A situação pode ser revertida por um fator novo: a legislação que facilita para os bancos a retomada de carros de clientes inadimplentes, aprovada em novembro do ano passado. A Fenabrave não considerou a influência da medida ao fazer as projeções, já que ainda não se sabe o real impacto da lei no mercado. Ainda assim, as expectativas são altas, com possibilidade de aumento da oferta de crédito com taxas de juros mais atrativas. “Estimamos que a medida possa gerar o equivalente a um mês adicional de vendas no ano, somando mais de 200 mil emplacamentos”, avalia Alarico Assumpção Jr., que assumiu a presidência da Fenabrave em 1º de janeiro.
A economista Tereza Maria Dias, diretora da MB Associados e responsável pelas projeções da Fenabrave, não indica qualquer otimismo para os próximos meses. “O PIB deve ter crescimento próximo de zero este ano e a redução do nível de consumo deve persistir”, analisa. Ainda assim, a especialista reconhece um sinal positivo no cenário econômico: a nomeação de Joaquim Levy para o ministério da Fazenda. “Esta medida elevou a confiança dos empresários, o que é essencial para que o País receba investimentos.”
DESAFIOS PARA 2015
O presidente da federação lembra que o mercado enfrentará em 2015 a volta da cobrança integral da alíquota do IPI. O governo oferecia desconto para o tributo desde 2012 como forma de incentivar as vendas, mas, desde o início deste ano o imposto que ficava entre 3% e 10% para automóveis passou a variar de 7% a 13%. Ainda assim, a Fenabrave indica que o setor trabalha com cerca de 44 dias de estoques de carros com as alíquotas antigas.
Passado o período de negociar estes modelos, Assumpção prevê que, ao absorverem o aumento da alíquota, os preços dos carros tenham alta média de 3,5% a 5% para o consumidor final, dependendo da estratégia de cada montadora. Tereza enfatiza que o aumento é pequeno, mas que tem potencial para gerar forte impacto em um ano como este, em que o consumidor tenta conter gastos.
Outra barreira às vendas em 2015 afeta os veículos pesados. As condições de financiamento pelo Finame PSI foram revistas e agora estão menos favoráveis com taxas de juros entre 9% e 10% e necessidade de dar entrada de 30% ou 50%, dependendo do tamanho da empresa (leia aqui). Apesar das mudanças, Assumpção entende que este não é o principal fator de influência das vendas. “O setor de caminhões depende do crescimento da economia”, salienta. Segundo ele, as condições ainda são interessantes, com taxas menores do que a Selic. O presidente da Fenabrave aponta que o crédito continuará acessível para os grandes frotistas. “Foi uma conquista importante estender o PSI.”
Os autônomos, no entanto, que respondem por entre 70% e 75% da frota brasileira de caminhões, devem continuar com dificuldade para acessar a linha subsidiada do BNDES. Assumpção acredita que a única saída para resolver esta situação é a aprovação de um programa nacional de renovação de frota. “A política está praticamente pronta, mas falta definir como será fomentada”, explica.
RESULTADOS DE 2014
O ano passado terminou com bom resultado em dezembro, quando foram negociados 353,8 mil veículos. A marca é a terceira melhor da história para o mês. Houve expansão de 25,6% sobre novembro e de 4,6% na comparação com igual período de 2013. O bom volume de negócios trouxe certo alívio para o resultado do ano, que terminou com mercado 7,1% menor. Foram emplacados 3,49 milhões de veículos de janeiro a dezembro de 2014.
A maior queda foi registrada entre os veículos pesados, de 11,6%. As vendas de caminhões sofreram baixa de 11,3%, com 137 mil unidades. O segmento de ônibus diminuiu 12,8%, para 32 mil chassis. Já a demanda por automóveis teve contração de 9,4% e chegou a 2,49 milhões de carros. Com 832,1 mil veículos, o segmento de comerciais leves foi o único a apresentar expansão, ainda que tímida, de 1,4%.
Assumpção admite que o cenário de queda fez a rede de distribuição se reestruturar para ficar adequada ao novo cenário. O número de concessionárias permanece estável em cerca de 8 mil casas, considerando novas marcas que estão chegando ao Brasil. Houve, no entanto, enxugamento do quadro de funcionários, segundo a Fenabrave. O setor emprega agora 409 mil pessoas. “Já estamos adaptados ao cenários menor, portanto não prevemos demissões para este ano”, garante o presidente da entidade.
