Renault renova produtos antigos quando deveria investir em novos

Marca ficou para trás nos ciclos de investimentos e agora precisa definir os rumos de maneira rápida enquanto ainda tenta se refazer do baque de uma pandemia

Por Leonardo Felix
  • 12/08/2021 - 00:00
  • | Atualizado há 1 mês
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    A poeira da bomba que a Ford lançou ao decidir fechar todas as suas fábricas no Brasil parece ter assentado, mas só parece. A fabricante americana deixou executivos de outras fabricantes com aquela pulga atrás da orelha, sem saber até que ponto vale a pena investir ou não em nosso mercado.

    Quem já provisionou investimentos em novas plataformas e tecnologias respira aliviado. É o caso da GM com a matriz GEM, da VW com a MQB, da Toyota com a TNGA, da Stellantis com a nova gama de produtos Jeep (Small Wide), Fiat (MLA) e Citroën (CMP), e da Honda com sua vindoura família de compactos prevista para entrar em cena no fim deste ano, começando pelo novo City sedan (seguido pelo inédito City hatch e pelo novo HR-V em 2022).

    Afinal, o mais complicado e custoso, que é adaptar nossas linhas para arquiteturas produtivas mais modernas e modulares, já foi feito por elas. A partir disso, criar novos produtos, globais ou locais, para extrair o máximo de retorno produtivo e financeiro a partir dessas bases torna-se mais fácil. Estão aí VW Nivus, Jeep Commander e nova Chevrolet Montana para provar.

    Entrementes, quem não iniciou um ciclo de investimentos desse tipo antes do coronavírus terá problemas sérios nos próximos anos, porque a pandemia drenou os cofres das fabricantes. Convencer as matrizes a assinarem cheques cheios de zeros está mais difícil que nunca, ainda mais se o contemplado estiver em um mercado que vem dando prejuízos bilionários e sucessivos nos últimos anos.

    Este é o cenário de absoluta incógnita em que vive a Renault no Brasil. Tempos atrás, a marca francesa se deu muito bem com a estratégia de lançar produtos da subsidiária romena de baixo custo Dacia sob sua insígnia. Foi assim que ela se consolidou como uma das cinco ou seis marcas mais populares de nosso território.

    Só que o cenário se transformou de maneira assustadora em pouco tempo, ao passo que a própria Renault hesitou e demorou demais para investir em novos segmentos, preferindo erroneamente manter o foco apenas nos produtos de alto volume e valor agregado mais baixo, como Kwid, Sandero e Logan.


    Brasil tinha planos para receber o estiloso SUV cupê de baixo custo Arkana e declinou do projeto

    OPORTUNIDADES PERDIDAS, PRODUTOS MAL POSICIONADOS



    Para se ter uma ideia, a fabricante teve uma oportunidade de ouro de explorar o mercado de SUVs cupês antes de todo mundo com o projeto Arkana (LJC). Ele chegou a ser testado no Brasil e usaria a plataforma B0 do Duster, de baixíssimo custo e já instaurada por aqui.

    Tinha tudo para ser um tiro certeiro e render bons vinténs aos franceses, especialmente porque tem um forte apelo visual (o que facilitaria a compra emocional) e atuaria no segmento e na faixa de preços hoje ocupada por Jeep Compass e Toyota Corolla Cross. Enquanto as montadoras destes dois modelos sorriem à toa, a Renault ficou só na vontade.

    Mesmo quando apostou, a marca do losango o fez com produtos que hoje se encontram em uma espécie de limbo mercadológico: afinal, a Duster Oroch é uma picape compacta para brigar com a Fiat Strada ou compacta-média para concorrer com a Fiat Toro? E o Captur, é compacto como o VW T-Cross ou compacto-médio como o VW Taos? Nem uma coisa nem outra, e é justamente isso que os deixa deslocados no balanço de vendas.

    NOVOS INVESTIMENTOS PARA VELHOS CARROS




    Renovação do Captur, assim como a do Duster, parece ser insuficiente para dar ao SUV o destaque que a Renault gostaria

    Recentemente, a marca anunciou um investimento de R$ 1,1 bilhão para renovar cinco modelos nacionais e estrear o motor 1.3 TCe turbo flex (já presente no Captur e que, em 2022, será usado também por Duster e pela nova Oroch) até o primeiro semestre do ano que vem.

    Parece alvissareiro, mas na verdade a companhia está apenas promovendo atualizações de meio de ciclo para produtos já antigos, incluindo aí o subcompacto Kwid e a linha de utilitários Master. Portanto, não são novidades que devem causar algum reboliço nem mudar de fato a situação complicada vivida pela marca no país.

    Além disso, o motor 1.3 TCe flex desenvolvido em parceria com a Mercedes-Benz e recentemente estreado pelo Captur vem importado e não tem previsão de nacionalização em curto prazo. Isso nos dá o tom de como a companhia francesa anda ressabiada com o mercado brasileiro.

    Se quiser sair do real sufoco, a Renault precisará investir sem medo na adoção da matriz modular CMF-B e na nacionalização dos propulsores 1.0 e 1.3 TCe, o que permitiria a troca de geração da dupla Sandero e Logan, do próprio Duster e ainda a chegada do SUV de sete lugares Bigster, isso sem falar em qualquer outro produto dos segmentos compacto e compacto-médio que a montadora quiser.


    Sedã turco Taliant antecipa o que seria uma nova geração (ou sucessor) do Logan no Brasil. Para que ele venha, fabricante precisa investir em plataforma nova

    Acredite, tudo isso já deveria ter começado a sair do papel, mas mais uma vez a fabricante hesitou, veio a pandemia e todos os projetos de 2023 para frente se encontram congelados. Para piorar, a recente onda de eletrificação tornou tudo mais nebuloso: vale a pena gastar fichas em tecnologias e produtos que chegarão ao mercado já com os dias contados?

    Ocorre que, se a Renault não se mexer, será difícil não perder espaço para concorrentes como Honda, Toyota, Caoa Chery e até mesmo a conterrânea Citroën, agora gerida pelo grupo Stellantis. Viver de produtos da base B0 é uma realidade que, infelizmente para a Renault, foi enterrada junto com a década de 2010.

    A fabricante precisará ter coragem e rapidez para tomar decisões sobre como reinvestir e se reinventar no Brasil, e precisa fazê-lo logo. Caso contrário, fica difícil imaginar para ela um futuro muito diferente daquele traçado pela Ford.

    Leonardo Felix é jornalista especializado na área automobilística há 10 anos. Com passagens por UOL Carros, Quatro Rodas e, agora, como editor-chefe da Mobiauto, adora analisar e apurar os movimentos das fabricantes instaladas no país para antecipar tendências e futuros lançamentos.