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Um mundo sem motorista

Um mundo sem motorista
Como ficará o mercado quando não precisarmos dirigir?
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Redação AB

14 jan 2015

9 minutos de leitura

Talvez tenha sido por inspiração dos livros de Isaac Asimov, ou vendo os desenhos dos Jetsons, ou ao assistir ao famoso filme Blade Runner que Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, tiveram a visão e a ousadia de iniciar em 2009 o projeto de um carro autônomo (Driverless Car), ou seja, um automóvel que se dirige sozinho, dispensando a ação do motorista. O que na época parecia uma ideia meio esquisita, chocante e fantasiosa transformou-se em realidade e hoje representa uma das maiores frentes de investimentos de todas as marcas automotivas do mundo.

Algumas perguntas pipocam automaticamente quando pensamos que essa ideia poderá tornar-se realidade. Os consumidores vão querer deixar de dirigir? Os carros serão aptos a rodar de forma autônoma na cidade? O que o Google quer com isso? Qual o impacto dessa inovação no mercado automotivo caso grande parcela dos consumidores realmente decida aderir à novidade?

Pensando primeiramente no produto, os carros do Google não terão volante, pedal do acelerador ou do freio. Terão sensores que podem detectar objetos a centenas de metros em todas as direções. Os veículos de dois lugares terão apenas itens de conforto básicos: um espaço para pertences, os botões para dar partida e parar e uma tela que mostra a rota que o veículo está fazendo.

Além do gigante de tecnologia, as montadoras também trabalham nos próprios projetos. Algumas delas, em especial Mercedes-Benz, Volvo, Audi e Nissan, parecem estar bem posicionadas, em relação às demais marcas, para o lançamento de seus veículos autônomos. A Volvo, por exemplo, está com um projeto de implantar 100 carros totalmente autônomos na cidade sueca de Gotemburgo em 2017. Esse plano é desenvolvido em parceria com o governo local e exigirá mapeamento e gerenciamento cuidadoso da cidade e da tecnologia automotiva embutida nos carros.

A evolução dessa tecnologia tem provocado alguns institutos e órgãos, como a Rand Corporation, a pesquisar os impactos nas políticas governamentais que os automóveis autônomos terão nas cidades metropolitanas (veja aqui).

Outro exemplo recentíssimo é a Mercedes, que levou para a CES 2015 o projeto F015. Um carro capaz de rodar sem grande interferência do motorista. Veja mais aqui.

O lançamento está previsto para 2020. A Audi, por sua vez, lotou o Autódromo de Hockenheim e fez o seu site sair do ar com tantos interessados em assistir on-line ao evento para apresentação de seu RS7 autônomo. Veja aqui. Segundo a empresa, o objetivo é introduzir um modelo autônomo no mercado já neste ano.

Em 2016, a GM promete uma versão “Super Cruise” nos Cadillac. Em 2017, Google e Volvo prometem lançar seus carros 100% autônomos. A Nissan, em 2018. Muitos especialistas preveem que entre 2026 e 2035, ou seja, daqui a 10 a 20 anos, os carros autônomos serão um padrão na indústria.

Naturalmente, sempre haverá aqueles nichos de carros esportivos ou desenhados para segmentos de clientes que gostam de dirigir. Mas será que o mercado em geral irá realmente adotar essa inovação? Quais possíveis impactos podemos prever para a indústria, para o mercado e para a distribuição?

Uma pesquisa recente da Universidade de Michigan mostra que 62% dos australianos estão inclinados a aderir aos veículos automatizados – em comparação a 52% das pessoas no Reino Unido e 56% nos Estados Unidos. Assim, acredita-se que a adesão à tecnologia seja crescente à medida que a inovação for adotada e receios iniciais, superados.

Pelo tempo perdido no trânsito nas grandes metrópoles mundiais, pode-se estimar que uma grande parcela de consumidores irá realmente querer adotar esse novo meio de transporte. Segundo a Distractify, um americano médio passa cerca de 4,3 anos de sua vida dirigindo. Nas capitais brasileiras, um carro autônomo poderia economizar facilmente de duas a quatro horas diárias de grande parcela das pessoas que dirigem nos horários de pico.

Carros autônomos também tendem a aumentar a mobilidade de jovens, idosos e de pessoas com deficiência. A novidade deve também impactar fortemente o setor de transportes, dado que os caminhões poderão rodar por períodos mais longos.

O interior dos carros está sendo desenhado para absorver os diversos interesses e necessidades dos clientes. Também não podemos esquecer que o carro autônomo será também altamente conectado. Serviços e facilidades hoje disponíveis somente em tablets e smartphones estarão totalmente integrados e disponíveis dentro do veículo.

Segundo a Carinsurance.com, caso tivessem um carro autônomo, 26% dos americanos ocupariam o tempo de viagem nas redes sociais, 21% com leituras, 7% com videogames, 7% trabalhando, 10% dormindo, 8% assistindo a filmes e cerca de 21% apreciando o cenário do trajeto.

Enfim, a tecnologia está nos seus ajustes finais, a legislação está sendo preparada e há sinais fortes de que a adoção dos clientes será intensa. Portanto, temos fortíssimos indícios de que, em pouco tempo, essa realidade invadirá o mercado e transformará as nossas vidas.

Além disso, haverá pelo menos um novo grande player no mercado: o Google. Sua entrada no setor pode se caracterizar como uma simples brincadeira ou ser realmente uma das maiores ameaças que a indústria já enfrentou. O que não falta para a companhia são recursos e acesso ao mercado consumidor. Ao apresentar um protótipo totalmente elétrico e com total autonomia, em maio de 2014, o Google também deixou claro que está atuando de maneira séria para se tornar um player de mobilidade individual e tem realmente a intenção de colher os frutos do seu investimento neste projeto.

Certamente, aos olhos da indústria, essa aventura da empresa não passa de uma diversão e não representará grandes ameaças, dada a suposta falta de experiência da companhia em projetar, produzir e vender carros. É verdade. Mas a intenção do Google não é jogar dentro do campo das montadoras. Sua intenção é mudar as regras do jogo. A organização quer oferecer serviços de mobilidade, não vender carros. Ao oferecer esses serviços com carros autônomos e tecnologia embarcada a preços convidativos, certamente haverá impacto forte no tamanho do mercado automotivo tradicional.

Com estas cartas na mesa, quais cenários podemos projetar para o setor, mercado e distribuição? Seguem alguns insights, frutos de pura reflexão sobre esses fatos. Como em economia, quaisquer previsões são repletas de incertezas, mas de alguma forma ajudam a guiar as ações das pessoas e empresas.

Foco no produto vira foco em soluções e serviços

Com a hipótese de que, em 20 anos, o carro autônomo seja realmente um padrão de mercado, o setor automotivo precisará mudar sua proposta de valor, normalmente baseada na experiência de condução e dirigibilidade dos produtos. Será preciso entregar valor na experiência e soluções em mobilidade. O que importará se o automóvel tiver 350 cavalos ou torque de 120 kgf.m a 2 mil rpm se o cliente não estiver efetivamente dirigindo? Se o seu foco agora está no que ele pode fazer dentro do carro, o cliente estará interessado em como poderá aproveitar melhor seu tempo – lazer, trabalho, entretenimento etc.

Com isso pode-se esperar uma grande revolução nos automóveis, em seu design exterior e interior e oferta de equipamentos. Novos fornecedores, soluções e tecnologias irão fervilhar em uma revolução no setor análoga a causada pela chegada internet.

O portfólio de produtos da montadora poderá ser desenvolvido para prover um menu ou serviço completo de mobilidade ao cliente, para suas diversas situações. O cliente, ao invés de comprar um carro, comprará o serviço de mobilidade com várias alternativas e níveis de atendimento – mais ou menos luxuoso, com mais ou menos opções de carros, etc.

Com o foco das montadoras orientado mais para a experiência dentro do carro, enquanto o cliente deixa a tecnologia o levar, a responsabilidade da fabricante também aumenta. Se é o carro que dirige, em caso de colisão a responsabilidade também deixa de ser do cliente. Assim, a montadora deverá refletir sobre os custos e riscos de seus carros. Empresas de seguros e a legislação de trânsito deverão adaptar-se.

Novos modelos de negócio e serviços em mobilidade

Novos modelos de negócio baseados na mobilidade já estão sendo criados. A Zazcar aqui no Brasil é o perfeito exemplo de carsharing que está se espalhando pelo mundo. Com a introdução do carro autônomo, podemos esperar a criação de várias novas soluções e negócios em torno da mobilidade. Empresas de aluguel de carro terão de repensar totalmente o seu negócio. Uma boa parcela de taxistas deverá buscar novos empregos.

Empresas que posicionaram seus negócios estrategicamente pela localização e visibilidade do motorista deverão rever sua forma de comunicação, já que cliente não estará mais observando o trânsito. Captar sua atenção no momento do transporte será um dos focos de oportunidade que se abrirá.

Varejo sobre rodas deverá ser uma tendência. Minilojas sobre quatro rodas, que poderão expor e vender produtos tais como roupas, lanches, bebidas, ou seja, toda a sorte de artigos de compra por impulso e de consumo rápido.

Outro flanco de oportunidade será a oferta de serviços de leva e traz monitorados para atender jovens, idosos e deficientes. Profissionais liberais poderão trabalhar dentro dos carros e oferecer mobilidade enquanto atendem. Por exemplo, você poderá ter uma aula de violão enquanto vai ao trabalho, ou ser atendido pelo seu massagista ou terapeuta.

Empresas e condomínios poderão ter a própria frota de carros autônomos, porém menor do que a atual, ou ter contratos com empresas como a Google para propiciar serviços de leva e traz.

Novo modelo de distribuição

Com carros autônomos, por que o cliente deverá comparecer à concessionária para comprar o veículo? Neste mundo tecnológico, a compra pela internet não é obstáculo, provavelmente é até uma preferência. Assim, por que não receber o carro em casa? Precisar ir à oficina fazer revisão? Por favor, não. Que o carro vá e volte sozinho! Se estiver quebrado, que venha uma carreta autônoma! Ah, nada como não ter mais experiências negativas em oficinas.

Se o cliente não necessitará mais da rede autorizada nem para comprar nem para manutenção do seu veículo, qual será o papel da rede? Deixará de existir? Provavelmente não, mas qual será o elemento fundamental de agregação de valor que irá prover? Ficará restrita à captação de carros usados e a venda de carros de nicho? Servirá como pool para as soluções de mobilidade? Com a mudança de seu papel, certamente estrutura, competências e processos, que hoje estão presentes, deixarão de existir para dar lugar a novos modelos.

Como podemos ver, a chegada do carro autônomo trará mudanças oceânicas em toda a cadeia automotiva, desde os fornecedores, montadoras, concessionárias e até nas empresas que têm o transporte como peça fundamental do seu negócio, como taxistas e transportadoras.

Oportunidades, ameaças e inúmeras novas possibilidades irão fervilhar brevemente. Será emocionante viver e acompanhar essa revolução nas próximas décadas. Assim, convido o leitor a compartilhar suas ideias e impressões sobre este futuro que está logo ali, virando a esquina. Ouvir mais e mais profissionais ajuda a criar estes cenários e a nos preparar melhor para este maravilhoso mundo novo que vem por aí.