logo

Ciro Possobom

VW contrai dívida atrelada a metas de ESG e diversidade, sob risco de multa

A Volkswagen elevou a aposta e o compromisso com diversidade e sustentabilidade no Brasil ao assumir uma dívida bancária atrelada a metas ESG (sigla em inglês para meio ambiente, sustentabilidade e governança). A companhia é a primeira montadora a fazer tal movimento localmente, em acordo com o Bradesco para assumir R$ 500 milhões em Notas de Crédito à Exportação (NCE), na categoria conhecida como Sustainable-Linked Loan, de título de dívida sustentável.
Author image

Giovanna Riato

02 fev 2022

4 minutos de leitura

rsz_volkswagen-sustentabilidade-diversidade-esg.png

Na prática, o empréstimo oferece juros sensivelmente mais baixos, mas está atrelado ao cumprimento das metas que a companhia assumiu para acelerar seu processo de diversidade e inclusão e de redução das emissões de carbono. Com isso, caso a empresa não alcance os objetivos no prazo especificado, estará sujeita ao pagamento de multas cujo valor não foi revelado.

“Nosso compromisso é elevar de 14% para 26% o número de mulheres em cargos executivos até 2024. No mesmo período, vamos aumentar de 9% para 25% o número de gerentes e gerentes-executivas do sexo feminino”, detalhou Ciro Possobom, que assumiu recentemente como COO (Chief Operating Officer) da Volkswagen do Brasil e é vice-presidente de Finanças e Estratégias de TI da Volkswagen Região América do Sul.

A companhia também se comprometeu a eliminar 12% das emissões de CO2 de origem fóssil de suas fábricas, substituindo a fonte de energia por biometano nos processos produtivos. Com isso, a organização aumentará a participação do gás em sua fonte energética para 20% até 2024, implementando a solução no processo de pintura, entre outros.

Foco em construção de imagem, não no dinheiro

Apesar do título de dívida pertencer a uma categoria sustentável, os R$ 500 milhões que a organização vai captar não serão destinados à ESG. “É uma operação financeira usual para levantar capital de giro”, diz Possobom. Pablo Di Si, que agora é presidente executivo da companhia para a América Latina, complementa:

“O ponto aqui é dar o primeiro passo, ser a primeira montadora a assumir um compromisso público dessa maneira. Precisamos de funding, mas não estamos fazendo isso pelo dinheiro, mas pela imagem da companhia e porque acreditamos em diversidade, em redução de CO2 e a nossa matriz, na Alemanha, tem muito interesse em acelerar esses temas para o futuro”, aponta Di Si.

Ele lembra que a iniciativa é coerente com a estratégia global Way to Zero da companhia para ser neutra em emissões de carbono até 2050. “Estamos estudando outros passos aqui no Brasil, com pesquisas em relação à energia solar”, diz Possobom. Di Si lembra que o país tem enorme vantagem nessa jornada pela matriz energética renovável.

“Quando investimos em etanol e em biometano, geramos benefício não só ao meio ambiente, mas também à sociedade. O ecossistema de produção dessas energias gera um PIB per capta maior, movimenta a economia”, diz. Segundo ele, o biometano a ser usado nas fábricas da companhia será fruto de acordo com a Raízen, que aumentará a sua produção para atender a Volkswagen.

Aceleração na jornada da diversidade

Di Si lembra que a Volkswagen vem trabalhando para elevar a diversidade e a inclusão já há alguns anos, mas entende que o compromisso público, com metas claras, vai acelerar essa jornada.

“Queremos que a Volkswagen seja exemplo em diversidade. E não só quando tratamos de mulheres, mas de pessoas negras, LGBTI+, com deficiência e de diferentes gerações”, diz o executivo.

Priscilla Cortezze, diretora de comunicação e de sustentabilidade da companhia, lembra que as metas públicas complementam uma série de ações já em curso na organização. “Em 2021, o programa de trainee da companhia já recrutou mais de 50% do público com foco em diversidade. Temos grupos de afinidade e, no ano passado, ampliamos esse trabalho de fomento à pluralidade para as nossas concessionárias”, diz.

Ela aponta que a decisão de impor metas para a presença feminina na liderança, mas não para outros grupos, é um primeiro passo importante. A executiva entende que começar com objetivos público para mulheres na liderança tende a render bons frutos no futuro. “Uma empresa mais equilibrada em gênero também tende a ser mais aberta e inclusiva às outras frentes da diversidade”, conta.

Se alcançados, os objetivos de fato levarão a companhia a um patamar superior à média do setor quando se trata de mulheres na liderança. Segundo a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, feita por Automotive Business com a coordenação técnica da MHD Consultoria, as mulheres têm participação de apenas 20% nas posições de gerência nas empresas do segmento. Em cargos de diretoria a participação é ainda menor, de 16%.