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Por isso, resolvi encarar uma viagem de carro elétrico para tirar a prova. Nada muito ambicioso: um passeio de São Paulo à Bertioga, no litoral paulista, a 126 quilômetros da capital. Por lá, participaria de uma maratona de revezamento na praia no sábado e o plano era um fim de semana para esbanjar saúde e zero emissão no deslocamento.
O companheiro de viagem, além do meu marido, foi o Mini Cooper S E, o primeiro elétrico da marca que, segundo a fabricante, tem 234 quilômetros de autonomia (na teoria).
Antes mesmo de entrar no modelo, eu já tinha uma memória afetiva com ele: nos idos de 2012, um dos primeiros carros elétricos que dirigi foi justamente o protótipo de um Mini Cooper com a tecnologia. Lembro de ter achado uma das minhas melhores experiências ao volante até então.
Corta para 2022 e eu vou encarar a viagem com o modelo que chegou ao mercado brasileiro em 2021 equipado com motor elétrico de 184 cv de potência e 27,5 kgfm de torque. A promessa é sair do zero para os 100 km/h em 7,3 segundos e o preço da brincadeira parte de R$ 249.990 nas concessionárias.
Com todos esses predicados, o meu passeio oscilou entre momentos de euforia ao volante e crises de ansiedade atrás de um ponto de recarga. Toda a bipolaridade que só um verdadeiro perrengue chique carrega.
Recentemente, meu colega Fernando Miragaya, editor de soluções de conteúdo da Automotive Business, contou em uma excelente matéria sobre como é ter e viajar em um carro elétrico. Aqui, em complemento a ele, organizo a minha experiência em uma lista dos 6 aprendizados dessa jornada:
1- O carro elétrico vai ser protagonista da viagem
Sim, carros elétricos são aparecidos. Mais do que um meio de transporte, no Brasil de 2022 onde a infraestrutura de recarga ainda engatinha (assim como as vendas de veículos elétricos), você vai investir muito tempo da viagem pensando no automóvel e em como reabastecê-lo. Meu instituto de pesquisa subjetivo garante: o veículo (e a recarga dele) protagonizou pelo menos 50% das conversas que tive com o meu marido ao longo da viagem.
No caso do Mini Cooper S E, a autonomia da bateria na vida real não passou de 185 quilômetros. Depois da carga cheia, era essa distância potencial que o painel indicava – 20,1% menor do que a anunciada pela fabricante.
Outro ponto é que rodar dentro da cidade, no anda e para dos semáforos, é a melhor receita para tirar proveito de uma carga na bateria. Nesse contexto, o carro usa e abusa da frenagem regenerativa, que recupera energia. Por isso, descer a serra para a praia foi muito mais tranquilo do que subir, porque o alcance aumentou com as frenagens, enquanto na subida, a queda rápida da autonomia exigiu coração forte dessa condutora.
Vale dizer que, apesar de ainda ser um desafio, a autonomia dos carros elétricos vem crescendo. O Renault Kwid E-tech, modelo com a tecnologia mais barato à venda no Brasil, promete até 298 km com uma carga; o Nissan Leaf, 378 km. Há ainda uma leva de modelos premium com baterias que têm capacidade para fazer inveja a qualquer carro a combustão, como o Audi E-tron (quase 500 km) e BMW iX, o automóvel com maior autonomia do mercado, de 630 km.
Infelizmente para mim, como a autonomia extensa não é um dos atributos do Mini Cooper S E, a preocupação com recarga foi onipresente na viagem.
2- O carro elétrico é puro carisma
Se há algo inegável sobre um carro elétrico é o carisma. Principalmente quando se trata de um Mini Cooper. Como viajei para participar de uma maratona na praia, encontrei muitos amigos que treinam comigo por lá. Todo mundo com quem falei sobre o modelo demonstrou curiosidade. Quem viu, já pegou simpatia no carrinho.
Na rua, de um jeito um tanto contraintuitivo, o silêncio do Mini Cooper S E chama a atenção. As pessoas ficam instigadas ao ver um carro dar partida e entrar em movimento sem qualquer ruído do motor. Com isso, quem anda de veículo elétrico sempre tem assunto.
3- Ansiedade da bateria é um perrengue chique e real
Se você tem calafrios quando a bateria do seu celular cai abaixo de 15%, imagine ver a energia se esvair de um gadget de quase 1 tonelada e meia. É aflição na certa. O painel do Mini Cooper S mostra tanto o porcentual de carga disponível na bateria, quanto a autonomia em quilômetros. E haja coração quando esse número começa a diminuir rápido demais sem a proximidade de um ponto de recarga.
No meu caso, saí de São Paulo com a carga quase cheia e cheguei na noite de sexta-feira em Bertioga com 50 km restantes de autonomia. O carro vem com um adaptador que permite recarregar em tomada convencional, mas como a lei de Murphy rege o mundo, não existia tomada na garagem de onde fiquei hospedada.
Diante disso, o jeito foi ir atrás do único carregador público de carros elétricos da região, em um shopping na Riviera de São Lourenço. Mais um ponto para o carro protagonista da viagem: depois da minha corrida no sábado de manhã, passamos umas boas horas no shopping, no lugar de aproveitar a praia, para fazer a recarga. Não sem alguma emoção, que conto no próximo tópico.
4- O problema está na peça à frente do volante (ou do carregador): o motorista
Diante de imprudências no trânsito vale a máxima de que o maior problema de qualquer carro é a peça à frente do volante, o motorista. Os carros elétricos deram uma atualizada nesse conceito e descobri que o maior problema de fazer a recarga em locais públicos não é simplesmente a falta de carregadores, mas o comportamento egoísta de muitos donos de modelos elétricos.
Explico: lá na Riviera, chegamos no shopping para fazer a recarga com pífios 4 quilômetros de autonomia (só de pensar, minha mão já fica suada). Topamos com um Volvo C40 reabastecendo no único wallbox disponível. O jeito foi esperar e enrolar por ali, na expectativa de que o proprietário viesse buscar o carro em algum momento, já que a recarga pode durar até 3 horas.
Esperamos, esperamos e nada. Perguntamos a um segurança e descobrimos quem era o dono do carro. Ficamos sabendo também que ele costuma deixar o veículo naquela vaga todos os dias, o dia todo. Ou seja, carregador é público, mas sempre tem um espertinho que gosta de se apropriar.
No fim o proprietário apareceu, tirou o carro (a 100% da carga) e fez questão de demonstrar seu descontentamento pelo transtorno que causamos ao querer usar o carregador. Na volta, enfrentamos problema similar em uma loja Pão de Açúcar. Saímos da praia sem a recarga completa e a subida da serra foi cruel em consumo. Paramos em São Bernardo do Campo (SP) para abastecer no mercado e esperamos o dia todo para o proprietário de um Nissan Leaf ir buscar o carro que estava plugado no carregador há horas, abastecidíssimo
Como a pessoa não apareceu, arriscamos usar os 8 km restantes de autonomia para ir até um shopping próximo que oferecia recarga. Felizmente o movimento ousado deu certo e conseguimos carregar, mas a empatia nos pontos públicos de reabastecimento cairia bem.
5- Quando puder recarregar, não te demores
Se pude aprender algo sobre recarregar um carro elétrico durante uma viagem é: se tiver a chance, faça. Já contei que cheguei de viagem e parei em São Bernardo para abastecer, com a autonomia muito comprometida, conforme informava o próprio painel do carro.
Vale falar que, depois de sair de Bertioga, pensamos em desviar um pouco o caminho e passar por Guarujá para abastecer ao máximo e evitar qualquer perrengue. “Deixa para lá, vamos carregar em São Paulo.” No fim, vimos que a decisão não acabou bem.
No caso do carro elétrico, planejamento é a alma do negócio. Não dá para passar aperto. É preciso pensar em paradas, ter em mente que carregadores públicos podem estar ocupados ou em manutenção e reservar autonomia para ir atrás de alternativas.
Importante lembrar que o Mini Cooper S E, além do adaptador para tomadas comuns, vem com o wallbox, o carregador fixo, para que o proprietário instale em casa. Então no caso do uso para o dia a dia, sem viagens, fica tudo mais simples, basta carregar na própria garagem.
Já fora de casa, admito que grande parte do meu perrengue teria sido resolvido caso eu tivesse ido atrás de um lugar para me hospedar que oferecesse uma tomada comum na vaga de estacionamento. Era só plugar com o adaptador ao longo da noite e voilà: começaria o dia a 100% da carga.
6- Dirigir carro elétrico: gostoso demais
Se as minhas presepadas com a recarga te desestimularam a usar um carro elétrico, fica aqui uma palavra de incentivo: é bom demais dirigir modelos com a tecnologia. No caso do Mini Cooper S E, se o automóvel peca na autonomia, ele entrega na esportividade, com torque imediato, arrancadas fortes e estabilidade.
Os modelos com a tecnologia já são carismáticos e geram assunto por natureza, mas quem tem a chance de experimentar a condução certamente vai gostar de dividir suas impressões a respeito. Fora que há um certo aprendizado necessário ao volante para se acostumar com a frenagem regenerativa, as novas informações que ficam disponíveis no painel de instrumentos e os modos de condução. No caso do Mini Cooper S E, são quatro opções: Green+, Green, Mid e Sport.
A primeira, mais econômica, é para os momentos de escassez de carga e restringe até mesmo a opção de ligar o ar-condicionado do carro para economizar energia. Já a configuração Sport é para quem quer pisar mais fundo – nesse caso, não esqueça de garantir uma tomada para plugar o carro em seguida.
Giovanna Riato é editora executiva de Automotive Business.
*Este texto traz a opinião da autora e não expressa, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.