Plantio de mudas, carros elétricos e créditos de carbono: locadoras avançam na sustentabilidade

Após bater mais de 1 milhão de veículos no Brasil em 2020, empresas incluem metas ambientais em suas missões

Por VICTOR BIANCHIN, AB
  • 27/08/2021 - 10:53
  • | Atualizado há 2 semanas, 3 dias
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    2021 está sendo o ano em que a discussão ambiental entrou definitivamente na agenda das empresas de mobilidade, independentemente do setor. Enquanto os governos criam metas rigorosas de cortes de emissão de gases do efeito estufa e as montadoras prometem carros sustentáveis, outras áreas se perguntam: o que nós podemos fazer?

    No Brasil, as locadoras de automóveis também estão atuando para diminuir as emissões e contribuir contra o aquecimento global. Muitas iniciativas têm sido tomadas para impedir que a temperatura do planeta aumente em 1,5 oC até 2030, que é a meta estipulada pela maioria dos países.

    A Localiza, que tem frota de 274 mil carros no Brasil e está presente em cinco países da América do Sul, assinou o Pacto Global da ONU em 2017 e, desde então, tem realizado mudanças em sua operação para se tornar mais sustentável. Neste ano, a rede expandiu para 130 lojas o abastecimento com energia solar, mais que o dobro do que era em 2020. A eletricidade é proveniente de três fazendas solares próprias (em MG, RJ e PE) e de placas solares nos tetos das unidades.


    Localiza colocou placas solares nos tetos de unidades para neutralizar emissões

    As emissões de CO2 dos escopos 1 e 2 (energia elétrica, ar condicionado, carros utilizados por colaboradores) também foram neutralizadas por meio da aquisição de créditos de carbono de uma fábrica de cerâmica em Minas Gerais. “Beneficiamos uma fábrica de cerâmica de Ituiutaba, interior de Minas Gerais, que substitui a lenha nativa pela biomassa para alimentação de seus fornos e ainda realiza uma iniciativa de educação ambiental importante para a comunidade local”, afirma Rozalia Del Gaudio, diretora de comunicação e sustentabilidade da Localiza. As emissões do escopo 3 (frota alugada pelos clientes) estão sendo analisadas e devem ser contempladas em futuras iniciativas.


    Fábrica de cerâmica de MG com práticas sustentáveis vende créditos de carbono para a Localiza

    “Foram compensadas, no início deste ano, 19.540 toneladas de CO2 equivalente referentes à operação de 2019”, diz. Segundo ela, toda a frota dos funcionários da Localiza está com as emissões compensadas atualmente. Outra medida sustentável é a utilização de lavagem a seco em 60% da frota, o que ajudou a reduzir em 24,4% o consumo de água da empresa em relação a 2020.

    A Unidas, que tem uma frota de 178 mil carros, possui iniciativas similares. Entre 2019 e 2020, a empresa fez a compensação de mais de 143 mil toneladas de CO2 por meio da compra de crédito de carbono. Além disso, adquiriu energia renovável para 12 lojas em MG e adotou a lavagem a seco em 30% das lojas para consumidores finais.

    “Em julho deste ano, fizemos o lançamento do Programa Carbono Neutro, que visa neutralizar toda a emissão de gases de efeito estufa da frota da companhia até 2028”, conta Breno Davis Campolina, líder de frota e projetos na Unidas. O programa segue padrões internacionais estabelecidos pelo Global Reporting Initiative (GRI), organização que auxilia empresas, governos e outras instituições a entender o impacto dos negócios em questões de sustentabilidade. “Não estabelecemos um período limite para a duração do programa, de modo que ainda não temos uma previsão de encerramento. O objetivo é que ele se mantenha no longo prazo”, afirma Campolina.

    CARROS ELÉTRICOS



    Quando se trata de transporte automotivo, não há como não incluir na discussão os carros elétricos. Segundo projeções recentes da empresa de consultoria EY, eles serão maioria em vendas já a partir de 2033. Na Europa, será ainda mais cedo, em 2028.

    A Unidas foi a primeira locadora a oferecer a opção de veículos elétricos aos seus clientes, no começo de 2020, com o furgão Renault Kangoo ZE Maxi. “Desde então, ampliamos o nosso portfólio de veículos para todas as categorias, incluindo novos modelos como o Volkswagen Golf GTE, em novembro de 2020, e o BMW i3 em janeiro de 2021”, afirma Campolina. Hoje, a Unidas tem 400 veículos elétricos disponíveis, o que, segundo eles, é a maior frota eletrificada do Brasil disponível para locação, seja para frotas corporativas ou para consumidores diretos. “Acreditamos que esse é um movimento inevitável no longo prazo”, diz o líder de frotas e projetos.

    A Movida, que tem frota de 134 mil carros, aposta na mobilidade elétrica desde 2016, quando colocou pontos de carregamento e estacionamento de bicicletas elétricas para clientes em suas lojas. Em 2017, a locadora trouxe os patinetes elétricos “trikkes” para alguns pontos da orla do Rio de Janeiro e, em 2020, passou a oferecer o tuk tuk elétrico em Vitória, em parceria com a Uber.

    Em novembro do ano passado, a Movida passou a contar com o Nissan Leaf em sua frota, finalmente oferecendo a opção elétrica ao público. Hoje, são 100 elétricos ao todo, entre Leafs, BMW i3 e Minis. “Este é um começo”, pondera Wellington de Melo, analista de sustentabilidade sênior da Movida. “O futuro do carro elétrico no Brasil ainda está distante, pois precisa passar por um amadurecimento do consumidor e do próprio mercado, o que inclui toda a infraestrutura. Queremos ajudar a promover soluções na evolução da mobilidade urbana sustentável”, afirma.


    Nissan Leaf no pátio da Movida: mais de 100 modelos elétricos na frota

    A Movida assumiu oficialmente o compromisso de se tornar neutra em emissões até 2030. “Criamos um comitê de sustentabilidade e incluímos formalmente no nosso estatuto social o compromisso com questões socioambientais”, relata Melo. Para 2040, o objetivo é ainda mais ambicioso: tornar-se carbono positiva, ou seja, mitigar mais emissões de carbono do que a própria empresa gera. “Queremos impulsionar a transformação cultural e educacional na direção de um novo modelo para o capitalismo, que favoreça o bem comum”, afirma Melo.

    PLANTIO DE MUDAS




    Programa Carbon Free pretende plantar 1 milhão de mudas no Corredor de Biodiversidade do Rio Araguaia

    Uma das principais ações sustentáveis da Movida é o Programa Carbon Free, iniciado em 2009. Nele, cada cliente paga um real a mais para que a empresa faça a compensação das emissões da locação. Inicialmente voluntário, hoje ele é compulsório. Entre 2009 e 2019, foram plantadas mais de 54 mil mudas, que representaram o sequestro de mais de 8 mil toneladas de CO2. Mas os números cresceram: em 2020 sozinho, foram 32 mil mudas e 4,6 mil toneladas de CO2 sequestradas. “Suficiente para neutralizar dois anos de todas as emissões internas da companhia”, afirma Melo.

    Nos primeiros dez anos do programa, as mudas foram plantadas em regiões degradadas da Mata Atlântica, em parceria com a ONG SOS Mata Atlântica. Hoje, a parceria é com a ONG Black Jaguar Foundation. O novo projeto prevê o plantio de 1 milhão de mudas no Corredor de Biodiversidade do Rio Araguaia, que tem 10,8 milhões de hectares, conecta a Amazônia e o Cerrado e passa por seis estados (GO, MT, MS, PA, TO e MA). Segundo Melo, o plano é alcançar 1 milhão de mudas até o final 2022, o que resultará no sequestro de 146 mil toneladas de CO2 da atmosfera no decorrer dos próximos 26 anos.

    CARROS FLEX



    Outro grande movimento das locadoras brasileiras é a adoção de carros flex, ou seja, que podem ser abastecidos tanto por etanol como por gasolina. Na Localiza, eles já são 99% da frota, enquanto na Unidas e na Movida são 93%. “Acreditamos que o etanol é um combustível mais ambientalmente correto, com tecnologia desenvolvida no Brasil, adaptada ao nosso contexto e mais acessível do ponto de vista financeiro”, afirma Del Gaudio, da Localiza.

    Segundo a Unica (União da Indústria da Cana de Açúcar), a adoção do etanol reduziu a emissão de gases de efeito estufa em mais de 515 milhões de toneladas de CO2 entre 2003 (lançamento dos veículos flex no Brasil) e 2020. No entanto, especialistas apontam que os modelos flex não são uma opção tão sustentável assim, já que, para serem homologados, os motores são calibrados para poder emitir a mesma quantidade de poluentes tanto com gasolina como com etanol.

    Em março deste ano, a ABLA (Associação Brasileira das Locadoras de Veículos) anunciou que o setor fechou 2020 com 1.007.221 veículos, um recorde. É pouco perante a frota total de veículos leves do país (58,5 milhões, segundo o governo federal). Mas as locadoras permanecem como as maiores compradoras de novos modelos - 20,6% dos emplacamentos são feitos por elas. Isso simboliza a importância que elas têm na adoção de novas políticas sustentáveis para a mobilidade do Brasil.