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1964

VW vai investigar envolvimento com ditadura no Brasil

Em um raro movimento, jamais feito por empresas brasileiras, o grupo alemão Volkswagen anunciou que vai investigar o próprio envolvimento da companhia com a ditadura militar no Brasil, regime que governou o País com mão de ferro de 1964 a 1985 e contou com o apoio de várias organizações empresariais e empresários. Por meio de comunicado em seu site internacional de imprensa, na quinta-feira, 3, a Volkswagen anunciou que contratou um historiador independente para conduzir uma pesquisa sobre esse período da subsidiária brasileira, o professor alemão Christopher Kopper, da faculdade de história, filosofia e teologia da Universidade de Bielefeld.
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Redação AB

04 nov 2016

3 minutos de leitura

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Por não ser funcionário da empresa, Kooper afirma que terá total independência para investigar as ações da companhia durante o regime militar no País, segundo relatou à BBC Brasil. Esse trabalho já vinha sendo conduzido desde 2014 por Manfred Grieger, que era diretor do Departamento de Comunicação Histórica do Grupo Volkswagen e foi afastado do cargo este ano. Em outubro de 2015, Grieger esteve em São Paulo para iniciar a negociação com o Ministério Público Federal (MPF) sobre uma proposta de acordo, com o objetivo de reparar judicialmente a participação da Volkswagen no financiamento ou envolvimento direto em eventos de repressão e tortura de empregados ligados à oposição política e ao movimento operário.

Em setembro do ano passado, o MPF recebeu documentos reunidos por 10 centrais sindicais, pesquisadores, ex-integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV, que investigou os crimes do regime militar) e ex-empregados da montadora, que pediram a abertura de inquérito para apurar a contribuição da Volkswagen do Brasil. Entre os documentos entregues aos procuradores, existem provas de colaboração da fabricante de veículos com órgãos de repressão, como a doação de carros ao Destacamento de Operações de Informações (DOI) do Segundo Exército, além de ofícios com o carimbo do Departamento de Segurança Industrial enviados ao Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP), onde são detalhadas as atuações de operários descritos como subversivos em manifestações e greves, que foram demitidos, colocados em listas negras ou até mesmo torturados. Há relatos sobre seções de espancamento de pelo menos 12 funcionários no interior da fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, conforme depoimentos de vítimas à CNV.

LUZ SOBRE ANOS SOMBRIOS

O Grupo VW classifica como “trabalho científico” a pesquisa que Kooper começará a fazer em breve, incluindo viagens ao Brasil. “Vamos esclarecer o papel da companhia durante a ditadura militar no Brasil, da mesma maneira como nos comprometemos com o amplo esclarecimento de questões relacionadas ao passado Nacional Socialista (nazismo) e o emprego de trabalho forçado [na empresa]”, disse Christine Hohmann-Dennhardt, membro do conselho de administração da Volkswagen responsável por integridade corporativa e questões legais. “Queremos jogar luz sobre os anos sombrios da ditadura militar e explicar o comportamento dos responsáveis naquela época no Brasil e, se aplicável, na Alemanha”, acrescentou.

O professor Kopper irá se reportar regularmente a um comitê interno da companhia sobre o progresso de seu trabalho. As conclusões do especialista serão depois divulgadas em um relatório aberto ao público. A Volkswagen estima que a pesquisa deverá tomar cerca de um ano para ser completada.

Na Alemanha, quase todas as grandes e centenárias empresas do país precisaram acertar as contas com o passado sombrio de colaboração com o nazismo, incluindo o uso de trabalho escravo de prisioneiros de campos de concentração. A própria Volkswagen foi criada em 1937 por uma organização sindical ligada ao Partido Nacional Socialista, forneceu veículos para as forças armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial e usou cerca de 15 mil trabalhadores escravos.