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Opinião

O próximo desafio da eletrificação no Brasil não está na tecnologia, mas na decisão do consumidor

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Robson Thomaz

01 set 2026

4 minutos de leitura

O mercado brasileiro de veículos eletrificados vive seu melhor momento. Depois de anos como “conversa de futuro”, elétricos e híbridos deixaram de ser nicho e passaram a disputar espaço real nas concessionárias e na vida dos brasileiros.

A eletrificação da frota brasileira deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma realidade cada vez mais presente. Novos modelos chegam ao mercado em ritmo acelerado, montadoras ampliam seus portfólios, a infraestrutura de recarga avança gradualmente e os investimentos na cadeia automotiva reforçam que a transição energética já começou.

Os números confirmam essa tendência. O mercado de veículos eletrificados registra crescimento consistente ano após ano, impulsionado por uma oferta mais diversificada, avanços tecnológicos e pelo interesse crescente dos consumidores em soluções de mobilidade mais eficientes e sustentáveis.

De acordo com dados da ABVE (Associação Brasileira de Veículo Elétrico), com 18% de participação (market share) em junho e 16% ao longo do primeiro semestre, o mercado brasileiro de veículos leves eletrificados mais do que dobrou em 12 meses e entrou em novo patamar em 2026.

Ainda analisando os dados da ABVE, de janeiro a junho, as vendas atingiram 215.023 unidades, total 125% superior ao do mesmo período de 2025 (95.493). Só em junho foram 47.579, mais um recorde mensal. A média mensal de vendas no semestre foi de 35.837. A cada 100 veículos leves comercializados no Brasil no primeiro semestre, 16 foram eletrificados, ou seja, 100% elétricos (BEV), híbridos plug-in (PHEV) e híbridos sem recarga externa, mas com tração elétrica (HEV e HEV flex). Em junho, 18 para cada grupo de 100.

Os números apontam para uma mudança estrutural no comportamento do consumidor brasileiro. O mercado doméstico total do setor automotivo cresceu 20% no semestre. Já os eletrificados, com aumento de 125% no período, cresceram seis vezes mais.

Mas por trás dos números positivos existe um problema que a indústria ainda não resolveu: o consumidor continua sem saber, de fato, qual tecnologia serve para a sua vida. Esse obstáculo menos visível que pode limitar a velocidade dessa transformação é a dificuldade do consumidor em tomar uma decisão de compra.


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Durante muito tempo, o debate sobre eletrificação esteve concentrado em dois temas principais: preço e infraestrutura de recarga. Ambos continuam relevantes, mas deixaram de ser os únicos fatores que influenciam a adoção dessa tecnologia. À medida que o mercado amadurece, surge um novo desafio: ajudar o consumidor a compreender qual tecnologia faz sentido para sua realidade.

Hoje, quem deseja adquirir um veículo eletrificado encontra um cenário muito mais complexo do que há poucos anos. Há modelos híbridos leves, híbridos convencionais, híbridos plug-in e veículos totalmente elétricos. Soma-se a isso uma enorme quantidade de informações técnicas sobre autonomia, tipos de bateria, carregamento, consumo energético, incentivos fiscais e custos de manutenção.

Para quem acompanha diariamente a evolução do setor, essas diferenças podem parecer simples. Para o consumidor, porém, elas costumam gerar dúvidas suficientes para adiar a decisão de compra.

Esse é um gargalo que muitas vezes passa despercebido.

O mercado cresceu, mas a jornada ainda é fragmentada

A indústria automotiva avançou rapidamente na oferta de produtos. O consumidor, por sua vez, ainda enfrenta uma jornada de decisão pouco integrada.

Grande parte da pesquisa acontece em ambientes digitais, onde informações de fabricantes, influenciadores, comparadores de veículos e fóruns especializados nem sempre convergem ou respondem às dúvidas específicas de cada perfil de motorista.

Nesse cenário, muitas pessoas chegam às concessionárias ainda sem clareza sobre qual tecnologia atende melhor às suas necessidades. Em outros casos, iniciam contatos apenas para entender conceitos básicos, quando ainda estão longe do momento efetivo da compra.

Isso gera um desafio para todo o ecossistema.

As montadoras ampliam investimentos para gerar demanda, mas nem sempre conseguem identificar com precisão a intenção de compra do consumidor. As concessionárias recebem um volume crescente de contatos, porém muitos deles representam pessoas em fase inicial de pesquisa, e não compradores prontos para fechar negócio.

O resultado é uma jornada menos eficiente tanto para quem vende quanto para quem compra.

O novo diferencial competitivo será orientar, não apenas vender

À medida que o mercado evolui, a vantagem competitiva deixará de estar apenas na tecnologia embarcada dos veículos. Ela estará, cada vez mais, na capacidade de orientar o consumidor durante sua decisão.

Mais do que apresentar especificações técnicas, será necessário compreender hábitos de mobilidade, perfil de uso, disponibilidade de recarga, rotina diária, custos de operação e expectativas de longo prazo.

A pergunta mais importante deixa de ser “qual carro você quer comprar?” para se tornar “qual tecnologia faz sentido para o seu estilo de vida?”.

Essa mudança aproxima o setor automotivo de outras indústrias que passaram por processos semelhantes de transformação digital, nas quais consultoria, personalização e uso inteligente de dados se tornaram diferenciais estratégicos.

Dados e inteligência artificial podem reduzir a incerteza

É justamente nesse ponto que tecnologias como inteligência artificial, análise de dados e automação podem assumir um papel decisivo. Ao integrar informações sobre comportamento do consumidor, histórico de navegação, perfil de uso e estágio da jornada de compra, essas ferramentas permitem compreender melhor as necessidades de cada cliente e oferecer recomendações mais precisas.

Em vez de apresentar dezenas de opções, torna-se possível indicar os modelos mais adequados para cada realidade, tornando a experiência mais simples e aumentando a confiança na decisão.

Ao mesmo tempo, montadoras e concessionárias conseguem identificar com maior precisão o grau de maturidade de cada oportunidade comercial, direcionando esforços para atendimentos mais qualificados e relevantes.

A próxima etapa da eletrificação será a inteligência da jornada

A indústria automotiva venceu boa parte do desafio tecnológico. Os veículos estão mais eficientes, as baterias evoluíram, a autonomia aumentou e o mercado oferece opções para diferentes perfis de consumidores.

Agora, o principal desafio está menos na engenharia dos automóveis e mais na engenharia da experiência de compra. O crescimento sustentável da eletrificação dependerá da capacidade do setor de reduzir a complexidade da decisão, conectar informação de qualidade com atendimento consultivo e construir jornadas capazes de transformar dúvidas em confiança.

Porque, no fim, a principal barreira para a expansão dos veículos eletrificados talvez não seja o preço nem a infraestrutura de recarga. Seja a dificuldade do consumidor em descobrir qual tecnologia realmente faz sentido para sua rotina. A próxima revolução da mobilidade será impulsionada não apenas por motores elétricos, mas pela capacidade de transformar informação em decisões inteligentes.

Robson Thomaz ([email protected]) é CEO da ELTRO, hub especializado em mobilidade eletrificada que conecta consumidores, montadoras, concessionárias e o ecossistema automotivo por meio de informação, tecnologia e inteligência de mercado. A ELTRO tem como propósito oferecer conhecimento, transparência e orientação para que cada decisão seja tomada com segurança, confiança e autonomia, contribuindo para acelerar a adoção da mobilidade eletrificada no Brasil.

*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.