
Em 2014, vivi o meu grande divisor de águas profissional. Após 21 anos de trajetória corporativa, aos 45 anos de idade e com o desafio de criar duas filhas então com onze e nove anos, assumi a Diretoria de Comunicação e Relações Públicas da Goodyear na América Latina. O peso daquela cadeira veio acompanhado de um dado estatístico que me atravessou: em 99 anos de história da companhia na região, eu era a primeira mulher a ocupar aquele cargo na diretoria.
Foi ali, sentada àquela mesa, que minha consciência despertou de forma definitiva. Percebi, com uma nitidez desconfortável, a desigualdade de gênero e a ausência de diversidade nas esferas de poder — não apenas no setor automotivo, mas em toda a nossa sociedade. De 2014 para cá, evoluímos? Sem dúvida. Mas, como alguém que sentiu na pele o que é ser “a primeira” após quase um século, afirmo: não estamos evoluindo na velocidade que o mundo e o mercado precisam.
Engenharia humana versus eficiência da máquina
Muitos olham para a indústria automotiva e enxergam apenas engenharia, tecnologia e a busca pela eficiência máxima da máquina. Eu convido você a olhar para o outro lado da moeda: a engenharia humana que move o setor. Se olharmos pelo retrovisor dos últimos 30 anos, vemos uma evolução tecnológica sem precedentes. Mas, se olharmos para o lado, nas mesas de decisão onde o futuro é traçado hoje, pergunto: o quanto essa imagem reflete o Brasil que consome nossos carros?
Estamos investindo bilhões na transição para veículos elétricos e conectados. Contudo, será que uma liderança homogênea consegue projetar soluções para um público inerentemente diverso? O risco que corremos é o de construir o futuro com pontos cegos.
O retrato da desigualdade em números
Os dados da 5ª edição da pesquisa “Diversidade no Setor Automotivo”, da Automotive Business, mostram um cenário de avanços e alertas críticos. Hoje, 81% das empresas do setor afirmam ter orçamento carimbado para Diversidade e Inclusão (D&I). O tema deixou de ser acessório para se tornar governança. A participação feminina atingiu o recorde de 24% em 2025, e somos maioria nos programas de entrada, representando 55% de participantes nos programas de estágio e trainees.
No entanto, o funil é cruel. Nossa representatividade desaba conforme a hierarquia sobe: apenas 15% das cadeiras de CEO e 14% dos conselhos são ocupados por nós, mulheres. E quando olhamos o recorte de raça, o cenário é ainda mais alarmante: apenas 1% da liderança do setor é ocupada por mulheres negras, que representam uma em cada três pessoas no Brasil. Onde, como e por que estamos perdendo esses talentos?
A resposta, muitas vezes, reside na falta de intencionalidade em garantir que sejamos efetivamente incluídas e promovidas, especialmente quando escolhemos a maternidade. Entre 2020 e 2025, mais de 380 mil mulheres foram demitidas em até dois anos após o retorno da licença-maternidade, aqui no Brasil. A maternidade ainda é o ápice da desigualdade de gênero nas corporações. Não é falta de capacidade — afinal, temos maior escolaridade e somos maioria nas universidades — é falta de um sistema que valorize a diferença como um ativo de negócio.
Enquanto o mundo recua, Brasil avança
Enquanto o cenário global mostra sinais de retrocesso, com gigantes revendo programas de D&I sob pressão, o mercado brasileiro mostra-se contracíclico: 94% das empresas do setor afirmam que continuarão investindo em programas, iniciativas e ações em 2026. Mas não basta “parecer diverso” para garantir reputação; é preciso “ser inclusivo” para garantir a sustentabilidade.
A inclusão das diversidades humanas é Inteligência Operacional. Empresas verdadeiramente inclusivas constroem segurança psicológica e geram orgulho de pertencer. Sem isso, o setor vira uma “porta giratória” de talentos. O desafio para 2026 não é mais o que move o carro, mas quem tem o direito de projetar, construir e decidir para onde ele vai.
Aos 85% de líderes homens que ocupam as cadeiras de comando: o papel de vocês é usar esse lugar de poder, com consciência e coragem, para acelerar a transformação cultural e corrigir distorções históricas. Somos filtros, barreiras ou aceleradores. Nosso caráter, como líderes, é o verdadeiro motor da transformação.
Afinal, liderança é caráter em movimento. E a pergunta que não quer calar é: estamos liderando por conveniência ou por consciência?

Neivia Justa é executiva sênior e ativista corporativa com mais de 30 anos de experiência liderando times de Comunicação e Diversidade em empresas globais como Timex, Natura, GE, Goodyear, J&J e UHG. Jornalista, pós-graduada em Marketing, MBA em Varejo, é palestrante, mentora, professora, escritora, conselheira consultiva e fundadora da consultoria #JustaCausa. É a criadora do programa #lídercomneivia e dos movimentos #ondeestãoasmulheres e #aquiestãoasmulheres. Venceu o Troféu Mulher Imprensa e o Prêmio Aberje (2017) e é Top Voice LinkedIn no Brasil desde 2018. Em 2022, foi uma das 50 líderes globais do Vital Voices Visionaries. Eleita Top Voice Latin America (2022/2023) e Top 2 Thought Leader da América Latina (2024–2026). Em 2026, figurou entre as 150 Global Thought Leaders pelo Thinkers 360. Em 2025, foi escolhida uma das 50 mulheres líderes do Brasil no SW50 Santander É coautora de nove livros, entre eles Diversidade e inclusão e suas dimensões, Mulheres na Gestão de Reputação e A Essência da Influência, conselheira consultiva e membro do comitê de comunicação do 30% Club Brasil, diretora de DEI na Aapsa-SP, embaixadora e conselheira da Plan International Brasil.
*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business
