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Vendas e a Copa do Mundo

A lógica propagada pelos apoiadores de um evento do porte da Copa do Mundo é a de que existem várias maneiras de o evento beneficiar a economia do país anfitrião. A maior expectativa é que a exposição internacional de sediar o acontecimento esportivo irá levar ao aumento do turismo e a um maior crescimento econômico para os próximos anos.
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Redação AB

24 fev 2014

6 minutos de leitura

Antes da Copa há projetos de melhorias financiados publicamente e que são realizados para preparar o País para o influxo dos jogos. Entre os exemplos estão estádios novos ou reformados, construção de estradas, melhorias nos aeroportos, entre outros. Muitos daqueles projetos de infraestrutura que estavam engavetados pelo governo são então priorizados para o País não “fazer feio” perante os turistas e a mídia internacional. Empresas privadas podem também trabalhar para expandir sua capacidade antes da Copa do Mundo, com, por exemplo, o aumento do número de quartos de hotel para os visitantes, ou a expansão ou renovação da frota de veículos para locação.

Copa do Mundo

Entretanto, um olhar sobre a experiência histórica dos países-sede da Copa do Mundo revela que, ao contrário do que muitos pensam, a média de crescimento econômico é menor no ano da realização do evento do que nos anos anteriores.

Há uma série de motivos para isso. Vários setores que com potencial para receber investimentos deixam de ser prioridade, dado que o governo não tem como gastar em tudo. Além disso, esta maquiagem para que o Brasil mantenha uma boa imagem no exterior não sai de graça. Há diversos custos associados com a entrada de pessoas no País. Um exemplo é o investimento necessário para garantir proteção e segurança para os 32 times e seus fãs. Um gasto pontual e que não agrega nada ao país, drenando receitas do governo que poderiam ser mais bem utilizadas.

Com o receio do governo de haver manifestações, arruaças ou ainda ataques terroristas, impactando a imagem do país durante o evento (ainda mais em um ano eleitoral), este custo tende a ser bastante alto.

Dennis Coates, professor de economia na Universidade de Maryland, afirma que o turismo não aumenta drasticamente com grandes eventos como a Copa do Mundo. Isso porque, enquanto os países-sede são visitados por milhares de fãs de futebol, eles também perdem turistas regulares que querem evitar as multidões e os preços elevados em hotéis e restaurantes que são gerados por esse tipo de evento.

Coates também observa que em 2006, as receitas de turismo na Alemanha, país-sede da Copa naquele ano, foram apenas 60 milhões de euros, maior do que em 2005. Este é um valor irrisório se você considerar que o país gastou mais de $ 1 bilhão apenas em estádios. Outro exemplo é a Coreia, país que coorganizou a Copa do Mundo de 2002 com o Japão, que recebeu no ano do evento número de visitantes estrangeiros quase idêntico ao do mesmo período de 2001.

Bom, quando se trata de Brasil, é inevitável falar do custo extra geralmente envolvido em obras faraônicas e orçamentos que escapam de qualquer controle. Se fosse só este custo, estava bom. O fato de os países-sede terem sua economia contida deve-se também ao fato de que a hospedagem de uma Copa do Mundo pode colocar um amortecedor sobre a atividade econômica real: seus cidadãos tiram folga do trabalho para assistir aos 64 jogos ou fecham as portas dos seus negócios. Dias de jogos são considerados feriados na cidade para evitar o trânsito demasiado. Enfim, a distração futebolística atrapalha o ritmo dos negócios, interrompe o ir e vir das pessoas ao trabalho e entre as cidades brasileiras, já que os valores de hotéis e passagens sobem significativamente.

Com este panorama sombrio, resta saber aqui para nós, o impacto dentro do setor automotivo. Na Copa do Mundo da África do Sul, contrariando tudo o que está escrito acima, o setor automobilístico aumentou em 21% suas vendas na comparação com o ano anterior. Uau! Será uma luz no fim do túnel? Infelizmente não. Numa análise mais cautelosa devemos reparar que aquela Copa (2010) aconteceu um ano após a grande crise global de 2008/2009. Assim, este crescimento foi mais em função de uma recuperação natural do mercado do que um efeito deste tão esperado evento.

Porém, um segmento que cresceu efetivamente durante o ano da Copa na África foi o de locação de veículos. Houve uma corrida para garantir que todas as reservas de aluguel de automóveis fossem feitas em tempo hábil, para evitar decepções dos turistas na chegada ao país. Os visitantes que planejaram desfrutar da África do Sul, antes ou depois dos jogos de futebol, foram bem aconselhados para garantir suas reservas antes de aterrissarem na terra do hoje falecido Nelson Mandela. Os turistas foram ainda alertados que o transporte público não era confiável e seguro. Com isso, a locação cresceu em torno de 30% naquele ano.

Experiências de aumento neste segmento também são vistas em outros eventos do mesmo porte. Empresas de aluguel de automóveis na Nova Zelândia relataram um aumento nos negócios de cerca de 30%, como resultado da Copa do Mundo de Rugby em 2011. Tendo os maiores aumentos ocorridos nas locadoras do aeroporto em Auckland.

Há quem diga que o potencial comprador do carro se distrai com o evento esportivo em junho e julho, porém vai comprar o seu carro após a Copa terminar. Nem sempre. Estatísticas mostram que a indústria não repõe a diferença da queda nas vendas após a Copa, indicando que este evento realmente tem um impacto negativo sobre a indústria automotiva.

O que pode ser feito? Bom, promoções com apelos da Copa irão invadir o país em todas as categorias de consumo, não é por este caminho que será possível conseguir algum destaque. Não tem jeito, o Brasil será mais do que nunca o país do futebol. É possível aproveitar os meses que antecedem a Copa para estreitar relacionamentos com as locadoras menores, estabelecer relações com os hotéis nas cidades-sede dos times, uma vez que as torcidas normalmente acompanham os times de seu país, promover pacotes especiais para cooperativas de táxi e aproveitar o tempo perdido para arrumar a casa e capacitar o seu pessoal. No segundo semestre o melhor é correr para tentar tirar o atraso.

Assim, a Copa do Mundo no Brasil é mais bem entendida como uma série de transferências financeiras: dos contribuintes brasileiros para a FIFA, para os clubes de futebol brasileiros, que se beneficiam com novos estádios e com o marketing para o futebol, para as empresas de construção e, finalmente, para administradores corruptos que tiram proveito da oportunidade de realizar obras faraônicas executadas em carácter de emergência. Neste sentido o setor automotivo, com exceção das locadoras, ficou de fora. Boa Copa a todos!