O polonês que trouxe a Mercedes-Benz ao Brasil

Há 70 anos Alfred Jurzykowski começou a escrever a história da produção nacional de caminhões e ônibus da marca alemã no País

Por PEDRO KUTNEY, AB
  • 05/08/2021 - 16:00
  • | Atualizado há 1 mês, 1 semana
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    Nome da rua da portaria principal da Mercedes-Benz do Brasil em São Bernardo do Campo (SP), onde a fábrica de caminhões e ônibus da marca foi inaugurada há 65 anos, em 1956, Alfred Jurzykowski é uma figura central na instalação da empresa no País. Judeu de origem polonesa, o empresário começou a escrever essa história no fim dos anos 1940, quando visitou pela primeira vez o Rio de Janeiro em busca de um novo fornecedor de cacau para sua empresa de biscoitos de chocolate nos Estados Unidos.

    Com muito capital e vocação para o multiempreendedorismo, Jurzykowski enxergou no precário transporte público do Rio uma oportunidade de produzir chassis de ônibus no Brasil – e depois caminhões. O empresário, que havia ficado milionário com negociações de algodão e café e outros empreendimentos nos Estados Unidos, vislumbrou nas ruas brasileiras a chance de realizar o que não conseguiu anos antes na Polônia.



    Este texto integra a cobertura especial dos 65 anos da primeira fábrica da Mercedes-Benz no Brasil
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    Após servir no exército polonês e se formar na Universidade de Economia e Negócios de Viena, na Áustria, durante os anos 1930 o empresário montou uma loja de departamentos e foi concessionário Mercedes-Benz em Varsóvia. Ele tinha a intenção de investir na produção de veículos da marca na Polônia, mas o desejo foi frustrado pela invasão do país pela Alemanha nazista em setembro de 1939, dando início à Segunda Guerra Mundial, que obrigou Jurzykowski a lutar como segundo tenente da reserva, para logo depois fugir da Europa. (Pessoas que o conheceram relatam que ele escapou com centenas de joias e brilhantes colados ao corpo, que vendeu em 1940 ao chegar em Nova York para iniciar seus negócios na América.)

    FIADOR DA MERCEDES-BENZ DO BRASIL COM AJUDA DE MILITARES




    Jardineira com carroceria montada sobre chassi do caminhão Mercedes-Benz L-312 importado da Alemanha: primeiro negócio de Jurzykowski no Brasil

    Ironicamente, foi com o dinheiro da fuga dos nazistas que o polonês multiplicou seu capital e, quase uma década depois, conseguiu a representação exclusiva de uma empresa alemã no Brasil. Lançando mão de suas antigas relações na Daimler-Benz, em 1949 Jurzykowski fundou a Distribuidores Unidos do Brasil S.A., tornando-se importador oficial de veículos Mercedes-Benz no mercado brasileiro. Foram importados na época centenas de chassis curtos de caminhão, adaptados no Rio de Janeiro como base para ônibus.

    Com o sucesso instantâneo das primeiras vendas, Jurzykowski queria ser mais do que um importador, mas a Daimler-Benz não confiava no distante e (talvez até hoje) incompreensível Brasil, muito menos queria sócios em outros países. Mais uma vez o empresário polonês se utilizou de sua rede de relacionamentos e recorreu a militares americanos em posições de comando na Alemanha ocupada do pós-guerra, para obter a representação dos interesses da empresa alemã no Brasil. E conseguiu. Em 1950, nas mesmas instalações do Rio de Janeiro, começou a montar caminhões Mercedes-Benz importados semidesmontados da Alemanha. A linha rapidamente chegou ao topo da capacidade de entregar dez veículos por dia para atender a imensa demanda brasileira de transporte de cargas.


    A linha de montagem dos Mercedes L-312 e o anúncio de lançamento em 1950: investimento da Distribuidores Unidos do Brasil, a empresa de Jurzykowski

    Em 1951, ainda no segundo governo Getúlio Vargas, o polonês apresentou à Comissão de Desenvolvimento industrial (CDI) os primeiros planos para a fabricação local de caminhões e ônibus Mercedes-Benz e seus motores diesel. Assim, mais do que fundador, Jurzykowski tornou-se praticamente o fiador da empresa alemã no Brasil.

    Para fazer a fábrica brasileira, Jurzykowski também contou com a ajuda de militares brasileiros envolvidos na industrialização do País – que anos antes, por considerar o setor automotivo estratégico, criaram a graduação de “engenheiro de automóveis” no Instituto Militar de Engenharia (IME). Um desses militares foi o general reformado Edmundo de Macedo Soares, engenheiro metalúrgico que no governo Vargas no fim dos anos 1930 até 1946 participou da equipe que planejou e construiu a Usina de Volta Redonda (RJ) e foi o primeiro diretor técnico da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, a primeira aciaria da América Latina. Macedo Soares também tinha muitas ligações políticas, em 1946 foi nomeado ministro da Viação e Obras Públicas na gestão do general Eurico Gaspar Dutra, até ser eleito governador do Estado do Rio de Janeiro em 1947, cargo que ocupou até 1951.

    Patrocínio


    Em depoimentos para o livro“Um Construtor do Nosso Tempo” (1998), publicado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Macedo Soares conta que foi procurado em sua casa por Jurzykowski: “O senhor é siderurgista, portanto entende de automóveis. Quero fabricar um caminhão no Brasil”, teria dito o empresário polonês ao general engenheiro brasileiro. “Nisso eu posso ajudar”, respondeu Soares, que então disse ter sido surpreendido: “Então vai ser presidente da minha companhia”, convocou Jurzykowski, que foi atendido.

    Naquele momento, em 1953, o polonês já montava caminhões e chassis de ônibus também no bairro da Móoca, em São Paulo, e tinha contrato assinado com o grupo Daimler-Benz para produzir no Brasil motores – e depois caminhões. A empresa alemã entrou inicialmente com 25% de participação na recém-criada Mercedes-Benz do Brasil S.A., pessoa jurídica que substituiu a Distribuidores Unidos.


    Macedo Soares (esq.) e Alfred Jurzykowski: plano para construir a fábrica da Mercedes-Benz, com a compra do terreno em São Bernardo em 1953

    “Decidimos escolher o terreno em São Bernardo do Campo e começou a construção da fábrica. Quem financiou a construção foi o próprio Jurzykowski, não pediu um tostão de financiamento ao BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, hoje o BNDES), porque tinha muito dinheiro”, relatou no livro Macedo Soares, que integrou o conselho consultivo da nova empresa e foi vice-presidente entre 1960 e 1967.

    ANTES DA FÁBRICA, MOTORES



    Meses antes da inauguração da fábrica de São Bernardo, Jurzykowski já tinha começado a produzir em São Paulo os motores diesel da Mercedes-Benz, o que marcou o início de uma mudança profunda na matriz energética do transporte de cargas e passageiros no Brasil, até então dominado pelo modelo norte-americano de uso generalizado da gasolina como combustível – a única exceção na época era a FNM, que usava em seus caminhões propulsores diesel importados da Alfa-Romeo na Itália.

    A história da produção dos primeiros motores diesel no Brasil começou em 1955, quando a Mercedes-Benz entrou como sócia da Sofunge (Sociedade Técnica de Fundições Gerais S.A.), que em dezembro daquele ano realizou na planta no bairro de Vila Anastácio, em São Paulo, a primeira fundição de blocos de motor da América Latina – com a presença de Juscelino Kubitschek, já eleito e pouco antes de ser empossado na Presidência da República. (Em 1969 a Mercedes adquiriu o controle total da Sofunge e vendeu a unidade para a Tupy em 1995, que fechou a unidade em 1996.)

    No início de 1956 Jurzykowski já estava usinando os blocos fundidos na Sofunge e produzindo os primeiros motores diesel nacionais; e começou a vendê-los também para quem quisesse substituir o motor a gasolina de seu caminhão de qualquer marca – como mostra um anúncio publicado em março de 1956, em que a oficina Bramasa oferece o serviço de troca pelo propulsor Mercedes e promete reduzir o consumo de combustível à sexta parte.


    Juscelino Kubitschek inaugura a fundição de blocos da Sofunge em dezembro de 1955 e Jurzykowski começa a vender motores Mercedes: o anúncio de março de 1956 com vida proprietários de caminhões a gasolina de qualquer marca a trocar o propulsor por um diesel com vantagem de economizar combustível

    Motoristas e frotistas brasileiros consideravam os veículos diesel lentos e tinham receio da manutenção complexa e cara. Para mudar essa visão a Mercedes lançou na época campanhas publicitárias para propagar o menor custo de operação dos seus veículos “três vezes mais econômico que os caminhões a gasolina”, dizia um dos anúncios. Também prometia velocidade média mais constante e gastos menores de manutenção, com necessidade de retífica a partir de 300 mil quilômetros, cerca de três menos do que os 80 mil km dos concorrentes a gasolina.

    RELAÇÃO CONFLITUOSA, MAS LUCRATIVA



    Com a inauguração da fábrica de São Bernardo em setembro de 1956, a Daimler-Benz se interessou mais pela operação lucrativa no Brasil e aumentou para 50% sua participação na empresa iniciada por Jurzykowski, dando início a uma relação nem sempre afável entre os sócios. “Como ficaram sócios em partes iguais, ninguém mandava, nem ele, nem a Mercedes, e eu fiquei no meio (como vice-presidente). Eles brigavam e eu resolvia, seguiam rigorosamente a minha decisão”, revelou Macedo Soares ao livro da FGV.


    Com anúncios em jornais e revistas, em 28 de setembro de 1956 o é inaugurada a primeira fábrica da Mercedes-Benz no Brasil, com a presença do presidente JK que dirige o caminhão L-312 ao lado do diretor técnico Ludwig Winkler: 50% do negócio pertencia a Alfred Jurzykowski

    A Daimler muitas vezes propôs comprar a parte do sócio polonês, que nunca aceitou vender enquanto esteve vivo. O conflito de liderança, contudo, nunca impediu o rápido e rentável avanço da empresa no Brasil, que antes mesmo da inauguração da fábrica iniciou um intensivo processo de nacionalização de produtos e treinamento de pessoas – foi a primeira fábrica em São Bernardo a instalar, em 1957, uma escola do Senai, que funciona até hoje. Segundo Macedo Soares, o próprio Jurzykowski financiava escolas e cursos. “O pessoal mais qualificado era formado nos Estados Unidos, na Europa e no Instituto Militar de Engenharia (IME)”, contava o ex-general empresário.

    A Mercedes-Benz foi a fabricante que apresentou o maior número de projetos ao GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), criado em 1956 já no governo JK para incentivar a instalação da indústria automotiva no Brasil, com metas de localização até 1959 acima de 90% em peso. Na época, a Mercedes entregou ao GEIA projetos para produzir quatro veículos nacionais: dois caminhões, um ônibus e um automóvel médio, o sedã de quatro portas 180 – único que jamais saiu do papel.


    Linha de produção dos caminhões Mercedes LP-321 em 1958: nacionalização acelerada

    “A Mercedes começou fazendo caminhões e depois passou para os ônibus (completos), só não fez automóvel. Eu quis muito fabricar aqui o Mercedes 190 a diesel, o automóvel que me servia no Rio, um carro excelente. Mas a Mercedes não fabrica seu automóvel em nenhum lugar do mundo, a não ser na Alemanha; monta, mas não fabrica”, prenunciava o general Macedo Soares em suas memórias.

    (Só em 1999 a empresa abriu a primeira fábrica brasileira de automóveis em Juiz de Fora (MG), convertida para a produção de caminhões a partir de 2010 após o fracasso do projeto; e em 2016 fez nova tentativa com a planta de Iracemápolis (SP), fechada no fim de 2020 por falta de rentabilidade.)

    O FIM DA SOCIEDADE



    Sempre investindo no País desde que chegou, o empresário polonês por vezes se ressentia de não ser reconhecido como cidadão do Brasil. Macedo Soares relatou uma dessas passagens: “De vez em quando ele me perguntava: ‘O que falta para eu ser brasileiro?’. Eu respondia: ‘Você se registre como Alfred Jurzykowski da Silva’. E ele, que não tinha o menor sense of humour, ficava furioso”.

    Em 1960, Alfred Jurzykowski decidiu voltar a morar nos Estados Unidos, mas manteve seus 50% na sociedade da Mercedes-Benz do Brasil. Em Nova York, abriu uma fundação em seu nome com o objetivo de promover a cultura polonesa, os cientistas e artistas do país e sua contribuição para o mundo. Ele faleceu aos 67 anos de idade na sua casa em Bronxville, em 29 maio de 1966, pouco mais de 25 anos após ter iniciado a história industrial da marca alemã em solo brasileiro. No mesmo ano, a Daimler comprou da família a participação de Jurzykowski e assim tornou-se dona de 100% da subsidiária brasileira.

    Após sua morte, o governo brasileiro concedeu a Alfred Jurzykowski a Ordem de Rio Branco, condecoração que reconhece as contribuições de cidadãos ou empresas ao País. A naturalização brasileira do empresário polonês ficou eternizada na rua que leva o seu nome em São Bernardo do Campo, na Portaria 1 da Mercedes-Benz do Brasil.


    A portaria principal da Mercedes-Benz em São Bernardo, na Av. Alfred Jurzykowski, carrega em seu endereço a naturalização de seu fundador polonês no Brasil