com a rede tem consumido a maior parte de seu tempo.
Outro foco é a expansão das exportações. “Quando cheguei aqui há quase três anos a Toyota do Brasil só exportava para a Argentina. Hoje já mandamos carros também para o Paraguai e Uruguai, mas precisamos aumentar essas opções, especialmente para outros países da América Latina, África e Oriente Médio”, diz o executivo. “Infelizmente, ainda é caro produzir aqui e não conseguimos fabricar um Corolla mais barato do que o produzido nos Estados Unidos, que exporta o carro feito na fábrica do Mississipi para a maioria dos países latino-americanos. De 40 países da região só conseguimos mandar o nosso Corolla para a Argentina”, lamenta. No entanto, o modelo feito nos EUA é mais simples que o brasileiro.
Em 2015 a Toyota bateu recorde de produção no Brasil, com 160 mil unidades produzidas em suas duas fábricas ambas no interior paulista, em Sorocaba, onde são feitos os Etios sedã e hatch, e Idaiatuba, que monta o sedã médio Corolla. A linha é complementada pela picape Hilux e seu derivado utilitário esportivo SW4, vindos da Argentina, e por poucos carros importados do Japão, caso do Camry, RAV4 e o híbrido Prius. Apesar da queda das vendas de 10% em 2015, com essa oferta a Toyota emplacou 175,8 mil carros e conseguiu ganhar mais de um ponto porcentual de participação de mercado, saltando para quase 7%. E no primeiro trimestre de 2016 o índice aumentou substancialmente para 8,6%, colocando a marca na quinta posição do ranking das mais vendidas no País, ultrapassando a Ford e Renault.
“Estamos no caminho certo do crescimento sustentável, estamos dentro das metas este ano, mas temos de ir além. O mercado está difícil em 2016, não deve ultrapassar 2 milhões de unidades. Por isso precisamos explorar novas oportunidades em nossa cadeia de valor, ajudar nossos fornecedores, reduzir custos e fortalecer os laços com os concessionários”, diz Koji Kondo, presidente da Toyota Brasil.
Ele acrescenta que a fabricante está pronta para crescer mais quando o mercado se recuperar: “Terminamos os investimentos (de R$ 100 milhões anunciados no começo de 2015) para ampliar a capacidade de produção (de 74 mil para 108 mil unidades/ano) e flexibilizar a fábrica de Sorocaba. Também estamos inaugurando a planta de motores de Porto Feliz. Também estamos investindo Np novo centro de pesquisa e desenvolvimento em São Bernardo do Campo, um passo importante para tornar a operação brasileira mais independente da matriz. Estamos preparados para crescer”, afirma Kondo.
No momento, ele descarta a possibilidade de desenvolver algum SUV compacto como fizeram outras montadoras, para explorar um dos poucos segmentos que ainda crescem no Brasil. “A maneira mais fácil de crescer e fazer mais produtos sobre uma mesma plataforma. Mas isso exige recursos e o mercado está muito fraco para investir agora. Vamos esperar”, diz.
Esta semana Kondo viaja ao Japão para mostrar o andamento dos processos e as possibilidades futuras do País. Tanto ele como St. Angelo esperam contar, mais uma vez, com a paciência oriental da direção da Toyota.