Além de insuficiência respiratória em algumas pessoas que infecta, o vírus já sufocou o crescimento econômico do mundo e do País para muito além de seu período de infecção. A cura da recessão que vem logo a seguir será lenta e dolorosa. |
Com certa dose de otimismo para não entregar os pontos, o governo reverteu a projeção de expansão do PIB brasileiro de 2% para zero. Especialistas já apontam para quedas de 0,7% a 1%. A indústria automotiva seguirá à reboque da crise.
O problema não é mais a provável falta de peças importadas – é possível até que elas sobrem agora. A doença está entre nós e, para mitigar sua disseminação seguindo orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, é necessário evitar aglomerações e com isso a partir desta semana quase toda a produção de motores e veículos leves e pesados foi suspensa no Brasil, em decisões que atingem mais de 30 fábricas e algo como 120 mil empregados diretos. Eles deverão continuar parados, em média, até o meio de abril – isso por enquanto, se o quadro da pandemia não se agravar. Ainda que a Covid-19 não representasse riscos aos funcionários, a parada de linhas seria necessária porque em breve não haverá mais para quem produzir, pela simples falta de consumidores.
A paralisação deve se estender para toda a cadeia do setor, tanto para trás, nos fornecedores de autopeças onde trabalham algo como 250 mil pessoas, e para frente, na rede de distribuição que emprega 328 mil funcionários em 7,1 mil concessionárias no País. Pode-se multiplicar algumas vezes o número de afetados ao se considerar a vasta teia de consumo que depende desses empregos.
O fato é que o estrago na indústria já está feito, é grande e tende a crescer. As primeiras estimativas da consultoria Bright apontam para perda de produção em torno de 130 mil unidades a menos do tinha sido projetado para 2020, o que significa que este ano devem ser fabricados 2,67 milhões de veículos no Brasil, em queda de 4% sobre 2019, revertendo a expectativa de crescimento em torno de 9%, interrompendo o ciclo de expansão que vinha sendo repetido desde 2017.
Contudo, o quadro pode ser bem pior, as suspensões de atividades podem ser estendidas se os efeitos da pandemia não passarem até o fim do próximo mês, assim como é de se esperar queda avassaladora da demanda provocada pelo isolamento das pessoas, aumento de desemprego e falta geral de dinheiro e confiança no mercado. Afinal, quem em gozo de perfeito juízo pensa em comprar um carro ou caminhão no Brasil hoje? A crise, portanto, será tão longa quanto for a persistência de uma resposta negativa a esta pergunta.
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O DESENHO DO DESASTRE |
Olhando em perspectiva, sem produção nem receitas as empresas demitem ou deixam de pagar seus funcionários, que por sua vez param de comprar. Alguns analistas já avaliam que o nível de desemprego no Brasil, hoje em torno de 11%, pode avançar para 30% com a perda total de atividade dos atuais subempregados, quase 30 milhões de pessoas.
A evolução dessa tragédia está diretamente ligada a quanto tempo a Covid-19 vai continuar a afetar a produção e o mercado. A maioria aposta que abril será o pico do contágio no Brasil, mas ninguém consegue determinar esse período com precisão, nem o tamanho exato do legado deletério do período de contaminação e paralisação da produção. Na dúvida, muitos já falam em início da recuperação só no último trimestre do ano – sem tempo, portanto, para recuperar o que foi perdido.
Para piorar, a atual administração federal do País age aquém da gravidade da crise, tenta impor medidas descabidas ou insuficientes para conter o avanço do vírus e da pobreza que ele gera. A preocupação mais visível parece ser desobrigar os empregadores a gastar com seus empregados, como se não fossem precisar deles nunca mais. O setor público e seus funcionários mais bem pagos, incluindo presidente, ministros, secretários, senadores, deputados, sequer cogitam em contribuir com parte de seus altos salários e verbas públicas para o esforço de salvar a economia nacional. Poucos lembram que já passou da hora de taxar fortunas construídas ao longo de décadas no Brasil tão desigual.
Enquanto isso, a maior parte do mundo civilizado dá alguns bons exemplos de políticas anticíclicas para preservar empregos e renda. As duas maiores economias da União Europeia, França e Alemanha, já anunciaram reduções e diferimentos de bilhões de euros em impostos, vão assumir parte do pagamento de salários para conter a esperada onda de desemprego. Tudo para garantir o futuro depois que esta crise passar. Ou, como dizem líderes melhor preparados, após “esta guerra” passar. E passará, mas não sem pesadas baixas – por isso este é o momento de se preparar para o pior, fazendo o melhor.
