
O ano está corrido para a empresa israelense Mobileye, que nasceu como uma startup e hoje é o braço da Intel para tecnologias de direção autônoma. A empresa firmou seu espaço como fornecedora componentes e softwares essenciais para que esses veículos funcionem e agora planeja novos (e ambiciosos) passos. Após anunciar, em abril, a parceria com uma startup para a criação de vans elétricas autônomas, a empresa revelou em julho o início dos testes de sua frota de modelos sem motorista nas ruas de Nova York.
É o quinto território testado pela empresa. Antes dele, já vieram Jerusalém, em 2018, e Munique (Alemanha), Detroit (EUA), Xangai (China) e Tóquio (Japão) entre 2020 e 2021. A escolha por começar em Israel foi natural: além de ser o país nativo da Mobileye, é também um território onde já se estudam leis para o uso de carros autônomos.
Como parte do anúncio de Nova York, a Mobileye colocou no ar um vídeo de 40 minutos de seu carro dirigindo sozinho (mas com um motorista presente por segurança) pela cidade:
A empresa nasceu criando sistemas de direção assistida para veículos, os quais estão presentes hoje em 88 milhões de automóveis pelo mundo. Os sensores da empresa permitem que os carros mapeiem o entorno e “enxerguem” o que está à frente para tomar decisões.
As imagens geradas pelas câmeras dos carros equipados com a tecnologia serviram para criar os mapas de alta definição que estão sendo essenciais para sistemas de direção autônoma. São 8 milhões de quilômetros mapeados mundialmente todo dia. Em 2020, a Mobileye comprou o Moovit, app de mobilidade, também para servir ao novo projeto.
Mobileye revolutionized camera-based computer vision. Now we’re doing the same with the development of our own cutting-edge #radar and #LiDAR sensors. Read how: https://t.co/sHMxdXGYev
— Mobileye (@Mobileye) June 17, 2021
O plano com os carros autônomos não inclui apenas vender a tecnologia. A empresa que criar uma frota de robotáxis e colocá-la em operação comercial em Tel Aviv até 2025, mas o projeto já começa a operar como piloto no próximo ano. A meta é ambiciosa, mas, se considerarmos a rápida evolução dos negócios da empresa, tem tudo para se concretizar.
Em entrevista exclusiva ao Mobility Now, Johann Jungwirth, vice-presidente de mobilidade como serviço (MaaS) da Mobileye falou a respeito do futuro da empresa:
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Como vai ser a implementação dos robotáxis da Mobileye em Israel? |
Vamos ter cinco fases para trazer nossa tecnologia pro mercado. A primeira é a que chamamos de Testes AV, com um motorista de segurança e um copiloto habitando nossos veículos autônomos e viajando para qualquer lugar que escolherem no mapa delimitado. A segunda é o que chamamos de Testes MaaS, ou seja, de mobilidade como serviço. Nessa fase temos o teste do app para chamar o veículo. A terceira fase é o que chamamos de “programa de passageiro antecipado”, mas ainda com motorista de segurança. A quarta fase é o mesmo programa de passageiro antecipado, mas sem o motorista. Até esse ponto, a operação não é comercial e as viagens são gratuitas e apenas para convidados. E a quinta fase é a operação comercial.
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A fase um começa em 2022? A pandemia não afetou o cronograma? |
Não, eu diria até que nos motivou, porque a Covid-19 nos mostrou que os passageiros querem viajar sem motorista por medo de infecção. Durante a pandemia, conseguimos expandir o negócio para Munique e Detroit, começamos os testes lá. O nosso objetivo não mudou. Ainda estamos em dia para conseguir a primeira operação sem motorista em 2022 em Tel Aviv, confiantes de que iremos atingir essa meta.
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Mas já haverá operação comercial? |
Deixamos isso em aberto porque depende de regulamentação por parte do governo. Mas a gente espera que aconteça no final do ano que vem.

Além de fornecer tecnologias para que carros autônomos “enxerguem”, Mobileye vai operar suas próprias frotas de robotáxis
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Você acredita que carros autônomos são o futuro do ride-hailing? |
Ao longo dos próximos anos, veremos uma transição no ride-hailing, ride-pooling, ride-sharing de motoristas humanos para frotas autônomas. A velocidade dessa transição vai depender de legislações locais e alguns outros fatores, mas estou 100% convencido de que o transporte sustentável sob demanda só será realizável se usarmos veículos autônomos. |
E claro que há outro grande fator, que é a segurança. Por ano, temos 1,3 milhão de mortes nas estradas e esse é um fator que me motiva pessoalmente.
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Quando a operação comercial começar, quantos carros vocês terão? |
Isso vai depender de regulamentação. Sabemos que a legislação está andando. Temos um novo governo agora em Israel e esse tópico tem sido bastante comentado. Fico feliz em ver que o trabalho está progredindo. Esperamos ter no começo cerca de 100 veículos por operadora no país. E, no longo prazo, o mercado global potencial é de cerca de US$ 160 bilhões no campo dos robotáxis.
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Recentemente, a Mobileye passou a utilizar veículos da Nio em vez dos da Volkswagen na fase de testes. Por quê? |
A nossa colaboração com a Volks continua, eu tenho reuniões semanais com eles e estamos trabalhando nessa parte em paralelo. Você pode esperar ver os veículos da Volkswagen em Tel Aviv no ano que vem com a nossa tecnologia autônoma. Para nós, era importante estarmos prontos já em 2022 para tirar o motorista de segurança. Analisamos os prazos da plataforma da Volks com a qual estávamos trabalhando e decidimos ter uma segunda plataforma veicular que já estivesse pronta para a direção autônoma. Isso nos dá um acesso mais cedo aos veículos que podem operar sem motorista.
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Quais são os maiores desafios do projeto até o momento? |
Em primeiro lugar, os prazos da legislação e da regulamentação. Temos influência limitada sobre esse aspecto. Em segundo lugar, a validação e a verificação geral da nossa tecnologia. |
São coisas que levam tempo, mas ajudam a melhorar nosso MTBF (“mean time between failures” ou “tempo médio entre erros”) para alcançar os níveis de segurança exigidos. Basicamente, isso é trabalho que leva tempo e estamos no meio disso.
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Por que escolher Israel para começar a operação de robotáxis? |
Em primeiro lugar, porque é nosso país natal e fazer o desenvolvimento, a testagem e a validação aqui, nas nossas portas, é mais fácil e natural. Além disso, nós temos as condições perfeitas aqui em Tel Aviv. É um lugar muito aberto a testar novas formas de mobilidade, desde micro, como as e-scooters, até os VLTs.
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E quanto ao resto do mundo? |
Nós temos objetivos globais. Estamos nos EUA, na Alemanha, no Japão, na China. Sobre a América do Sul, nós não temos planos ainda, mas temos o Moovit como parte dos negócios da Mobileye e da família Intel.
E, para o Moovit, o Brasil é um mercado muito importante, então estamos de olho nele. Vamos acompanhar a evolução da legislação. A América do Sul não é tão longe da América do Norte. |
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Como a operação de vocês vai se destacar entre as outras iniciativas de carros autônomos atuais? |
Nós temos uma abordagem em três partes que chamamos de Trindade Mobileye. Uma é a RSS, a segurança de responsabilidade sensitiva, um modelo para segurança em nossas políticas, e isso nos ajudou a ir para várias cidades com as mesmas políticas. A segunda é o que chamamos de redundância verdadeira. Acho que somos a única empresa do mundo que está desenvolvendo a tecnologia autônoma em dois subsistemas independentes, um baseado em câmeras, outro baseado em radares e lidares.
Qualquer um deles sozinho consegue executar a direção autônoma. Mas, para atingir maior MTBF, temos dois. E o terceiro item é o mapeamento autônomo, que é o nosso core business no momento e é o que nos permitiu criar os mapas 3D para nossos veículos autônomos. Essa é a nossa vantagem competitiva em relação às outras empresas. Nós não temos que criar os mapas do zero quando chegamos a uma nova cidade.
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A operação de vocês vai depender da infraestrutura 5G? |
Não. Para nós, é importante que nossos carros autônomos não dependam de infraestrutura, nem de 5G nem de qualquer conexão com a internet. Nossos veículos conseguem dirigir com 3G, 4G, 5G ou nenhum G. Há muitas áreas em que há túneis, edifícios altos, montanhas, etc., então desenvolvemos uma tecnologia que é independente de infraestrutura e acreditamos que essa é a chave para o sucesso e a chave para entregas escalonáveis. Dito isso, quanto maior a banda que você tiver, melhor.
Você consegue entregar uma experiência de usuário melhor, a frota consegue se comunicar entre si, etc. Eu diria, porém, que é bom haver cobertura de internet para o caso de o veículo ficar preso. Pode haver situações em que ele precise de um operador humano para dar suporte. Chamamos isso de teleoperação, mas é só para tomada de decisões, não há direção remota.
