
O motor 1.8 e.TorQ Evo bicombustível etanol-gasolina que equipa o Jeep Renegade brasileiro é produzido pela Fiat desde 2010 em Campo Largo (PR) e já equipa os modelos Punto, Linea e Bravo no País. Curiosamente, trata-se de um projeto Chrysler, grupo ao qual pertence a marca Jeep. A fábrica paranaense e seus projetos foram comprados pelo grupo italiano em 2008 da Tritec, uma associação extinta da BMW com a também extinta DaimlerChrysler, que até 2007 fazia motores para modelos Chrysler e Mini. Muitos anos mais tarde, o antigo motor volta a se encontrar com seu criador original em um dos primeiros carros da FCA, empresa formada no ano passado após a formalização da compra do Grupo Chrysler pela Fiat.
Na prática, porém, o reencontro não é dos mais felizes. Apesar do retrabalho feito no motor 1.8 para elevar levemente em 0,2 kgfm o torque a 18,6 com gasolina e 19,3 com etanol (a potência ficou inalterada em 130 e 132 cv, respectivamente), ainda não foi suficiente para tornar a condução do Renegade mais prazerosa. Com a transmissão automática de seis velocidades, o carro ficou xoxo, demora a reagir ao acelerador. Quem dirigiu o Renegade com câmbio manual de cinco marchas relatou performance melhor.
Enfim, o desempenho do Renegade flex não é dos melhores, embora para uso urbano seja suficiente. Para coisa melhor do que isso um turbocompressor cairia bem, podendo até reduzir a capacidade volumétrica do motor para 1,6 litro com ganhos de potência e consumo. O consolo é que a FCA fez coisa pior na Europa, onde vende o carro com motor e.TorQ a gasolina 1.6 de 110 cavalos. Em compensação, não cometeu o mesmo atrevimento dos Estados Unidos, onde existe motorização 2.5.
Mas a pergunta que fica é: Para que ter um carro com visual e apelo esportivo fora-de-estrada se na verdade ele não serve para isso? No caso, as versões 1.8 de R$ 69,9 mil a R$ 80.900 ficam caras quando comparadas ao também recém-lançado concorrente SUV urbano compacto Honda HR-V, com maior espaço interno para a família, motor mais eficiente e potente (1.8 flex de 139 cv) e preços parecidos, de R$ 69,9 mil a R$ 88,7 mil (leia aqui).
OUTRO MUNDO MAIS CARO

Em termos de desempenho, tudo muda de figura a bordo do Renegade turbodiesel 2.0 de 170 cavalos e expressivo torque de 35,7 kgfm. O motor, importado pela Fiat da Itália, tem injeção common rail da Bosch e está disponível somente com a moderna transmissão automática de nove velocidades, fornecida pela ZF da Alemanha, que foi lançada há cerca de dois anos e equipa modelos bem mais sofisticados como o Jeep Cherokee e o Land Rover Range Rover.
Mas a sofisticação do powertrain cobra seu preço. No caso, são R$ 30 mil a mais na comparação com a versão flex mais barata. O Renegade Sport turbodiesel parte de quase R$ 100 mil, chega a R$ 116,9 mil no topo de linha Trailhawk e ultrapassa facilmente os R$ 120 mil com a instalação de alguns opcionais (leia aqui). Se a opção flex pode ser considerada cara porque falta desempenho, na diesel isso também é verdade porque sobra performance.
Todas as três versões diesel do Renegade (Sport, Longitude e Trailhawk, nesta ordem de sofisticação) são 4×4 – condição necessária para atender a legislação brasileira, que só permite o uso de motorização diesel em veículos leves com tração nas quatro rodas e reduzida. Tudo é controlado eletronicamente. A redução com bloqueio de diferencial é acionada com um simples toque de botão, assim como é possível selecionar no sistema Jeep Select-Terrain, já presente em seus irmãos maiores como o Cherokee, quatro opções de tracionamento, dependendo do tipo de terreno: automática, lama, areia, neve e pedras. Para descidas em terrenos muito íngremes e acidentados, basta ligar o assistente eletrônico de rampa, que controla os freios e faz o carro descer o morro suavemente, sem que o motorista precise pisar nos pedais.
A grande capacidade fora-de-estrada do Renegade turbodiesel faz jus ao legado da Jeep, marca que se notabilizou justamente por essa qualidade, mas o desempenho on-road também não fica devendo. Na estrada ou no trânsito da cidade o SUV é bastante confortável de dirigir. As acelerações e retomadas são rápidas e o carro ultrapassa a barreira dos 100 km/h em menos de 10 segundos. Graças ao esticado câmbio de nove marchas, em velocidade constante o motor tem giro baixo, em torno de 1.000 rpm, o que garante economia de combustível nessas condições. Rodando por uma rodovia bastante travada entre Niterói e Maricá, próximo do Rio de Janeiro, o marcador instantâneo de consumo mostrou entre 11 e 12 km/l.
QUALIDADES COMPARTILHADAS

Se tem desempenho muito diferente entre suas duas motorizações, ao menos o Renegade compartilha boas qualidades em todas as três versões, a começar pelo acabamento interno acima da média nacional (o que não precisa de muito para superar, diga-se), com revestimentos emborrachados e volante envolto em couro sintético. O painel de instrumentos (fornecido pela Magneti Marelli) é moderno e apresenta boa visualização, com tela LCD configurável entre o velocímetro e conta-giros – pode ser colorida de 7 polegadas como opcional e de série na Trailhawk. São de série desde a opção mais barata os confortos básicos como ar-condicionado, direção assistida elétrica, sistema de som com conexão Bluetooth para celular e acionamento elétrico de travas, retrovisores e vidros. O freio de estacionamento também é elétrico e destrava ou trava automaticamente.
O controle eletrônico de estabilidade ESC de série em todas as versões é outro ponto a favor do Renegade, algo fundamental para garantir a segurança em SUVs, que têm suspensão elevada e centro de gravidade mais alto. A boa dirigibilidade é assegurada pela direção elétrica com correção de rumo em caso de movimentos bruscos, além da suspensão independente na dianteira e traseira, o que torna a condução precisa e estável.
O sistema multimídia com tela sensível ao toque e navegação por GPS está disponível para qualquer Jeep Renegade, como opcional na versão Sport e de série para a intermediária Longitude e top Trailhawk. Essa é uma vantagem importante em relação ao Honda HR-V, que só traz navegador na opção mais cara e não oferece nas outras nem como opcional.
Os dois Renegade, flex e diesel, são esteticamente parecidos, mas vão trafegar em mundos bem diferentes, de classes sociais distintas.
