(Artigo desenvolvido em coautoria por Denise Veiga e Fernanda Modaelli)

A transformação da indústria automotiva tem ampliado a importância da escolha de materiais no desenvolvimento de veículos mais leves, eficientes, sustentáveis e competitivos. Embora a eletrificação seja um vetor relevante da intensificação do uso de alumínio na aplicação, seu potencial de uso não se restringe aos veículos elétricos. Por reunir propriedades únicas, o alumínio também favorece soluções em veículos híbridos, a combustão e pesados, em aplicações estruturais, sistemas térmicos, componentes de segurança e diferentes conjuntos mecânicos.
No Brasil, esse potencial é reforçado por características próprias da cadeia produtiva nacional. Segundo dados da Abal (Associação Brasileira do Alumínio) e do International Aluminium Institute, a intensidade de carbono do alumínio primário produzido no país é 3,5 vezes inferior à média mundial, enquanto cerca de 54% do alumínio consumido nacionalmente provém da reciclagem, ante uma média global de 38%. Esses fatores ampliam a relevância do metal em um cenário no qual eficiência energética, circularidade e redução das emissões de gases de efeito estufa assumem papel crescente nas estratégias da indústria automotiva.
Leveza como vetor de eficiência
Uma das principais vantagens técnicas do alumínio está em sua baixa densidade, equivalente a aproximadamente um terço da densidade do aço. Quando empregado em ligas de alta resistência e combinado a soluções adequadas de engenharia, o material permite reduzir a massa dos componentes sem comprometer os requisitos estruturais e de segurança exigidos pela aplicação automotiva.
Essa redução de massa repercute diretamente sobre a eficiência energética do veículo, uma vez que uma estrutura mais leve demanda menos energia para aceleração e deslocamento. Nos veículos a combustão e híbridos, esse ganho pode contribuir para a redução do consumo de combustível; nos veículos elétricos, favorece o uso mais eficiente da energia armazenada nas baterias e, consequentemente, pode ampliar a autonomia.
As propriedades do alumínio, contudo, não se restringem ao alívio de peso. O material também encontra aplicação em caixas e estruturas de proteção de baterias, nas quais características como capacidade de deformação e absorção de impacto contribuem para proteger as células e preservar sua integridade em situações de colisão.
Oportunidades também nos veículos híbridos e a combustão
A ampliação do uso do alumínio não depende exclusivamente do avanço da eletrificação. Veículos a combustão e híbridos também enfrentam exigências crescentes relacionadas à eficiência energética, redução de emissões, desempenho e segurança.
Nessas plataformas, o alumínio pode ser aplicado em componentes estruturais, painéis de carroceria, sistemas de arrefecimento, rodas, suspensões e partes do conjunto motriz. A redução de massa obtida com essas aplicações pode diminuir a demanda energética durante a operação, enquanto propriedades como elevada condutividade térmica ampliam sua utilização em componentes responsáveis pela gestão de temperatura.
O Brasil já apresenta exemplos desse desenvolvimento. Componentes extrudados em ligas de alta resistência foram aplicados nos modelos Toyota Corolla e Corolla Cross com objetivos relacionados à absorção de impacto, aumento de rigidez e redução de peso. Sistemas de arrefecimento também migraram para soluções em alumínio para aproveitar as propriedades térmicas do metal e reduzir a massa dos componentes.
Esses casos demonstram que a oportunidade do alumínio está relacionada menos ao tipo de propulsão adotado e mais à necessidade de desenvolver veículos capazes de entregar maior eficiência com menor uso de energia e materiais.
Veículos pesados: eficiência operacional e capacidade de carga
Nos veículos comerciais, especialmente caminhões e ônibus, a redução de peso apresenta uma dimensão adicional. Além de contribuir para o consumo energético, a diminuição da tara pode aumentar a capacidade de carga transportada dentro dos limites legais de peso, ampliando a produtividade da operação logística e reduzindo a pegada de carbono dos produtos transportados.
Um estudo realizado pelo Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie avaliou a substituição de aço de alta resistência por alumínio da liga 6082 em chassis de caminhões. A solução analisada possibilitou um acréscimo de 150 kg na capacidade de carga útil do veículo, com impactos econômicos estimados ao longo de sua vida operacional.
Nos ônibus, os ganhos também podem ser observados. O Marcopolo G8 incorporou 63% mais alumínio em relação ao modelo anterior, contribuindo, segundo os dados levantados e somado a outras melhorias aplicadas, para uma redução de 3% no consumo de combustível e de 2,4% nas emissões de gases de efeito estufa.
Em frotas de elevada utilização, ganhos incrementais de eficiência podem se acumular ao longo de milhares de quilômetros, produzindo efeitos relevantes sobre custos operacionais e emissões.
Desempenho, segurança e durabilidade
A contribuição do alumínio para o setor automotivo não se limita à redução de peso. Sua capacidade de dissipar energia por deformação controlada favorece aplicações relacionadas à segurança veicular, especialmente em componentes projetados para absorção de impacto, protegendo ocupantes, pedestres e componentes críticos.
O material também apresenta elevada resistência à corrosão devido à formação natural de uma camada protetora de óxido em sua superfície. Essa característica favorece a durabilidade dos componentes e pode reduzir a necessidade de intervenções relacionadas à degradação dos materiais ao longo da vida útil do veículo.
Do ponto de vista industrial, a conformabilidade do alumínio permite a fabricação de geometrias complexas por processos como extrusão e moldagem. Essa flexibilidade pode favorecer a integração de diferentes funções em um mesmo componente, reduzindo o número de peças e etapas de montagem em determinadas aplicações.
A decisão sobre materiais, portanto, não deve ser analisada apenas sob a ótica da substituição direta entre alumínio e aço. Em muitos casos, o maior potencial está no desenvolvimento de novas soluções de engenharia capazes de combinar redução de massa, desempenho estrutural, segurança, produtividade industrial e reciclabilidade.
O potencial industrial brasileiro
O avanço das exigências ambientais e de eficiência tem ampliado a importância da análise do ciclo de vida dos veículos. Nesse contexto, não basta avaliar apenas as emissões geradas durante sua utilização. A origem dos materiais, a energia limpa e renovável utilizada em sua produção, sua durabilidade e sua capacidade de reciclagem também passam a influenciar o desempenho ambiental da indústria.
O Brasil possui condições favoráveis para avançar nessa agenda. Além da menor intensidade de carbono associada ao alumínio primário nacional e da elevada participação da reciclagem no consumo doméstico, o país é o único no mundo a ter 100% de sua produção de alumina e alumínio primário certificados pela Aluminium Stewardship Initiative (ASI), seguindo os mais rigorosos padrões de gestão ambiental, social e de governança.
É também o único a reunir empresas certificadas em todas as etapas da cadeia produtiva — da mineração de bauxita ao refino, da transformação aos centros de coleta de reciclagem e à produção de embalagens finais —, além de dispor de uma cadeia verticalizada e capaz de atuar no desenvolvimento de ligas, componentes e processos produtivos voltados às necessidades do setor automotivo.
Ao final da vida útil do veículo, o material pode ser reciclado sem perda de propriedades, e então direcionado à produção de novos componentes e produtos dentro da própria cadeia da mobilidade, mantendo seu valor ao longo de sucessivos ciclos de reciclagem. A utilização de alumínio secundário também requer significativamente menos energia, consumindo apenas 5% da energia necessária em comparação com a produção primária, contribuindo para a redução dos impactos associados à produção do material.
Iniciativas de política industrial e inovação, como o Programa Mover e os instrumentos desenvolvidos anteriormente no âmbito do Rota 2030, também contribuem para aproximar empresas, instituições de pesquisa e fornecedores no desenvolvimento de novas soluções. Entre os temas já explorados estão ligas de maior resistência, processos de estampagem e tecnologias de união entre estruturas alumínio-alumínio e alumínio-aço.
Nesse cenário, ampliar o uso do alumínio significa transformar suas propriedades em ganhos concretos de desempenho, eficiência e competitividade. A eletrificação amplia essas oportunidades, mas não as limita. Veículos híbridos, a combustão e pesados também demandam soluções mais leves, eficientes e produtivas.
É nessa diversidade de aplicações que está o potencial do alumínio no Brasil. Mais do que acompanhar a transformação da mobilidade, o material pode ajudar a impulsioná-la, convertendo vantagens industriais e ambientais em inovação, competitividade e valor para toda a cadeia automotiva brasileira.

Denise Veiga é engenheira de materiais e gerente da área técnica da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), onde atua em iniciativas de capacitação, normalização e inovação. É gestora do Comitê Brasileiro do Alumínio (ABNT/CB-035), com atuação voltada ao fortalecimento da competitividade, à disseminação do conhecimento e ao desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do alumínio.

Fernanda Modaelli é administradora pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e consultora de inovação na Piera Consultoria, com atuação em pesquisa aplicada, desenvolvimento de estratégias de inovação e articulação entre diferentes atores do ecossistema produtivo, especialmente em projetos voltados ao desenvolvimento industrial, sustentabilidade e transformação de setores econômicos.
*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.