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Trocar Fit pelo City hatch é o maior risco que Honda já correu no Brasil

Honda e Toyota, as duas fabricantes japonesas mais bem estabelecidas no Brasil, são conhecidas por terem ambas uma abordagem extremamente conservadora. Suas decisões são geralmente baseadas em anos de estudos e análises, e quase sempre são tomadas com boa margem de segurança. Por isso mesmo, quase sempre acabam se mostrando certeiras.
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12 nov 2021

4 minutos de leitura

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Como se diz na gíria popular, as duas empresas não costumam dar ponto sem nó ou correr riscos desnecessários. Afinal, é justamente a confiabilidade o que marca suas operações no país e suas relações com os consumidores. 


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A Toyota, por exemplo, levou anos para ingressar na produção nacional de SUVs, mas o fez com uma margem de segurança incrível ao aproveitar o renome do Corolla. E ainda tomando o cuidado para não fazer o Corolla Cross matar o irmão sedã, pelo menos não tão rapidamente.

Já a Honda vem fazendo questão de deixar concessionários e clientes muito bem avisados de que o Civic deixará de ser nacional, sim, mas não será tirado de linha: seguirá no catálogo como importado e tudo indica que será em uma inédita configuração híbrida, que chegará junto à 11ª geração do modelo.

É por isso que a decisão, da mesma Honda, de matar abruptamente o Fit, um modelo bem estabelecido no país há bons 18 anos e três gerações, e trocá-lo pelo City hatch, causa certo espanto e se mostra deveras arriscada. A substituição faz muito sentido do ponto de vista produtivo, mas possui muitas nuances plúmbeas.

Problemas à vista

O Fit, conhecido em outros países como Jazz, é um produto global que seguirá presente em outros cantos do planeta, mas se tornou muito caro para os padrões brasileiros. Já a família da nova geração do City foi pensada desde o início para atender países emergentes, a partir de uma versão simplificada da nova plataforma de compactos da marca.

Além disso, enquanto Fit e City antigos compartilhavam base e mecânica, mas dispunham de carrocerias completamente distintas, os novos City sedã e hatch serão praticamente o mesmo carro da ponta do nariz até a coluna C. Apenas os balanços traseiros mudarão entre eles.

Não é difícil imaginar o quanto a fabricante economizará e ganhará em eficiência ao compartilhar portas laterais (as quatro), vidros, capô, faróis, grade, para-lamas dianteiros, para-choque frontal, teto, suspensões e, claro, o trem de força entre os dois modelos.

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O WR-V deve herdar os compradores do Fit. E como ficará o City hatch?

Só que as características do City hatch, um carro mais baixo e largo, com aspecto esportivo, conflitam de modo substancial com aquelas que ajudaram a formar a trajetória de sucesso do Fit ao longo de quase duas décadas. Foi a posição de dirigir mais alta, a visibilidade privilegiada e a pegada familiar os aspectos que mais diferenciaram o monovolume no mercado.

Por mais que a Honda tente criar elos entre os dois modelos – por exemplo, o City hatch herdará os bancos modulares do Fit –, certamente haverá clientes que cogitariam comprar o monovolume e torcerão o nariz para um hatchback. 

Segmento de hatches está definhando no Brasil

Talvez estes prefiram o WR-V, que preserva tudo que o Fit tinha a oferecer e seguirá em linha por mais algum tempo, só que custando mais caro do que o irmão. Aí, a Honda ganharia duas vezes: usaria o WR-V para manter os consumidores potenciais do Fit e ainda ganharia outros, com um perfil de compra distintos, com o City hatch.

Só que temos outro problema: o segmento de hatches está definhando no Brasil. Tanto que a Honda será a primeira montadora de peso no mercado a apresentar um novo produto voltado a esse nicho desde a Peugeot, mais de um ano atrás, com o 208. E sabemos as grandes dificuldades que a marca francesa teve com ele nos primeiros meses.

A seu favor, os japoneses têm a excepcional reputação e uma clientela tão fiel que pode bem assimilar as qualidades do City hatch e acolhê-lo como se fosse mesmo um novo Fit. Talvez seja isso o que mais esteja sustentando essa aposta surpreendentemente arriscada de uma marca que sempre foi tão cautelosa.

Leonardo Felix é jornalista especializado na área automobilística há 10 anos. Com passagens por UOL Carros, Quatro Rodas e, agora, como editor-chefe da Mobiauto, adora analisar e apurar os movimentos das fabricantes instaladas no país para antecipar tendências e futuros lançamentos.

*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business