Vice-presidente da Mobileye conta como empresa planeja atuar no mercado de robotáxis

Johann Jungwirth analisa cenário para o Brasil e fala dos desafios de entrar no setor de transporte autônomo, mercado que vai somar US$ 160 milhões

Por VICTOR BIANCHIN, AB
  • 16/08/2021 - 19:30
  • | Atualizado há 2 semanas, 1 dia
  • 5 minutos de leitura


    O ano está corrido para a empresa israelense Mobileye, que nasceu como uma startup e hoje é o braço da Intel para tecnologias de direção autônoma. A empresa firmou seu espaço como fornecedora componentes e softwares essenciais para que esses veículos funcionem e agora planeja novos (e ambiciosos) passos. Após anunciar, em abril, a parceria com uma startup para a criação de vans elétricas autônomas, a empresa revelou em julho o início dos testes de sua frota de modelos sem motorista nas ruas de Nova York.

    É o quinto território testado pela empresa. Antes dele, já vieram Jerusalém, em 2018, e Munique (Alemanha), Detroit (EUA), Xangai (China) e Tóquio (Japão) entre 2020 e 2021. A escolha por começar em Israel foi natural: além de ser o país nativo da Mobileye, é também um território onde já se estudam leis para o uso de carros autônomos.

    Como parte do anúncio de Nova York, a Mobileye colocou no ar um vídeo de 40 minutos de seu carro dirigindo sozinho (mas com um motorista presente por segurança) pela cidade:


    A empresa nasceu criando sistemas de direção assistida para veículos, os quais estão presentes hoje em 88 milhões de automóveis pelo mundo. Os sensores da empresa permitem que os carros mapeiem o entorno e “enxerguem” o que está à frente para tomar decisões.

    As imagens geradas pelas câmeras dos carros equipados com a tecnologia serviram para criar os mapas de alta definição que estão sendo essenciais para sistemas de direção autônoma. São 8 milhões de quilômetros mapeados mundialmente todo dia. Em 2020, a Mobileye comprou o Moovit, app de mobilidade, também para servir ao novo projeto.




    O plano com os carros autônomos não inclui apenas vender a tecnologia. A empresa que criar uma frota de robotáxis e colocá-la em operação comercial em Tel Aviv até 2025, mas o projeto já começa a operar como piloto no próximo ano. A meta é ambiciosa, mas, se considerarmos a rápida evolução dos negócios da empresa, tem tudo para se concretizar.

    Em entrevista exclusiva ao Mobility Now, Johann Jungwirth, vice-presidente de mobilidade como serviço (MaaS) da Mobileye falou a respeito do futuro da empresa:

    Como vai ser a implementação dos robotáxis da Mobileye em Israel?



    Vamos ter cinco fases para trazer nossa tecnologia pro mercado. A primeira é a que chamamos de Testes AV, com um motorista de segurança e um copiloto habitando nossos veículos autônomos e viajando para qualquer lugar que escolherem no mapa delimitado. A segunda é o que chamamos de Testes MaaS, ou seja, de mobilidade como serviço. Nessa fase temos o teste do app para chamar o veículo. A terceira fase é o que chamamos de “programa de passageiro antecipado”, mas ainda com motorista de segurança. A quarta fase é o mesmo programa de passageiro antecipado, mas sem o motorista. Até esse ponto, a operação não é comercial e as viagens são gratuitas e apenas para convidados. E a quinta fase é a operação comercial.

    A fase um começa em 2022? A pandemia não afetou o cronograma?



    Não, eu diria até que nos motivou, porque a Covid-19 nos mostrou que os passageiros querem viajar sem motorista por medo de infecção. Durante a pandemia, conseguimos expandir o negócio para Munique e Detroit, começamos os testes lá. O nosso objetivo não mudou. Ainda estamos em dia para conseguir a primeira operação sem motorista em 2022 em Tel Aviv, confiantes de que iremos atingir essa meta.

    Mas já haverá operação comercial?



    Deixamos isso em aberto porque depende de regulamentação por parte do governo. Mas a gente espera que aconteça no final do ano que vem.


    Além de fornecer tecnologias para que carros autônomos "enxerguem", Mobileye vai operar suas próprias frotas de robotáxis



    Você acredita que carros autônomos são o futuro do ride-hailing?



    Ao longo dos próximos anos, veremos uma transição no ride-hailing, ride-pooling, ride-sharing de motoristas humanos para frotas autônomas. A velocidade dessa transição vai depender de legislações locais e alguns outros fatores, mas estou 100% convencido de que o transporte sustentável sob demanda só será realizável se usarmos veículos autônomos.



    E claro que há outro grande fator, que é a segurança. Por ano, temos 1,3 milhão de mortes nas estradas e esse é um fator que me motiva pessoalmente.

    Quando a operação comercial começar, quantos carros vocês terão?



    Isso vai depender de regulamentação. Sabemos que a legislação está andando. Temos um novo governo agora em Israel e esse tópico tem sido bastante comentado. Fico feliz em ver que o trabalho está progredindo. Esperamos ter no começo cerca de 100 veículos por operadora no país. E, no longo prazo, o mercado global potencial é de cerca de US$ 160 bilhões no campo dos robotáxis.

    Recentemente, a Mobileye passou a utilizar veículos da Nio em vez dos da Volkswagen na fase de testes. Por quê?



    A nossa colaboração com a Volks continua, eu tenho reuniões semanais com eles e estamos trabalhando nessa parte em paralelo. Você pode esperar ver os veículos da Volkswagen em Tel Aviv no ano que vem com a nossa tecnologia autônoma. Para nós, era importante estarmos prontos já em 2022 para tirar o motorista de segurança. Analisamos os prazos da plataforma da Volks com a qual estávamos trabalhando e decidimos ter uma segunda plataforma veicular que já estivesse pronta para a direção autônoma. Isso nos dá um acesso mais cedo aos veículos que podem operar sem motorista.

    Quais são os maiores desafios do projeto até o momento?



    Em primeiro lugar, os prazos da legislação e da regulamentação. Temos influência limitada sobre esse aspecto. Em segundo lugar, a validação e a verificação geral da nossa tecnologia.



    São coisas que levam tempo, mas ajudam a melhorar nosso MTBF (“mean time between failures” ou “tempo médio entre erros”) para alcançar os níveis de segurança exigidos. Basicamente, isso é trabalho que leva tempo e estamos no meio disso.

    Por que escolher Israel para começar a operação de robotáxis?



    Em primeiro lugar, porque é nosso país natal e fazer o desenvolvimento, a testagem e a validação aqui, nas nossas portas, é mais fácil e natural. Além disso, nós temos as condições perfeitas aqui em Tel Aviv. É um lugar muito aberto a testar novas formas de mobilidade, desde micro, como as e-scooters, até os VLTs.

    E quanto ao resto do mundo?



    Nós temos objetivos globais. Estamos nos EUA, na Alemanha, no Japão, na China. Sobre a América do Sul, nós não temos planos ainda, mas temos o Moovit como parte dos negócios da Mobileye e da família Intel.

    E, para o Moovit, o Brasil é um mercado muito importante, então estamos de olho nele. Vamos acompanhar a evolução da legislação. A América do Sul não é tão longe da América do Norte.



    Como a operação de vocês vai se destacar entre as outras iniciativas de carros autônomos atuais?



    Nós temos uma abordagem em três partes que chamamos de Trindade Mobileye. Uma é a RSS, a segurança de responsabilidade sensitiva, um modelo para segurança em nossas políticas, e isso nos ajudou a ir para várias cidades com as mesmas políticas. A segunda é o que chamamos de redundância verdadeira. Acho que somos a única empresa do mundo que está desenvolvendo a tecnologia autônoma em dois subsistemas independentes, um baseado em câmeras, outro baseado em radares e lidares.

    Qualquer um deles sozinho consegue executar a direção autônoma. Mas, para atingir maior MTBF, temos dois. E o terceiro item é o mapeamento autônomo, que é o nosso core business no momento e é o que nos permitiu criar os mapas 3D para nossos veículos autônomos. Essa é a nossa vantagem competitiva em relação às outras empresas. Nós não temos que criar os mapas do zero quando chegamos a uma nova cidade.

    A operação de vocês vai depender da infraestrutura 5G?



    Não. Para nós, é importante que nossos carros autônomos não dependam de infraestrutura, nem de 5G nem de qualquer conexão com a internet. Nossos veículos conseguem dirigir com 3G, 4G, 5G ou nenhum G. Há muitas áreas em que há túneis, edifícios altos, montanhas, etc., então desenvolvemos uma tecnologia que é independente de infraestrutura e acreditamos que essa é a chave para o sucesso e a chave para entregas escalonáveis. Dito isso, quanto maior a banda que você tiver, melhor.

    Você consegue entregar uma experiência de usuário melhor, a frota consegue se comunicar entre si, etc. Eu diria, porém, que é bom haver cobertura de internet para o caso de o veículo ficar preso. Pode haver situações em que ele precise de um operador humano para dar suporte. Chamamos isso de teleoperação, mas é só para tomada de decisões, não há direção remota.