Caoa: como ficará o sonho de virar uma marca de carros?

Morte de Carlos Alberto de Oliveira Andrade nos fez enxergar o quanto sua empresa é importante em um país no qual o setor automotivo é tão dominado por estrangeiros

Por Leonardo Felix
  • 26/08/2021 - 00:00
  • | Atualizado há 1 semana, 5 dias
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    Dizem que nós, humanos, temos a mania de deixar para fazer todas as homenagens e elogios que uma pessoa merece só quando ela parte deste plano. Foi o caso de Carlos Alberto de Oliveira Andrade. Com uma aura de implacável e temível, recebeu muitas mensagens afáveis após o chocante e inesperado falecimento, há quase duas semanas.

    Eu forçaria a barra se tentasse estabelecer alguma relação de proximidade entre mim e “dr. Caoa”. Vi-o pessoalmente apenas duas vezes e só trocamos palavras em entrevistas coletivas. Fui tratado com respeito nas duas ocasiões, mas acho que ele só passou a saber quem eu sou, de fato, pouco tempo atrás, quando escrevi uma reportagem sobre o motor do novo Caoa Chery Tiggo 3X do qual ele não gostou muito. Faz parte da profissão...

    Este pequeno prolegômeno parece, mas não é em vão. Serve para dizer que esta coluna será sobre Caoa. O Caoa e a Caoa. Porque acredito que a morte de Carlos Alberto de Oliveira Andrade nos fez perceber um pouco mais a importância de uma empresa que se tornou a principal referência genuinamente brasileira no setor automotivo nacional. E cujo futuro, agora, fica um pouco mais incerto.

    CHINA TEM 80 MARCAS, JÁ NÓS...

    Nossa indústria automobilística tomou um caminho sui generis: mesmo sendo um dos dez maiores mercados do mundo e tendo um parque fabril robusto, com capacidade de produzir 5 milhões de veículos por ano, não temos nenhuma montadora relevante no cenário mundial. A China, que começou a fazer carros quase uma década depois de nós, já tem 80 marcas e começa aos poucos a invadir o restante do mundo.

    Nós, por nosso lado, tornamo-nos dependentes de empresas multinacionais que podem, como recentemente fez a Ford, decidir fechar tudo de uma hora para a outra e se instalar em outro lugar. E que podem, até mesmo, desativar uma marca nacional de certa relevância em nosso mercado, como a Troller, simplesmente porque é a dona da marca e faz com ela o que quiser.

    Nesse sentido, uma empresa como a Caoa se mostra muito importante para o Brasil. Porque uma Ford ou Renault da vida poderão até desistir de qualquer fábrica ou país no mundo, mas só vão deixar de operar ou fabricar carros em suas terras natais no dia em que forem à falência. O mesmo se aplica a uma operação como a Caoa no Brasil.

    Bem sabemos que Carlos Alberto de Oliveira Andrade entrou no ramo quase que por acaso. Sua biografia já foi contada e recontada várias vezes, especialmente nas últimas semanas. De concessionário, passou a importador; de importador, virou montador de carros da Hyundai. Agora, é sócio da chinesa Chery.

    A CINCO PASSOS DA RAINHA DA INGLATERRA

    Sua empresa, inclusive, vem colhendo os frutos de uma ousada joint venture (tão comum na China, mas pouco usual em um país como o nosso) que elevou o patamar da marca Chery, em um momento no qual os chineses estavam para desistir da operação, e da própria Caoa, elevada à condição de uma espécie de “cofabricante” de carros.

    Como escrevi acima, seria bem forçoso de minha parte dizer que eu era próximo ou amigo de Carlos Alberto de Oliveira Andrade. Entretanto, você já deve ter ouvido a máxima de que estamos sempre a cinco pessoas de conhecer até a Rainha da Inglaterra, certo?

    Por isso, posso dizer pelo menos que conheço gente que conheceu “dr. Caoa” mais de perto, e que sabe que o último grande sonho de sua vida era fazer a Caoa virar, ela própria, uma marca de carros, chamada assim, Caoa, sem Hyundai, Chery, Ford ou qualquer outra coisa no nome.

    PARTIU SEM COMPLETAR O SONHO

    O acordo com a Chery, inclusive, teria surgido como um importante degrau para atingir esse derradeiro objetivo. Só que Carlos Alberto de Oliveira Andrade se foi, sem concluir esta última etapa do projeto. Será sucedido por dois filhos ainda muito novos na gestão da empresa, e muitas dúvidas pairam no ar.

    Os herdeiros seguirão adiante com o sonho do pai? Contentar-se-ão com o cenário que a empresa vive agora? Vão tentar virar os rumos da empresa a outros negócios? Colocarão tudo a perder? E não menos importante: os comerciais com o locutor de voz gutural anunciando sempre “os melhores carros do mundo” vão continuar?

    O fato é que, sem Carlos Alberto de Oliveira Andrade, o setor automotivo brasileiro toma outro golpe, logo em sequência à descoberta de que a Troller vai morrer. Em nossa indústria tão dependente de estrangeiros, a Caoa é o mais próximo que temos de uma empresa nacional verdadeiramente forte e independente no cenário industrial automobilístico.