
O setor de transporte vive uma transformação. Durante muito tempo a competitividade esteve baseada majoritariamente na aquisição de ativos, expansão de capacidade e eficiência operacional, os próximos anos serão definidos por um conjunto de fatores: tecnologia, sustentabilidade, inteligência de dados e escassez de mão de obra qualificada.
A pergunta que os líderes empresariais devem fazer não é mais “como aumento minha frota”, mas sim “como torno minha operação mais inteligente, eficiente e resiliente”.
A era da frota conectada
A conectividade passou de diferencial para exigência básica.
Ônibus, caminhões, veículos leves e equipamentos passam a ter o status de sensores móveis, gerando informações em tempo real sobre comportamento do motorista, consumo de combustível, status mecânico e produtividade operacional.
Telemetria avançada, internet das coisas (IoT) e plataformas de gestão formam uma combinação poderosa que permitirá decisões muito mais rápidas e precisas.
Empresas que conseguirem transformar seus dados em ações práticas terão ganhos de disponibilidade da frota, redução de custos e o tão almejado aumento da segurança operacional.
Inteligência artificial sai do laboratório
A IA já começa a migrar do experimental para aplicações concretas do dia a dia.
Nos próximos anos veremos sistemas capazes de:
- Prever falhas mecânicas antes que ocorram (já comum em outros setores críticos como aviação)
- Otimizar rotas dinamicamente
- Ajustar escalas operacionais
- Antecipar demanda por passageiros e cargas
- Automatizar processos administrativos e de manutenção
- Interagir com os diversos sistemas que coexistem dentro das organizações e entregar uma visão integrada.
O impacto potencial é significativo. Em muitas operações o ganho virá da melhor utilização dos ativos já existentes e não da aquisição de novos veículos.
Sustentabilidade deixa de ser marketing
Pressões regulatórias, pressão dos investidores e dos próprios clientes acelerarão os processos de transição energética
Vemos hoje os veículos elétricos ganhando espaço, notadamente no transporte urbano, a realidade global mostra que a descarbonização será multitecnológica.
Além da eletrificação, veremos ganho em relevância:
- Biocombustíveis avançados
- Biometano
- Hidrogênio verde
- Combustíveis sintéticos
- Soluções híbridas
A escolha será baseada na aplicação, infraestrutura disponível e custo total de propriedade (TCO).
O debate passa de “qual tecnologia sairá vencedora” para “qual tecnologia fará mais sentido para cada operação e cliente”.
O crescente desafio da mão de obra
A tão temida falta de motoristas profissionais já é uma realidade em diversos países e tende a se agravar.
O envelhecimento da população economicamente ativa, associado ao menor interesse das novas gerações pela profissão, cria uma pressão estrutural no setor.
Como consequência, empresas precisarão investir cada vez mais em :
- Formação e capacitação;
- Melhoria das condições de trabalho;
- Ferramentas de apoio ao motorista;
- Programas de retenção;
- Automação de processos operacionais
Tecnologia será importante, mas a valorização das pessoas seguirá sendo um fator decisivo.
Vale ressaltar que institucionalmente o setor deve passar a agir para ser reconhecido como uma ótima oportunidade de emprego e de carreira. O que não é a visão do público em geral atualmente.
Segurança operacional em novo patamar
Sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS) estão migrando de veículos para as aplicações comerciais.
Recursos como:
- Frenagem autônoma de emergência;
- Controle de permanência em faixa;
- Monitoramento de fadiga;
- Detecção de pedestres e ciclistas;
- Redução de velocidade em pontos críticos;
- Câmeras inteligentes
Tendem a se tornar padrão em grande parte das frotas profissionais.
A segurança deixa de ser obrigação para se tornar ferramenta de produtividade e redução de custos.
Menos acidentes significam uma menor indisponibilidade de ativos, uma redução no custo de seguros e a proteção das pessoas.
Digitalização da cadeia logística
Movimento importante é a integração digital entre embarcadores, operadores logísticos, transportadores e clientes finais.
A visibilidade ponta a ponta (door to door) das operações passará a ser um requisito básico.
Clientes querem saber:
- Onde está a carga;
- Quando ela chegará;
- Qual o impacto de eventuais atrasos;
- Como está sendo medida e qual é a pegada de carbono do transporte.
A transparência operacional se transformará em diferenciação competitiva.
O conceito Fleet as a Service
Assim como o software migrou da venda para a assinatura, parte do mercado de transporte começa a experimentar modelos de “mobilidade como serviço”.
Nesse cenário, empresas começam a contratar disponibilidade operacional em vez de simplesmente veículos.
Fabricantes, locadoras e operadores passam a oferecer soluções integradas que incluem:
- Veículo
- Manutenção
- Documentação e taxas
- Conectividade
- Gestão e análise de dados
- Treinamento
- Serviços financeiros
Esta tendência pode alterar profundamente a relação entre operadores e fornecedores. A fidelidade a marcas específicas aqui vai por terra. Vale a melhor oferta que se encaixa nas demandas do contrato a ser atendido na ponta.
O que observar no Brasil
Embora muitas dessas tendências tenham origem na Europa, América do Norte e Ásia, o Brasil possui características únicas.
Nossa matriz energética mais limpa, a ampla disponibilidade de biocombustíveis, a alta geração de biomassa e por consequência biometano e a dimensão continental do país criam oportunidades específicas para soluções híbridas e de transição energética.
Corredores azuis e verdes e os investimentos em infraestrutura para alternativas energéticas poderão fortalecer algumas das soluções por região ou por aplicação.
Vale, também observar como o setor vai lidar com a crescente necessidade de sucessão nas empresas e aqui não me refiro somente aos proprietários, mas sim as estruturas administrativas e operacionais.
Além disso, a crescente profissionalização da gestão de frotas deve acelerar investimentos em digitalização, inteligência operacional e análise de dados.
As empresas que conseguirem combinar tecnologia, sustentabilidade e eficiência operacional estarão melhor posicionadas para capturar valor em um mercado cada vez mais competitivo.
Conclusão
O futuro do transporte não será definido apenas por veículos mais modernos e a solução energética adotada. Será definido pela capacidade das organizações de conectar pessoas (atrair, formar e reter), dados, tecnologia e sustentabilidade em uma estratégia integrada.
A próxima década tende a premiar menos quem possui a maior frota e mais quem consegue extrair o máximo valor de cada ativo, de cada quilômetro rodado e de cada decisão tomada.
Em um setor historicamente movido por potência e torque, a vantagem competitiva passará a ser impulsionada cada vez mais pela inteligência.
Acompanhe na Coluna #ABX26 artigos que abordam reflexões geradas nos debates de construção das nove trilhas do evento. Os textos são assinados por membros dos comitês de estudos do #ABX26, formados por profissionais especializados de consultorias, entidades e empresas do setor automotivo e da mobilidade.

Roberto Leoncini é um executivo com mais de três décadas de experiencia nos setores automotivos, de transporte e logística. Ao longo de sua trajetória ocupou posições de liderança em empresas como Scania e Mercedes-Benz, com atuação nas áreas de veículos comerciais, estratégia de negócios, desenvolvimento da rede, serviços e relacionamento com clientes Reconhecido pela sua visão estratégica e profundo conhecimento do mercado brasileiro de transporte, participou de importantes transformações do setor, contribuindo para o fortalecimento da competitividade da indústria e para a evolução das soluções de mobilidade no país Atualmente, atua como conselheiro e adviser de empresas ligadas aos segmentos de transporte, tecnologia, logística e monitoramento de frotas, apoiando organizações em temas relacionados a estratégia, governança corporativa, inovação, transformação digital e desenvolvimento de negócios.
*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.
